A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e suas consequências geopolíticas na Europa

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Arte: Marcio Vaccari

A Guerra dos Trinta Anos (1618 -1648) foi o primeiro grande confronto armado da Idade Moderna na Europa. Esse conflito envolveu a Alemanha, Áustria, Dinamarca, Espanha, França, Hungria, Holanda e Suécia, e resultou em pelo menos duas consequências geopolíticas importantes: 1) o fim de uma longa fase de desavenças entre grupos católicos e protestantes; 2) a substituição da Espanha como potência hegemônica mundial daquela época. Vale lembrar aqui que, no século XVII, a França despontou como um nação eminente e a Inglaterra, por sua vez, iniciava os processos que a tornariam hegemônica no século XVIII.

Achamos válido, antes de tratarmos propriamente da Guerra dos Trinta Anos, fazer uma breve observação que será decisiva para entendermos os antecedentes, o desenrolar e os desdobramentos desse conflito. O Imperador romano-germânico Carlos V, após ter assinado a Paz de Augsburgo (1556), dividiu o reino com seus dois filhos: Felipe II tornou-se o governante da Espanha e suas posses na América, dos Países Baixos e de parte da Itália; Fernando, por sua vez, governou a Áustria. Desse modo, a linhagem dos Habsburgo dividiu-se em dois domínios, ambos de orientação católica e, comumente, aliados.

Dito isso, voltemos a falar do país ibérico. A Espanha, tradicionalmente católica, tinha a supremacia geopolítica nas primeiras décadas do século XVII. Basta observamos que ela mantinha sob sua jurisdição, durante o reinado de Felipe III (1598-1621), toda a Península Ibérica e, por extensão, as colônias da América (abrangendo o Brasil), bem como territórios na África e no sul da Itália. Mas, o que teria levado a Espanha a perder sua condição de principal potência europeia?

Foram várias as decisões desacertadas, mas entre elas destaca-se especialmente a posição espanhola de se colocar como a protetora da fé católica. Esse posicionamento renovou, em nível mais intenso, os conflitos de matriz religiosa que já vinham se arrastando no continente no século XVI. Essas contendas resultarão na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), uma vez que ela pode grosseiramente ser resumida como uma investida belicosa da ala católica para tentar barrar o avanço do protestantismo. Para além do mote religioso devemos considerar que a querela também teve um fundo político que orbitava em torno das controvérsias entre Estados territoriais e principados.

Assim sendo, vamos aos fatos. O acontecimento fundador da Guerra dos Trinta Anos foi a ascensão, em 1619, de Fernando II como rei da Áustria. Naquela ocasião, Fernando II se tornava, portanto, o governante do Sacro Império Romano-Germânico e monarca da Boêmia. No entanto, os insurgentes não apenas recusaram a entrega desse último título ao representante da casa dos Habsburgo, como coroaram o príncipe calvinista e eleitor palatino, Frederico. Dito de outro modo, a Guerra dos Trinta Anos inicia-se quando os boêmios buscaram colocar no seu trono um soberano de inclinação protestante.

Em resposta a este episódio os Habsburgos, austríacos e espanhóis, enviaram suas tropas para a Boêmia. Essa porção de terras foi assolada: três quartos de suas urbes foram pilhadas e incendiadas e sua aristocracia foi quase inteiramente assassinada. Abruptamente, todo o império foi impelido a tomar posição dentro de balizas religiosas.

Ou seja: o resultado dessa ofensiva foi a implicação de outros príncipes, protestantes e católicos. O mais notório deles na primeira fase do conflito (1618-1632) foi Gustavo Adolfo (1611-1632), o rei da Suécia, morto em batalha. A perspectiva de um armistício entre Fernando II e os governantes protestantes alemães forçou a França, temerosa com a excessivo poder que a Áustria poderia concentrar em suas mãos, a se envolver nessa querela.

Assim, sob a supervisão do cardeal Richelieu, a França, embora católica como os austríacos, colocou-se do lado oposto aos Habsburgos. Em um primeiro momento, de forma velada – depois, de maneira pública. Richelieu estava convicto de que a França, para tornar-se uma potência hegemônica naquele período, precisaria envolver-se na guerra contra a casa dos Habsburgos.

Em termos práticos, a França passou a incentivar e patrocinar todos os que contestassem ou se insurgissem contra a autoridade austríaca ou espanhola. Vale destacar que o apoio francês não se resumiu a observar o conflito à distância, financiando os opositores dos Habsburgos – afinal, a França derrotou a (até então invencível) armada ibérica na batalha de Rocroi (1643). Do lado espanhol, o resultado dessa ofensiva bélica foi superlativo: não apenas representou o fim do impacto psicológico causado pela mística em torno da invencibilidade de suas prestigiosas forças militares, como custou a vida de quinze mil soldados.

A Guerra dos Trinta Anos chegaria ao seu final por meio da Paz de Westfália (1648), e uma nova ordem seria fundada na paisagem europeia e mundial. Porém, é digno de nota lembrar que quando a guerra terminou a Europa Central estava destruída, especialmente os territórios da atual Alemanha, que teve quase um terço de seus habitantes exterminados.

Também não podemos deixar de destacar o comportamento da França. Pois, em nosso entendimento, ele reflete o modus operandi (racional e pragmático) de como as potências hegemônicas historicamente agem, no âmbito das relações internacionais, para se manterem como tais. A despeito da orientação católica, a França não titubeou em associar-se à ala protestante para desafiar a supremacia dos Habsburgos. O parâmetro basilar da França para afiançar as alianças era se tais alianças coadunavam ou não com seus interesses geopolíticos. Esse procedimento garantiu ao Estado francês, com o término da Guerra dos Trinta Anos e a consequente decadência do poder espanhol, a condição de nova potência hegemônica no continente – ao menos durante algum tempo.

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ABNT:

João Paulo Charrone. A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e suas consequências geopolíticas na Europa. Fora!. Acessado em 29 de agosto de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/08/29/a-guerra-dos-trinta-anos-1618-1648-e-suas-consequencias-geopoliticas-na-europa/>.

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João Paulo Charrone. (29 de agosto de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/08/29/a-guerra-dos-trinta-anos-1618-1648-e-suas-consequencias-geopoliticas-na-europa/.

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