Líbia: novos conflitos na disputa por regiões do país

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Blindados destruídos na parte externa de Misrata. Fonte: Wikimedia Commons.

Impasse sobre quem controla o governo do país é reflexo da deposição e execução do ditador Muammar Gaddafi em 2011.

Novos enfrentamentos aconteceram em três cidades líbias nos últimos dias. Primeiro em Trípoli e Misrata, no Norte do país, e depois em Murzuq, ao Sul. O confronto se deu entre apoiadores do marechal Khalifa Haftar e as forças do Governo do Acordo Nacional (GNA, no acrônimo em inglês).

Em Tripoli, o Exército Nacional Líbio (ENL), comandado por Haftar, atacou aeroportos e um hospital, deixando civis e funcionários do hospital feridos. O Conselho Presidencial líbio declarou, na sexta (16/08), que “os ataques terroristas das milícias de Haftar servem para desestabilizar a cidade”. O Conselho criticou também o silêncio da Missão de Apoio das Nações Unidas na Líbia. “A UNSMIL deveria se comprometer e nomear as coisas como elas acontecem. Deveria perder sua passividade desde que a ofensiva atacou o aeroporto de Zuara. A ofensiva continua a violar leis internacionais e a cometer crimes de guerra”, disse na declaração.

Uma milícia ligada ao general Haftar também executou 12 prisioneiros de guerra, que combatiam pelo GNA. O ministro da Saúde disse que “sinais de tortura e abusos foram encontrados nos corpos das vítimas”.

Em Misrata, um ataque com drones foi cometido pelas forças leais a Haftar nesse domingo (18/08), em uma escola de aviação. Aos residentes da cidade foi dito que eles se tornaram um alvo por serem contra o Exército Nacional Líbio (ENL), ficando implícito que os ataques aéreos são uma tentativa de persuadir os habitantes a adotarem uma postura mais neutra em relação ao ENL.

Por outro lado, o comandante da Força de Proteção do Sul, Hassan Moussa, grupo ligado ao GNA, disse aos repórteres que suas forças tomaram controle total de Murzuq após expulsarem as forças de Haftar em confrontos que duraram duas semanas. O desastre humanitário que ocorre na região matou mais de 90 pessoas e deixou mais de 200 outras feridas. O Conselho Presidencial acusou as forças de Haftar de criar conflitos entre tribos que vivem na cidade.

A Segunda Guerra Civil da Líbia se iniciou em 2014 e permanece sem resolução até o presente. O conflito teve início com controvérsias a respeito das eleições de 2014, que resultaram na formação de dois governos paralelos e duas tentativas de golpe de estado realizadas por Khalifa Haftar, que tinha o controle das forças terrestres do país, em Fevereiro e em Maio do ano em questão.

Mapa com a situação militar da Líbia em 9 de Abril de 2019. Fonte: Wikimedia Commons.

O mapa acima auxilia a compreender como o território se dividiu entre as partes beligerantes. As regiões em rosa estão sob controle de Haftar e do Exército Nacional Líbio. As regiões em verde claro estão sob controle do Governo de Acordo Nacional e das Nações Unidas, bem como de aliados reconhecidos internacionalmente, como a “Libya Shield Force”, uma amálgama de grupos controversa pelas suas relações com organizações classificadas como terroristas. As partes em verde escuro estão sob controle do Governo de Salvação Nacional, uma coalizão dos grupos políticos que perderam as eleições em 2014. As regiões em cinza estão sob controle do Estado Islâmico. As cidades com nome em azul são independentes e permanecem sob controle de forças locais.

O marechal-de-campo Khalifa Haftar, um dos principais atores do conflito, nasceu na cidade de Ajdabiya, no Nordeste do país. Ele serviu Muammar Gaddafi e tomou parte no golpe que levou este ao poder em 1969. Também serviu no contingente líbio durante a Guerra do Yom Kippur, contra Israel, em 1973. Em 1987 foi prisioneiro de guerra no conflito contra o Chade, o que resultou em um grande constrangimento para Gaddafi e constituiu um grande golpe contra as suas ambições no Chade. Na prisão, formou com outros oficiais um grupo para depor Gaddafi e foi libertado por volta de 1990 em um acordo com os Estados Unidos da América. Passou duas décadas nos EUA, em Langley, Virginia, o que lhe rendeu cidadania estadunidense. Em 1993 foi condenado à revelia por crimes contra o “estado das massas” (o próprio Estado líbio) e condenado à morte. Haftar ajudou a derrubar Gaddafi na Guerra Civil Líbia de 2011; em 2014 comandava o exército nacional quando se iniciou a Segunda Guerra Civil, por ocasião do Congresso Nacional Geral se recusar a sair do poder após o término do mandato de seus membros.

A matéria contou com acréscimos de David G. Borges e a supervisão de Gabriel Caio Corrêa Borges.

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ABNT:

Flávio Henrique Soeiro de Castro. Líbia: novos conflitos na disputa por regiões do país. Fora!. Acessado em 20 de agosto de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/08/20/libia-tensao-entre-grupos-geram-conflitos-em-disputa-de-regioes-do-pais/>.

APA:

Flávio Henrique Soeiro de Castro. (20 de agosto de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/08/20/libia-tensao-entre-grupos-geram-conflitos-em-disputa-de-regioes-do-pais/.

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