Brasil: Bolsonaro agrava crise diplomática com Noruega e Alemanha

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Foto: A. Machado [Reuters].

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, voltou a atacar a Noruega após críticas feitas pelo país nórdico e pela Alemanha à política ambiental brasileira. Os dois países europeus suspenderam os repasses do Fundo Amazônia, destinado a projetos de relevância ambiental na região, após a divulgação de dados que indicam um aumento alarmante do desmatamento, o que levou à demissão de Ricardo Galvão, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil.

O chefe de estado brasileiro publicou um vídeo em uma de suas redes sociais criticando a tradição norueguesa de caça às baleias. No entanto, as imagens haviam sido gravadas nas llhas Faroé, território do Atlântico Norte que faz parte da Dinamarca.

A crise diplomática se iniciou após a divulgação, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais brasileiro (INPE), de um aumento de 278% no desmatamento da região amazônica em Julho de 2019, em comparação com o mesmo mês no ano de 2018. O governo brasileiro reagiu de forma agressiva contra o instituto, alegando que os dados eram falsos e demitindo seu diretor, Ricardo Galvão, cientista de prestígio internacional.

Após a divulgação dos dados e a tentativa de censura do governo brasileiro, Alemanha e Noruega bloquearam parte dos repasses para o Fundo Amazônia, iniciativa criada em 2008 e administrada por uma comissão que seleciona quais projetos devem receber fomento. Em resposta, o presidente brasileiro utilizou suas aparições públicas e suas redes sociais para dirigir inúmeras críticas aos dois países, sugerindo, por exemplo, que a Noruega deveria doar sua parte da verba para a Alemanha reflorestar seu território. Além disso, acabou unilateralmente com a comissão que administra o fundo, extinguindo-o na prática e levando à suspensão total dos repasses pelos dois países europeus.

Um comunicado da embaixada da Noruega em Brasília afirmou que, considerando a dissolução dos conselhos que compõem o fundo, não há mais “fundamento jurídico e técnico para realizar a contribuição anual”, como relatado pelo jornal Folha de São Paulo. “Enquanto o conselho e o comitê técnico para calcular os resultados do desmatamento estiverem fechados, não há lugar para onde enviar o pagamento”, disse o ministro do Ambiente norueguês, Ola Elvestuen, ao ser entrevistado pelo jornal Dagens Naeringsliv.

Bolsonaro voltou à carga inúmeras vezes após o fim do fundo, chegando a dizer que os países desenvolvidos estavam tentando comprar indiretamente o território amazônico através do financiamento de organizações não-governamentais que atuam em território brasileiro.

A floresta amazônica, maior floresta tropical do planeta, cobre boa parte do noroeste do Brasil e se estende até a Colômbia, o Peru e outros países da América do Sul. É famosa por sua biodiversidade e entre o meio científico há consenso sobre sua importância na regulação climática do planeta, em especial no ciclo de chuvas da América do Sul e na fixação de carbono. A Noruega é a maior doadora do Fundo Amazônia, tendo repassado 3,1 bilhões de reais (aproximadamente 682 milhões de‬ euros) para a iniciativa nos últimos 10 anos, ao passo que a Alemanha doou cerca de 200 milhões de reais no mesmo período (aproximadamente 44 milhões de euros).

A crise diplomática diminui as chances de que vingue o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, algo propagandeado pelo governo brasileiro como uma medida benéfica para a economia no futuro. O acordo prevê menores tarifas de importação para produtos industrializados europeus ao entrarem no Brasil, bem como menores taxas para produtos agrícolas brasileiros ao entrarem na Europa. Sua assinatura, negociada há duas décadas mas efetivada este ano, tem causado divergências entre especialistas na América do Sul: alguns defendem que estimulará um setor importante das economias do Mercosul, enquanto outros afirmam que ampliará a desindustrialização e a dependência econômica dos países do bloco. Uma vez que o acordo prevê contrapartidas de preservação ambiental para sua efetiva implementação, a crise a respeito do Fundo Amazônia, que se converteu em crise diplomática, pode acarretar a anulação do acordo ou dificultar sua implementação.

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Redação do Fora!. Brasil: Bolsonaro agrava crise diplomática com Noruega e Alemanha. Fora!. Acessado em 19 de agosto de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/08/19/brasil-bolsonaro-agrava-crise-diplomatica-com-noruega-e-alemanha/>.

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Redação do Fora!. (19 de agosto de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/08/19/brasil-bolsonaro-agrava-crise-diplomatica-com-noruega-e-alemanha/.

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