Análise: a FAB, o FX-2 e o Gripen

Tempo de leitura: 28 minutos
Arte: Marcio Vaccari.

Iniciado em 2006 sob o comando do Tenente-Brigadeiro do Ar Luiz Carlos da Silva Bueno, ainda no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o projeto FX-2 é uma remodelação e aprimoramento do projeto FX, e tem por objetivo ampliar e modernizar a Força Aérea Brasileira.

Esta análise contou com a co-autoria de David G. Borges.

O projeto inclui a aquisição de aeronaves de superioridade aérea, programas de aperfeiçoamento e adestramento da tropa, bem como investimento em inteligência e sistemas de vigilância/monitoramento do espaço aéreo; reafirma o papel do Brasil como potência bélica na América Latina e visa também a transferência total de tecnologia, em conjunto com uma política de desenvolvimento e ampliação da indústria aeronáutica brasileira.

Com um orçamento inicial entre US$ 2,2 bilhões e US$ 3 bilhões, o programa já investiu US$ 6 bilhões, nos quais se incluem a aquisição de 36 aeronaves JAS-39 Gripen NG, da empresa sueca Saab-BAE. A empreitada tem relevância histórica e tecnológica para o Estado brasileiro – sobretudo para a Força Aérea Brasileira, que deixou em segundo plano parceiros de longa data (como a França e os Estados Unidos) no fornecimento de aeronaves de superioridade aérea, enxergando na Suécia um novo parceiro para o desenvolvimento da 5ª geração de seus caças de alta tecnologia e a ampliação da indústria aeronáutica. A Embraer e os brasileiros já colheram parte dos frutos e espera-se que se beneficiem ainda mais no futuro – com investimentos na casa dos US$ 150 milhões para a implementação de uma planta fabril no interior do estado de São Paulo por parte da Saab, além de toda a transferência de tecnologia e, obviamente, das receitas inerentes às vendas das aeronaves para outros países.

A concorrência no projeto FX-2

O Gripen NG concorreu na fase final do projeto FX-2 com as aeronaves Rafale F3, da empresa francesa Dassault, e o lendário F/A-18E Hornet, produzido nos Estados Unidos pela Boeing e empregado no esquadrão de demonstrações da marinha dos EUA, os Blue Angels.

O JAS-39 Gripen venceu a concorrência por conta do acordo firmado entre Brasil (Embraer Defesa & Segurança/FAB) e Suécia (Saab-BAE) para a transferência total de tecnologia dos componentes suecos da aeronave, o que inclui a integração de vários tipos de mísseis – de altíssima valia para a FAB/Embraer – e parceria nas vendas para o mercado internacional. A Dassault/França havia aceitado a transferência de tecnologia solicitada pela FAB, havendo a possibilidade de seus caças serem montados no Brasil com direitos de fabricação para a venda na América do Sul; ao passo que a Boeing apenas aceitou a venda direta com a possibilidade de transferir alguma tecnologia mediante aprovação do Congresso dos Estados Unidos.

Sendo o mais barato dos concorrentes a nível de custo unitário, entre os US$ 50 milhões e os US$ 60 milhões – a depender dos acessórios embarcados de acordo com a necessidade operacional de cada esquadrão – o Gripen NG é, em média, 15,39% mais barato do que o F/A-18E Hornet e 45% mais barato do que o Rafale F3, tendo os custos de operação mais baixos dentre as aeronaves de superioridade aérea de 5ª Geração. O custo aproximado por hora de voo é de US$ 4.700,00 – no qual estão contemplados todos os valores inerentes a uma operação aérea, tais como: salários dos pilotos, equipes de manutenção, peças, combustível, equipes de apoio a operação aérea, e assim sucessivamente.

Os JAS-39 Gripen devem ser distribuídos entre os esquadrões 1º GAvCa (Primeiro Grupo de Aviação de Caça/Esquadrão Jambock), na Base Aérea de Santa Cruz – RJ, 1º GDA (Primeiro Grupo de Defesa Aérea/Esquadrão Jaguar), na Base Aérea de Anápolis – GO, e o 1º/14º GAv (Primeiro Esquadrão do Décimo Quarto Grupo de Aviação/Esquadrão Pampa), na Base Aérea de Canoas – RS. Todos esses esquadrões já operam aeronaves de superioridade aérea, ou seja, caças supersônicos para a proteção dos céus brasileiros, com destaque especial para o Esquadrão Jaguar por operar na Base Aérea de Anápolis (BAAN) e ter como função guardar a capital federal, Brasília.

Ficha técnica: JAS-39 Gripen NG Saab BAE

Fonte da imagem: Wikimedia Commons

Comprimento: 46,3 pés (14,1 metros).

Altura: 14,8 pés (4,50 metros).

Envergadura: 27,6 pés (8,4 metros).

Grupo motopropulsor (GMP): 1 motor General Electric GE F414, turbofan, com baixa razão de bypass e pós-combustão, produzindo até 22 mil libras (aproximadamente 98 kN) de empuxo.

Teto operacional/Altitude máxima de certificação: 50 mil pés (15.240 metros), de acordo com a Saab BAE e a Embraer Defesa & Segurança/FAB.

Raio de ação: 4.070 km com tanques externos em missão de patrulha e 1.800 km em combate com sistemas de mísseis, podendo ser reabastecido em voo para a ampliação de seu raio de ação.

Velocidade máxima: 2.470 km/h, ou seja, aproximadamente 2 vezes superior à velocidade do som ao nível do mar.

Armamentos: 1 canhão Mauser de 27 mm; mísseis AIM9 Sidewinder e AIM-120 AMRAAM. A aeronave tem 14 pontos rígidos na fuselagem para acoplamento de mísseis e tanques de combustível.

Aviônicos: Radar de banda X PS-05/A, podendo localizar uma aeronave a uma distância de 74,6 milhas náuticas (120 km). O JAS-39 Gripen também conta com um sistema de varredura eletrônica ativa Raven ES-05 e sensores de busca/rastreamento infravermelho Skyward G, capazes de detectar aeronaves que não são possíveis de serem identificadas pelos radares de solo.

Comparação de superioridade aérea com países vizinhos

É notória a importância dada aos vizinhos e a preocupação com eles por alguns setores da população brasileira. Porém, é válido destacar que quaisquer eventuais perigos se encontram descartados quando analisada a hipótese de um ataque direto, ou seja, esquadrões de aeronaves de caça invadindo o espaço aéreo brasileiro e causando danos à capital – que seria o maior objetivo no caso de uma ofensiva contra o Brasil.

Tais inquietações devem ser desconsideradas de imediato por qualquer um que esteja minimamente informado sobre as questões militares no continente sul-americano – seja por conta das defasadas aeronaves de alguns dos países que fazem fronteira com o Brasil, seja pelas boas relações diplomáticas mantidas ao longo dos anos. Ou ainda, pela distância que separa Brasília das fronteiras e pelos sistemas de defesa brasileiros – que incluem, obviamente, os caças que se encontram de prontidão para a defesa nacional.

Abaixo, faremos uma comparação para fins estritamente ilustrativos entre as aeronaves de ataque, caça, e/ou superioridade aérea de cinco países selecionados: Venezuela, Argentina, Bolívia, Peru e Chile.

Saab JAS-39 Gripen NG com a Esplanada dos Ministérios e o Congresso Nacional, em Brasília, ao fundo. Fonte: Wikimedia Commons.

Venezuela

Com uma crescente defasagem por conta da crise interna decorrente de protestos, recessão, embargos econômicos, crise de legitimidade do atual governo e desvalorização da moeda, entre outros fatores, o mandatário Nicolás Maduro não consegue dispor de grande quantidade de meios de superioridade aérea. Por conta do alto custo de manutenção o governo de Caracas não consegue manter operantes muitas de suas aeronaves, como a estadunidense F-16 Fighting Falcon e a russa Sukhoi Su-30 Flanker-C.

Fichas técnicas

Sukhoi Su-30 Flanker-C (Rússia)Lockheed Martin F-16 Falcon (EUA)
Unidades (em operação/totais)5/2310/19
Comprimento72 pés (21,93 metros).49,21 pés (15 metros).
Altura20,90 pés (6,36 metros) .15,75 pés (4,8 metros).
Envergadura48,20 pés (14,7 metros).32,81 pés (10 metros).
Grupo motopropulsor (GMP)2x turbonfans com pós-combustão Lyulka AL-31FL, podendo produzir até 27 mil libras de empuxo (aprox. 123 kN) cada.1x turbonfan com pós-combustão General Electric F-110-GE-100, produzindo até 28.600 libras de empuxo (aprox. 127 kN).
Teto operacional56.800 pés (17.300 metros).50.000 pés (15.240 metros).
Raio de ação1.860 milhas náuticas (3.000 km).2.279 milhas náuticas (4.220 km).
Velocidade máxima2.120 km/h (aprox. 1,72 vezes a velocidade do som).2.120 km/h (aprox. 1,72 vezes a velocidade do som).

Devemos ressaltar que pairam grandes dúvidas sobre a real capacidade operacional das 15 aeronaves venezuelanas em serviço no tocante a suprimentos (como, por exemplo, peças e armamentos) – sobretudo para os F-16 Fighting Falcon, uma vez que o governo dos Estados Unidos da América recentemente impôs duras sanções ao governo de Caracas por conta de tensões geopolíticas que se arrastam desde o antecessor de Maduro, Hugo Chávez. Há ainda, obviamente, os altos custos envolvidos na hipótese de uma ofensiva aérea contra o Brasil. Deve-se considerar, também, que a situação política interna da Venezuela prejudica a capacidade operacional e a velocidade de resposta das suas forças armadas. Por fim, o governo venezuelano não é exatamente transparente com as capacidades de suas forças militares – embora todos os governos tenham segredos neste campo, a Venezuela aplica uma política de sigilo ainda mais estrita do que é costumeiro.

Sukhoi Su-30 SM, um modelo ligeiramente diferente dos utilizados pela Venezuela. Fonte: Wikimedia Commons.

Argentina

Depois da Guerra das Malvinas (Falklands), em 1982, a Força Aérea Argentina (FAA) nunca mais foi a mesma – seja por conta da derrota sofrida perante os britânicos, seja pelas sucessivas crises internas que se instalaram e que obrigaram o governo portenho a se preocupar com situações mais emergenciais do que a sua defesa por aeronaves de superioridade aérea. A Argentina atualmente dispõe de apenas um modelo de aeronave, o A4-AR Fightinghawk adaptado, da empresa estadunidense Lockheed Martin – que não é propriamente uma aeronave de superioridade aérea, e sim de ataque ao solo e interceptação leve. A FAA já chegou a possuir aeronaves Mirage III e Mirage 5P, produzidas pela Dassault, mas foram aposentadas em 2015 após quarenta anos de operação – deixando o país na situação inédita de não contar com uma defesa aérea consistente. Há planos para a modernização de diversas de suas outras aeronaves, notadamente os Cessna 182 e os PA-28 Dakota, bem como para a aquisição de alguns Beechcraft T-6 Texan II – todas elas aeronaves de pequeno porte e destinadas a treinamento de pilotos. Com a atual situação econômica, que se agravou após as prévias eleitorais, é pouco provável que nossos vizinhos argentinos tenham alguma possibilidade de adquirirem caças de superioridade aérea em um futuro próximo – quiçá modernizar outros meios de suas forças militares.

Ficha técnica

Lockheed Martin A4-AR Fightinghawk (EUA)
Unidades (em operação/totais)4/36
Comprimento40,35 pés (12,30 metros).
Altura14,93 pés (4,55 metros).
Envergadura27,56 pés (8,40 metros).
Grupo motopropulsor (GMP)1x turbojato sem pós-combustão Pratt & Whitney J52P-408A, capaz de produzir até 11.200 libras de empuxo (aproximadamente 49 kN).
Teto operacional42.257 pés (12.880 metros).
Raio de ação1.739 milhas náuticas (3220 km).
Velocidade máxima1.080 km/h (aprox. 0,9 vezes a velocidade do som), ou seja, trata-se de uma aeronave subsônica.

Apesar de a Argentina teoricamente contar com 36 aeronaves A4-AR Fightinghawk, estima-se que apenas 4 dessas aeronaves tenham plenas condições de operação. Em comparação, a Marinha do Brasil dispõe de 20 aeronaves do mesmo modelo em plenas condições para pronto emprego, cinco vezes o número de total do país vizinho em relação ao mesmo equipamento.

Lockheed Martin A4-AR Fightinghawk. Fonte: Wikimedia Commons.

Bolívia

De acordo com fontes oficiais do governo boliviano, sua força aérea dispõe, desde 2011, de 6 unidades da aeronave de apoio aéreo e treinamento K-8 Karakorum, adquiridas da República Popular da China. Acredita-se que tal defasagem no poder bélico do país se deva, em grande parte, à ausência de litoral – uma eventual ameaça de invasão estadunidense, principal temor de inúmeros setores políticos dos países sul-americanos, seria teoricamente impossível sem que as forças invasoras passassem antes pelos seus vizinhos, com quem a Bolívia mantém relações amigáveis. Devido a essas relações, os próprios países que possuem fronteira com a Bolívia também são descartados pelo povo boliviano como possíveis ameaças.

É digno de nota que durante treze anos o Brasil esteve governado por Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, alinhados politicamente a Evo Morales (mandatário boliviano desde 2006), o que pode ter levado a cúpula do governo boliviano a confiar no apoio e na proteção não só do Brasil, mas também dos demais países da UNASUL ou do Mercosul (considerando que sua adesão ao bloco se iniciou em 1996 e se encontra em processo de conclusão desde 2015). Tal proximidade diplomática pode ter acarretado certo desleixo da Bolívia com sua defesa aérea. Há também a questão dos altos custos de manutenção de aeronaves de superioridade aérea, que acaba por ser, em aquisições, um fator mais decisivo do que o valor da aeronave em si.

O crescimento do Produto Interno Bruto da Bolívia no ano passado (2018) foi da ordem de 4,2%, bem acima da média para a América Latina e o Caribe, que ficou na faixa de 1,5% segundo dados do Banco Mundial. No entanto, apesar do alto crescimento, o montante total da produção do país é relativamente pequeno, ficando em cerca de US$ 40,288 bilhões. Para fins de comparação, o Brasil, a despeito de uma crise econômica que se arrasta desde 2015, teve um PIB nominal de US$ 1,868 trilhão no ano de 2018. Uma vez que o mandatário boliviano, Evo Morales, tem como prioridades a melhoria das infraestruturas nas áreas rurais do país e a manutenção de seu capital político com vistas a uma controversa quarta reeleição (recentemente autorizada pela mais alta corte eleitoral boliviana), é provável que qualquer modernização da força aérea nacional só venha a ocorrer a longo prazo e caso se verifiquem alterações significativas no ambiente diplomático do continente sul-americano – embora alterações dignas de nota já possam ser observadas, como, por exemplo, a crise de continuidade da UNASUL.

Uma eventual modernização dos equipamentos da força aérea boliviana certamente teria como parceiro preferencial a China: não apenas os bolivianos já operam equipamentos chineses, como tem ocorrido um continuado estreitamento das relações diplomáticas e de cooperação técnica entre os dois países. A China já auxiliou a Bolívia no lançamento de satélites e tem negociado parcerias econômicas relevantes para a mineração de lítio e a construção de um corredor de ferrovias cujo objetivo é atravessar o país latino de Leste a Oeste – que faz parte do plano para a formação de um corredor bi-oceânico capaz de ligar o Atlântico (através do Brasil) ao Pacífico (através do Peru).

Em 2017 o ministro da defesa boliviano, Reymi Ferreira (que deixou o cargo no ano seguinte), encaminhou ao Congresso um projeto de lei para a criação de um fundo nacional de defesa, que se destinaria à aquisição de novos equipamentos militares e modernização dos antigos. A iniciativa até hoje não foi implementada e neste ano, no último dia 08 de agosto, o presidente Evo Morales voltou a abordar o tema – afirmando que está estudando meios para a implementação do fundo. A oposição atacou Morales após este pronunciamento, afirmando que se tratava de um discurso “eleitoreiro”.

Ficha técnica

Hondgu K-8 Karakorum (China)
Unidades (em operação/totais)6/6
Comprimento38,06 pés (11,60 metros).
Altura13,81 pés (4,21 metros).
Envergadura31,59 pés (9,63 metros).
Grupo motopropulsor (GMP)1x turbofan sem pós-combustão Garrett TFE731-2A-2A, produzindo até 3.600 libras de empuxo (aprox. 16 kN).
Teto operacional42.651 pés (13.000 metros).
Raio de ação1.215 milhas náuticas (2.250 km).
Velocidade máxima800 km/h (aprox. 0,65 vezes a velocidade do som), ou seja, trata-se de uma aeronave subsônica.

Muito embora a K-8 Karakorum não consista em uma aeronave de ataque, seja ao solo ou de interceptação leve, a incluímos em nossa análise por se tratar do equipamento mais avançado tecnologicamente de que o governo de La Paz dispõe. No entanto, a quantidade dessas aeronaves com possibilidade de serem empregadas é duvidosa: segundo nossas fontes, algumas (ou, possivelmente, todas) estão fora de condições operacionais.

Mas, ainda que a Bolívia estivesse com todas as suas aeronaves em pleno funcionamento, no caso de uma hipotética invasão do espaço aéreo brasileiro os Embraer 314 Super Tucanos da FAB facilmente aniquilariam as seis aeronaves bolivianas; apesar dos Super Tucanos serem aeronaves a hélice, dispõem de alta manobrabilidade e bons armamentos.

Hongdu K-8 Karakorum da Força Aérea da Bolívia. Fonte: Wikimedia Commons.

Peru

País fronteiriço com o Brasil, o Peru dispõe de meios extremamente avançados de defesa aérea. O governo de Lima também é estável e tem recursos humanos e financeiros em quantidade suficiente para a manutenção de suas aeronaves de superioridade aérea. A espinha dorsal da aviação peruana consiste nos MIG-29 da extinta União Soviética e nos Mirage 2000P da França – fabricados, respectivamente, em 1984 e 1979. A Força Aérea Peruana (FAP) tem trabalhado de forma constante, desde 2011, na manutenção e adequação de suas aeronaves, deixando-as em totais condições de operacionalidade apesar de constantes queixas dos comandantes da força a respeito da escassez de recursos. Setores da sociedade peruana demonstram, desde 2018, interesse na aquisição dos FA-18E/F Super Hornet e dos Gripen E/F, após terem perdido uma oportunidade de adquirir algumas unidades do Eurofighter Typhoon oferecidas pelo governo da Espanha – mas as negociações com os fabricantes do F-18 e do Gripen ainda não decolaram. Por isso, os candidatos “naturais” para a substituição dos atuais caças de superioridade aérea peruanos em uma eventual aquisição a médio prazo seriam seus sucessores, os Rafale e os MIG-35. Seria recomendável que a Embraer e a Saab, com o aval dos governos brasileiro e sueco, comecem a estreitar laços com as autoridades peruanas para que, caso a oportunidade se apresente, os JAS-39 Gripen possam ser oferecidos para venda ao país andino.

Ficha técnica

Mikoyan OKB MIG-29 Fulcrum (URSS)Dassault Mirage 2000P (França)
Unidades (em operação/totais)19/1912/12
Comprimento56,82 pés (17,32 metros). 47,11 pés (14,36 metros).
Altura15,52 pés (4,73 metros).17,06 pés (5,20 metros).
Envergadura37,27 pés (11,36 metros).29,95 pés (9,13 metros).
Grupo motopropulsor (GMP)2x turbonfans com pós-combustão Klimov RD-33, produzindo até 18.300 libras de empuxo (aprox. 81 kN) cada.1x turbofan com pós-combustão SNECMA M53-P2, capaz de produzir até 21.385 libras de empuxo (aprox. 95 kN).
Teto operacional59.085 pés (18.001 metros).54.035 pés (16.470 metros).
Raio de ação772 milhas náuticas (1430 km).999 milhas náuticas (1850 km).
Velocidade máxima2.445 km/h (aprox. 2 vezes a velocidade do som).2.338 km/h (aprox. 1,9 vezes a velocidade do som).

Vale frisar que Brasil e Peru têm boas relações diplomáticas e comerciais, o que torna muito improvável qualquer eventual conflito bélico. Porém, no cenário hipotético do surgimento de um conflito, cabe ressaltar que o Brasil já operou os Mirage 2000 entre os anos de 2007 e 2013 – com 12 unidades deste modelo na base aérea de Anápolis, designadas para o 1º Grupo de Defesa Aérea (Esquadrão Jaguar). Isso significa que os militares brasileiros teriam conhecimento aprofundado sobre os aspectos de engenharia e de operação da aeronave, o que lhes conferiria vantagens do ponto de vista estratégico. O último dos Mirage 2000 a voar pela Força Aérea Brasileira encontra-se atualmente em exposição no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro.

Dassault Mirage 2000P da Força Aérea do Peru. Fonte: Wikimedia Commons.

Chile

Tendo relações tranquilas com seus vizinhos, o governo de Santiago se mantém consideravelmente estável politicamente e economicamente desde meados da década de 1990. A Força Aérea Chilena tem como alicerce aeronaves estadunidenses, tendo adquirido os F-16 Fighting Falcon da Lockheed Martin e os F-5E da Northrop Aircraft Corporation. Em Julho deste ano, o ministro da Defesa chileno, Alberto Espina, que assumiu a pasta em Março, anunciou junto ao General Arturo Merino, comandante da Força Aérea Chilena, que a modernização dos caças F-16 já está em curso para que seja prolongada a vida operacional das aeronaves e reduzidos os seus custos de manutenção – medida que já havia sido anunciada desde os exercícios aéreos CRUZEX 2018.

Fichas técnicas

Lockheed Martin F-16 Falcon (EUA)Northrop Aircraft F5-E (EUA)
Unidades (em operação/totais)35/35 8/8
Comprimento49,21 pés (15 metros).47,41 pés (14,45 metros).
Altura15,75 pés (4,8 metros).13,32 pés (4,06 metros).
Envergadura32,81 pés (10 metros).26,67 pés (8,13 metros).
Grupo motopropulsor (GMP)1x turbonfan com pós-combustão General Electric F-110-GE-100, produzindo até 28.600 libras de empuxo (aprox. 127 kN).2x turbojatos com pós-combustão General Electric J-85GE21, produzindo até 5.000 libras de empuxo (aprox. 22 kN) cada.
Teto operacional50.000 pés (15.240 metros).51.804 pés (15.790 metros).
Raio de ação2.279 milhas náuticas (4.220 km).1.341 milhas náuticas (2.483 km).
Velocidade máxima2.120 km/h (aprox. 1,72 vezes a velocidade do som).1.734 km/h (aprox. 1,41 vezes a velocidade do som).

Mais uma vez, a atual conjuntura política das relações entre Chile e Brasil permite descartar prontamente qualquer possibilidade de confronto entre os dois países; devemos acrescentar, ainda, que não fazem fronteira um com o outro. Porém, em uma situação hipotética de incidente que levasse a um conflito aéreo, o Brasil dispõe atualmente de 55 aeronaves Northrop F5-E com modernização dos sistemas aviônicos realizada pela Embraer Defesa & Segurança, o que confere à Força Aérea Brasileira vantagem – seja pela experiência na utilização da aeronave, seja pela diferença numérica dos meios disponíveis. A FAB está capacitada a defender o espaço aéreo brasileiro apenas com a utilização dos F5-E que poderiam ser deslocados, por exemplo, para a Base Aérea de Campo Grande (Mato Grosso do Sul), diminuindo assim a distância entre a base de decolagem e o espaço aéreo Chileno e sem a necessidade de empregar os JAS-39 Gripen.

Northrop F-5E. Fonte: Wikimedia Commons.

Perspectivas da superioridade aérea brasileira

Por todo o exposto, mesmo sem o recebimento dos JAS-39 Gripen NG, previsto ainda para 2019 (de acordo com a FAB), o Brasil tem plenas condições de defender seu espaço aéreo. Sua superioridade será, obviamente, ampliada com o recebimento das novas aeronaves sueco-brasileiras, com a estimativa inicial de 36 unidades (que podem chegar a um total de 110). O Brasil é o único país da América do Sul que dispõe de um fabricante nacional de aeronaves e tem uma força aérea em permanente modernização; não obstante, todos os ganhos operacionais e tecnológicos obtidos de forma continuada pela FAB contribuem para afirmar, cada vez mais, o Brasil como uma potência regional em situação de protagonismo. A isso se somam as boas relações do Estado brasileiro com todos os países da região, obtidas diligentemente através de décadas de cuidadosa diplomacia.

Em que pese o recente alinhamento do governo brasileiro com os EUA e as constantes críticas de Jair Bolsonaro aos mandatários considerados como “de esquerda” nos demais países do subcontinente (notadamente Evo Morales, Nicolás Maduro e o provável futuro presidente da Argentina, Alberto Fernández), seria altamente improvável uma deterioração das relações exteriores que fosse rápida e desastrosa o suficiente para dar margem a quaisquer enfrentamentos bélicos – exceto, talvez, no eventual caso de uma intervenção militar na Venezuela, algo que foi descartado pelo atual governo brasileiro no início da nova administração e que dependeria da aprovação do Congresso Nacional.

Em relação ao acordo para a produção dos caças, ainda que a cúpula do governo brasileiro desejasse (o que não parece ser o caso), pouco poderia ser feito para romper o contrato firmado entre Brasil e Suécia. O maior risco ao prosseguimento do projeto é de pano-de-fundo econômico: com a economia brasileira em estagflação e em risco de uma recessão técnica, é possível que novos cortes nos ministérios prejudiquem o andamento do programa FX-2, cuja iniciativa de aperfeiçoamento deve a maior parte de seus méritos ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e ao Tenente-Brigadeiro do Ar Luiz Carlos da Silva Bueno, que foi comandante da Força Aérea Brasileira entre 2003 e 2007. Bueno foi sucedido pelo Tenente-Brigadeiro do Ar Juniti Saito (2007-2015), pelo Tenente-Brigadeiro do Ar Nivaldo Rossato (2015-2019) e pelo Tenente-Brigadeiro do Ar Antonio Carlos Moretti Bermudez (Janeiro de 2019 até o presente). Bermudez já confirmou, em Março, que a encomenda e a produção das primeiras 36 unidades do JAS-39 Gripen está mantida – mas declarou que novos lotes dependerão do orçamento destinado pela Presidência da República à Força Aérea.

Abaixo, imagens que mostram os raios operacionais do JAS-39 Gripen NG a partir das bases aéreas de Canoas (Rio Grande do Sul), Anápolis (Goiás) e Santa Cruz (Rio de Janeiro), que têm previsão de receber o primeiro lote dos novos caças. Consideramos 1.800 km de raio de ação, ou seja, aeronaves totalmente armadas e prontas para combate. Este raio pode se tornar mais amplo, dependendo de alterações nos armamentos e nas quantidades de combustível colocados nas aeronaves.

E abaixo, imagens que mostram os raios operacionais do JAS-39 Gripen NG a partir das bases aéreas de Porto Velho (Rondônia), Manaus (Amazonas) e Boa Vista (Roraima), que terão condições de operar os novos caças caso os recebam em um eventual conflito a Norte/Noroeste do território brasileiro, em caso de recebimento de novos lotes ou, ainda, caso o Comando da Aeronáutica decida por uma mudança de lotação das primeiras aeronaves a serem colocadas em serviço. Novamente, consideramos 1.800 km de raio de ação.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Lucas Barbosa. Análise: a FAB, o FX-2 e o Gripen. Fora!. Acessado em 22 de agosto de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/08/22/analise-a-fab-o-fx-2-e-o-gripen/>.

APA:

Lucas Barbosa. (22 de agosto de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/08/22/analise-a-fab-o-fx-2-e-o-gripen/.

Adaptações na ordem nome-sobrenome, bem como em outros elementos, podem ser necessárias. Se o texto tem co-autores ou se trata de uma tradução, os co-autores/tradutores devem ser revisados manualmente devido a limitações em nosso script.

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