Lesoto: trabalhadoras são abusadas sexualmente em fábricas de jeans

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Trabalhadores fabricando calças em fábrica no Lesoto. Fotografia: brianafrica/Alamy Stock Photo.

Com informações do The Guardian

Uma investigação sobre assédio sexual e coerção em fábricas de jeans de marcas como Levi Strauss, Wrangler e Lee descobriu que trabalhadoras em Lesoto são forçadas a fazerem sexo com seus gerentes para manter o emprego ou ganhar promoções.

As marcas responderam às alegações do relatório assinando acordos com grupos trabalhistas e de direitos das mulheres para eliminar a violência de gênero para mais de 10 mil trabalhadoras, de cinco fábricas que pertencem à companhia tailandesa Nien Hsing, maior empregadora do país africano.

A investigação do Consórcio de Direitos dos Trabalhadores (WRC, no acrônimo em inglês) durou dois anos e foi publicada na quinta-feira (15/08). O documento relata que gerentes e supervisores regularmente coagiam as trabalhadoras a manterem relações sexuais em troca de promoções e trabalhos em tempo integral. A investigação também mostrou que gestores falharam em tomar ações disciplinares contra os infratores, além de suprimir movimentos sindicais que pudessem levantar preocupações com o estado das mulheres.

Os casos de assédio sexual eram tão pervasivos que colegas de trabalho homens também mantinham comportamento abusivo rotineiro, de acordo com entrevistas realizadas com 140 trabalhadoras de várias bases, onde operavam três fábricas Nien Hsing.

“Todas as mulheres do meu setor já dormiram com o supervisor”, disse uma trabalhadora ao grupo de direitos trabalhistas. “Para as mulheres, isso é sobre sobrevivência e nada mais… Se você disser não, você não arruma trabalho, ou não tem o contrato renovado.”

Outra pessoa alegou que nenhuma ação foi tomada contra o seu supervisor após registro de queixa por toque inapropriado. “Eles disseram que iriam fazer algo, mas nenhuma ação foi tomada. Então eu deixei passar porque eles não fizeram nada sobre isso”.

O relatório incluiu alegações contra gerentes do exterior. Uma trabalhadora comentou que “um gerente estrangeiro deu um tapa nas nádegas de uma mulher e tocou seus seios”. Adicionou: “Uma vez, nós pegamos um gerente [estrangeiro] fazendo sexo com uma trabalhadora na fábrica. A mulher foi promovida facilmente e conseguiu muitos bônus”.

O WRC alega que os supervisores que cometiam assédio sexual, suborno ou qualquer outra má conduta eram geralmente transferidos para outros departamentos ao invés de sofrer alguma sanção disciplinar.

Os abusos não eram detectados pelos códigos de conduta e programas de monitoramento porque os gerentes pressionavam os empregados a mentir para os auditores. Uma trabalhadora disse que “Mandavam contar mentiras pelo bem da companhia. As pessoas que compravam estavam no local, e fomos ameaçadas de que [se alguém contasse] a verdade sobre o que realmente acontecia, [isso] poderia comprometer nossos empregos”.

Quando a WRC apresentou o documento, Nien Hsing se defendeu dizendo que nenhum caso de assédio ou abuso foi registrado nos últimos dois anos, além de que nenhum gerente ou supervisor foi disciplinado por assédio sexual desde 2005.

Michael Kobori, vice-presidente de sustentabilidade da Levi Strauss, disse ao The Guardian que a companhia compra das fábricas de Lesoto há dez anos, que assim que recebeu o relatório “requeremos a Nien Hsing que tome séries de medidas imediatas para lidar com as alegações feitas, incluindo realizar mudanças com o pessoal e a gerência das instalações citadas no relatório”.

O vice-presidente Scott Deitz, da Kontoor Brands, que controla a Wrangler e a Lee, falou que ficou “muito, muito preocupado” com as alegações, adicionando: “Não é desse jeito que gostaríamos de saber desses problemas. Nós gostaríamos de descobrir sobre eles pelas auditorias que conduzimos”.

Rola Abimourched, diretor sênior da WRC, sugeriu que as marcas encerrassem o contrato com a Nien Hsing ao invés de apenas pedir ao fornecedor para mudar sua conduta. “O ‘procedimento interno de reclamações’ pede para os trabalhadores confiarem nos próprios gerentes que podem ter cometido abusos, e ignora o desequilíbrio de força entre trabalhadores e supervisores”.

Sobre o acordo assinado com as marcas, Levi Strauss & Companhia e Kontoor Brands disseram, em uma declaração conjunta, que “estamos comprometidos em proteger os direitos dos trabalhadores e adotar o bem-estar nas fábricas dos fornecedores terceirizados; de forma que todos os trabalhadores dessas instalações, sobretudo as mulheres, possam se sentir seguros, valorizados e empoderados”.

Abimourched disse que o acordo pode ter impacto além do local do trabalho: “nós esperamos que isso tenha um impacto tremendo na vida das mulheres, que não mais sentirão medo de ir trabalhar”.

“Nós também temos a expectativa de que, devido ao tamanho deste empregador e [por causa] das organizações de direitos das mulheres que estiveram à frente do planejamento do programa, que o sucesso do mesmo possa impactar o setor de vestuário, bem como a sociedade de Lesoto”.

Lesoto é um país que está crescendo no cenário global no setor vestuário e têxtil, produzindo 26 milhões de calças jeans anualmente e empregando 38 mil pessoas. Aproximadamente 85% da exportação vai para os EUA, onde compradores incluem Gap, Reebok, Walmart e Calvin Klein Jeanswear, segundo números oficiais.

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ABNT:

Flávio Henrique Soeiro de Castro. Lesoto: trabalhadoras são abusadas sexualmente em fábricas de jeans. Fora!. Acessado em 29 de agosto de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/08/29/lesoto-trabalhadoras-sao-abusadas-sexualmente-em-fabricas-de-jeans/>.

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Flávio Henrique Soeiro de Castro. (29 de agosto de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/08/29/lesoto-trabalhadoras-sao-abusadas-sexualmente-em-fabricas-de-jeans/.

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