Análise: o que resulta da reunião do G7 na França?

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Arte: Marcio Vaccari.

Apesar de inúmeras emoções do ponto de vista da retórica, pouca coisa concreta saiu do encontro.

A reunião, marcada desde 09 de junho, tinha tudo para ser completamente irrelevante. O primeiro-ministro da Itália renunciou quatro dias antes do encontro. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, está em seu último mandato – por decisão própria – e pode até ser substituída antes que ele termine. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, acabou de assumir o cargo e está atribulado tentando resolver a questão do Brexit frente à inércia de Bruxelas. O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, vai deixar o mandato em novembro. O presidente da França, Emmanuel Macron, enfrenta uma taxa de rejeição de 67% (contra apenas 28% de aprovação), segundo pesquisas. Isso se analisarmos somente os países europeus. Mas os problemas não se restringem ao velho continente.

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, tenta se livrar de um escândalo e vai enfrentar eleições em outubro. O Japão, comandado pelo primeiro-ministro Shinzo Abe, encontra-se em uma escalada de tensões com a Coréia do Sul que inclui disputas territoriais, guerra comercial e a anulação de um acordo de inteligência. Donald Trump, dos EUA, criou mal-estar por exigir dos demais países que a Rússia de Vladimir Putin voltasse a ser convidada, cinco anos depois da expulsão decorrente da anexação da Criméia.

Neste tipo de conjuntura – em que os países, seus representantes e os demais convidados encontram-se mais preocupados com problemas internos, eleitorais ou regionais do que com qualquer agenda de longo prazo – as reuniões costumam ser protocolares e normalmente não resultam em nenhum acordo relevante ou definição de objetivos mais ambiciosos, ou sequer em grandes atritos. E, apesar disso, o encontro definitivamente não foi tedioso. Quem mais chamou a atenção, inclusive, sequer estava – ou deveria estar – presente: o presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif.

Um convidado inesperado

Mohammad Javad Zarif ao ser entrevistado. Foto: Geoffroy van der Hasselt/AFP.

Mohammad Javad Zarif, ministro das Relações exteriores do Irã, apareceu na reunião do G7 em Biarritz (França) para participar de negociações paralelas – fora das sessões principais. Sua presença surpreendeu as autoridades dos Estados Unidos, cujas relações com o Irã estão se tornando cada vez mais tensas. Em primeiro lugar, devido ao litígio em torno do petroleiro Adrian Darya-1, apreendido por alegadamente estar transportando combustível para a Síria – país que está em guerra civil e tem sua própria dose de atritos com os estadunidenses. Em segundo, pelas querelas a respeito da navegação no Golfo de Omã, que levaram os Estados Unidos a deslocarem um porta-aviões e um grupo de fuzileiros navais para a região, bem como a buscar apoio militar de outras nações – após um de seus drones ser abatido por forças do país persa, que alegou ter tido seu espaço aéreo violado. Em terceiro lugar, devido ao fim do acordo nuclear entre Irã e Estados Unidos, que estava em vigor desde 2015: autoridades iranianas alegam que a quebra do acordo foi uma resposta à imposição de sanções dos norte-americanos em relação ao seu país em maio de 2018.

Na verdade, a visita não era tão inesperada. Tratou-se de uma jogada arriscada do presidente francês: Macron havia convidado Zarif para as reuniões, e este último já se encontrava hospedado na residência do embaixador iraniano em Paris alguns dias antes, o que foi noticiado por vários veículos de imprensa – chegando a ser entrevistado pela AFP. O presidente francês e o ministro iraniano ainda tiveram reuniões privadas nos dias que antecederam o encontro do G7. Ainda assim, os demais líderes mundiais foram pegos de surpresa. Quando se iniciaram as discussões sobre a questão nuclear iraniana, Zarif chegou – certamente já estava aguardando que algum assessor da delegação francesa lhe desse um sinal para que sua grand entreé ocorresse no minuto correto.

A delegação dos EUA não ficou nada satisfeita e se retirou das discussões. Em sua defesa, Macron disse que os líderes mundiais concordaram, durante um jantar na noite anterior, que o presidente francês poderia servir como mensageiro do G-7 para o Irã. Trump negou concordar com qualquer coisa, e Macron foi forçado a minimizar seu papel.

No fim das contas, a briga não é apenas a respeito de artefatos nucleares. É sobre petróleo. As sanções impostas ao Irã tiraram do mercado mundial 2,7 milhões de barris de petróleo por dia, o que certamente causa efeitos que vão além daqueles sentidos na economia do país do Oriente Médio.

Mas, do ponto de vista bélico, não faz parte dos interesses dos estadunidenses – e nem dos europeus – o surgimento de uma nova potência nuclear naquela região. Acredita-se que Israel possua armas nucleares desde 1966, o que nunca foi confirmado pelas autoridades daquele país. A Turquia certamente possui este tipo de armamento, através de “empréstimos” de bombas B61 realizados pelos demais países da OTAN (estimavam-se de 50 a 90 artefatos em 2015) . Isso faz com que os únicos dois supostos arsenais nucleares do Oriente Médio estejam com aliados dos EUA e dos europeus, e caso o Irã desenvolva suas próprias armas a balança de poder regional mudará drasticamente. Além disso, o Paquistão, que faz fronteira com o Irã a leste, alega possuir suas próprias ogivas, e várias outras repúblicas da região – especialmente as que fizeram parte da extinta União Soviética – podem ter arsenais ocultos. Um eventual aceleramento do programa nuclear iraniano pode levar a uma corrida armamentista envolvendo todo o Oriente Médio e partes do sul asiático, através do processo conhecido na ciência política como “Armadilha de Tucídides”.

A troca de farpas entre Macron e as autoridades brasileiras

Imagem: Getty Images.

Ironicamente, quem roubou a cena no encontro do G7 sequer iria participar da reunião: Jair Bolsonaro, o presidente do Brasil. Os atritos entre o anfitrião, Macron, e o mandatário brasileiro começaram no dia 23/08, um dia antes do início oficial do encontro em Biarritz. A presidência da França deu uma declaração dura sobre como Bolsonaro teria mentido durante a cúpula do G20 em Osaka (Japão), ao afirmar que assumiria os compromissos ambientais previstos no Acordo de Paris e no tratado de comércio entre Mercosul e União Europeia. Outros países concordaram, no todo ou em parte, com a declaração do presidente francês – o que gerou nas autoridades brasileiras sua típica explosão em arroubos nacionalistas e declarações desastrosas. Aproveitaram que a fala de Macron mencionava os incêndios na Amazônia e a importância da floresta no equilíbrio climático do planeta para desqualificarem o discurso dos países europeus como “mentalidade colonialista”, o que rendeu ao presidente brasileiro, declaradamente de extrema-direita, uma temporária simpatia dirigida a ele por alguns setores da esquerda brasileira anti-imperialista – que continua confusa em meio a uma disputa fratricida por protagonismo na oposição ao mandatário.

O nível de escalada na agressividade das declarações chegou a tal ponto que, se Jair Bolsonaro e seus acólitos não fossem vistos como uma piada de mau gosto por todo o restante do planeta, certamente teriam dado início a duras sanções contra o próprio país. O deputado Eduardo Bolsonaro, que cobiça a vaga de embaixador em Washington e é filho do presidente, usou o Twitter para compartilhar um vídeo em que o presidente francês era chamado de “idiota” por outra pessoa, negando depois que sua intenção tenha sido a de ofender Macron. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, usou os adjetivos “sem caráter”, “calhorda oportunista”, “cretino”, entre outros. Os generais Villas Boas e Edson Pujol foram rápidos em falar de ameaça militar, deixando claro que não entendem como as relações internacionais se processam – o que, diga-se de passagem, é comum entre militares (e não apenas os brasileiros). O próprio presidente Jair Bolsonaro riu de uma piada feita por um apoiador em relação à aparência da primeira-dama francesa, contribuindo com a cizânia.

Felizmente, pelo menos alguns dos assessores não estavam dormindo em serviço e desescalaram as tensões. O presidente brasileiro fez na sexta-feira (23/08) um pronunciamento que, considerando-se o histórico pregresso do mandatário, foi até competente – palmas para quem escreveu o texto. O presidente francês, por sua vez, respondeu à ofensa de forma elegante, como manda o protocolo – apesar de relatos indicarem que ele teria ficado furioso. Mais uma vez, palmas aos assessores.

O resultado prático da reunião

Ao fim deste encontro caótico, como descreveu o New York Times, o principal efeito prático foi a mudança de tom de Trump em relação à China e ao Irã – mais uma vez. O presidente dos Estados Unidos declarou que negociadores estão buscando reiniciar os diálogos para encerrar a guerra comercial com a China, e que estava aberto a um encontro com o presidente Hassan Rouhani, do Irã, nas próximas semanas. Caso ocorra, será o primeiro encontro entre presidentes dos EUA e do país persa desde a crise de 1979-1981. Trump ainda acrescentou que os EUA não estão procurando destituir Rouhani. Porém, dado o histórico que o presidente estadunidense tem de ser volúvel, é preciso cautela ao avaliar todas as suas declarações. De qualquer modo, Trump foi taxativo no posicionamento de que o Irã não deve ter acesso a armas nucleares, o que acabou sendo colocado na declaração conjunta emitida ao final do encontro (ver abaixo).

Os líderes dos países que compareceram à reunião do G7 se comprometeram a encontrar uma solução para a crise da Ucrânia, que se arrasta desde 2013, sob a liderança da França e da Alemanha. Considerando-se as questões internas dos dois países europeus que se colocaram à disposição para liderar as negociações, e o endurecimento da política de Putin, é pouco provável que isso renda qualquer resultado prático no curto prazo.

Boris Johnson e o Reino Unido continuam perdidos em relação ao Brexit, assim como todos os demais líderes mundiais. Para além da retórica que utilizou em sua entrevista coletiva ao final do encontro, Johnson ficou de discutir propostas para a saída do Reino Unido da União Europeia por telefone com Jean-Claude Juncker, presidente da comissão europeia. O mandato de Juncker termina em outubro deste ano; então, mais uma vez, é improvável que seja conseguido algum avanço significativo – a menos que o político de Luxemburgo se esforce bastante para resolver o trauma do Brexit de modo que isso seja posteriormente lembrado como um grande “legado” de seu tempo à frente da comissão.

Quanto à Amazônia, os líderes do G7 comprometeram-se a enviar 20 milhões de dólares (aproximadamente R$ 83 milhões) ao Brasil para auxiliar no controle dos incêndios florestais, o que foi prontamente recusado pelo presidente brasileiro – que depois voltou atrás e cogitou a hipótese de aceitar caso Macron peça “desculpas” por suas declarações. Atiram-se bravatas, como sempre, mas nada indica que o acordo de comércio entre União Europeia e Mercosul ou o contrato com a Suécia para produção de aviões militares serão afetados por isso – é mais provável que o pacto UE-Mercosul não seja ratificado devido a questões internas da Argentina ou dos países europeus exportadores de carne, como a Irlanda e a Bélgica. A Alemanha é a principal interessada, pois suas exportações de produtos industrializados têm se enfraquecido e o Mercosul é um enorme mercado consumidor. A despeito da crise diplomática gerada por Bolsonaro com os governos da Alemanha, da Noruega e, agora, de vários outros países europeus, o dinheiro costuma falar mais alto do que a fanfarronice.

Ao fim do caos, os líderes emitiram uma declaração morna – como tinha de ser. Mas poderiam ter poupado todos os analistas políticos do planeta de tanta retórica agressiva e vazia. Ao menos, deram a essa categoria de profissionais – e à imprensa – algo a esperar para a conferência do Banco Central Europeu (em 12 de setembro) e para a Assembleia-geral das Nações Unidas (17 a 30 de setembro). É recomendável que também se preste atenção ao desdobrar das eleições canadenses e do escândalo que afeta Justin Trudeau, bem como às tensões entre Japão e Coréia do Sul; os três países são aliados importantes dos EUA. Essas questões, já mencionadas acima, podem escalar ou murchar de uma hora para outra. A Itália, devido aos seus problemas internos (que incluem a discussão do orçamento durante setembro), vai produzir excelentes manchetes – mas será carta fora do baralho em qualquer negociação internacional relevante durante, pelo menos, os próximos dois meses.

Abaixo, a declaração conjunta emitida ao fim do encontro do G7

“Os líderes do G7 desejam enfatizar sua grande unidade e o espírito positivo de seus debates. O G7, organizado em Biarritz pela França, conseguiu chegar a acordos sobre vários pontos, resumidos abaixo, pelos próprios chefes de Estado e de governo:

COMÉRCIO

O G7 está comprometido com um comércio global aberto e justo e com a estabilidade da economia mundial. O G7 pede aos ministros da Fazenda que monitorem a situação da economia mundial. Para isso, o G7 quer mudar a OMC em profundidade, a fim de ser mais eficaz na proteção da propriedade intelectual, resolver as disputas mais rapidamente e erradicar as práticas comerciais desleais. O G7 está empenhado em chegar a um acordo em 2020 para simplificar a regulamentação e modernizar a tributação internacional no contexto da OCDE.

IRÃ

Compartilhamos plenamente dois objetivos: garantir que o Irã nunca possa adquirir uma arma nuclear; e promover a paz e a estabilidade na região.

UCRÂNIA

A França e a Alemanha realizarão uma cúpula no formato da Normandia nas próximas semanas, a fim de obter resultados concretos.

LÍBIA

Apoiamos uma trégua na Líbia que possa levar a um cessar-fogo duradouro. Acreditamos que apenas uma solução política garantirá a estabilidade da Líbia.

Estamos ansiosos por uma conferência internacional bem preparada, que reúna todas as partes interessadas e todos os atores regionais envolvidos neste conflito. A este respeito, apoiamos o trabalho das Nações Unidas e da União Africana para pôr em prática uma conferência inter-líbia.

HONG KONG

O G7 reafirma a existência e a importância da Declaração Sino-Britânica de 1984 sobre Hong Kong e apela a evitar a violência”.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

David G. Borges. Análise: o que resulta da reunião do G7 na França?. Fora!. Acessado em 28 de agosto de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/08/28/analise-o-que-resulta-da-reuniao-do-g7-na-franca/>.

APA:

David G. Borges. (28 de agosto de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/08/28/analise-o-que-resulta-da-reuniao-do-g7-na-franca/.

Adaptações na ordem nome-sobrenome, bem como em outros elementos, podem ser necessárias. Se o texto tem co-autores ou se trata de uma tradução, os co-autores/tradutores devem ser revisados manualmente devido a limitações em nosso script.

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