Brasil: Ministro do Meio Ambiente é vaiado em evento da ONU

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Ricardo Salles, ao centro, foi alvo de protestos. Foto: Alan Oliveira/G1 Bahia.

O ministro brasileiro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi vaiado durante a Semana do Clima, evento promovido em Salvador (Brasil) pela Convenção sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, no acrônimo em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU). O evento, com a participação de 26 países, se iniciou em 19 de Agosto e se encerrará no dia 23 de Agosto.

A reação dos presentes ocorreu quando a cerimonialista do evento convidou o ministro a subir ao palco. Além das vaias, manifestantes levantaram cartazes com frases como “Floresta em pé” e “Mata Atlântica resiste”. A imagem do Brasil frente à opinião pública internacional nas questões ambientais tem sofrido rápido desgaste, levando inclusive a uma crise diplomática com a Alemanha e a Noruega e à demissão do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil, Ricardo Galvão, cientista renomado internacionalmente.

Salles acumula polêmicas desde que assumiu o ministério, cuja extinção chegou a ser cogitada pelo governo Bolsonaro após as eleições. Em Dezembro de 2018, antes de assumir a pasta, foi condenado em primeira instância por improbidade administrativa, por atos cometidos quando ainda era secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo. Em Maio, sete ex-ministros da pasta, de partidos e correntes ideológicas diferentes (e, por vezes, adversários), realizaram um encontro para criticar as políticas do setor. Agora, pela primeira vez, um ministro do Meio Ambiente brasileiro foi vaiado em um encontro internacional sobre o tema.

No último dia 19 de Agosto, segunda-feira, a cidade de São Paulo, principal centro financeiro do Brasil e maior centro urbano do hemisfério Sul, experimentou um fenômeno atípico: os céus escureceram por volta das 15 horas locais, tornando em noite a tarde paulistana. O fenômeno ocorreu por uma confluência de fatores, incluindo a chegada de uma massa de ar frio vinda do Sul do continente e um número recorde de incêndios florestais e queimadas (incêndios intencionais) ocorridos na região amazônica, no Norte do Brasil. Diversos veículos de imprensa destacaram que muitos dos focos de incêndio foram iniciados de forma coordenada, em um “Dia do Fogo” promovido por latifundiários e ruralistas para demonstrar apoio à política ambiental destrutiva da administração Bolsonaro. O mandatário, em uma aparição pública, acusou organizações não-governamentais que atuam em defesa do meio ambiente de serem as verdadeiras responsáveis pelos incêndios e queimadas, alegadamente para prejudicar a imagem de seu governo.

São Paulo em 19 de agosto de 2019. Foto: Jorge Araújo/El País.

Desde o dia do escurecimento súbito dos céus de São Paulo, moradores relatam que a água das chuvas também se tornou escura e possui cheiro de fumaça. Pesquisadoras do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) analisaram amostras e concluíram que de fato a chuva dos últimos dias continha a presença de fuligem de queimadas e incêndios florestais, e que esse material não poderia ter se originado de indústrias ou da queima de combustíveis.

Foto de satélite mostra o movimento da fumaça originada no Norte e no Centro-Oeste do Brasil e seu movimento em direção à região Sudeste, no dia 19/08/2019. Imagem: Climatempo

Anteontem, 20 de Agosto, o Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam) e 50 organizações não-governamentais protocolaram um pedido de investigação na Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão para que Salles seja investigado por omissão em relação à devastação da Amazônia.

A administração Bolsonaro tem sido duramente criticada, desde o início do mandato, por suas políticas ambientais e pelas ideias que tem ventilado para esse setor. Em 13 de Agosto, diversos grupos indígenas e estudantes fizeram uma marcha em direção ao Palácio da Alvorada (sede do governo) e o Congresso Nacional. Outros protestos já haviam sido registrados em ocasiões anteriores. O mandatário tem ignorado os protestos e atribuído as críticas a seus opositores. Após se auto-intitular “Capitão Motosserra”, afirmou que “Agora estou a ser acusado de incendiar a Amazônia. Nero! É o Nero a incendiar a Amazônia”.

Foto: Ana Rayssa/Correio Braziliense.

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Redação do Fora!. Brasil: Ministro do Meio Ambiente é vaiado em evento da ONU. Fora!. Acessado em 22 de agosto de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/08/22/brasil-ministro-do-meio-ambiente-e-vaiado-em-evento-da-onu/>.

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Redação do Fora!. (22 de agosto de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/08/22/brasil-ministro-do-meio-ambiente-e-vaiado-em-evento-da-onu/.

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