Análise: com protestos, a crise política na Rússia se aprofunda

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Arte: Marcio Vaccari.

Nas últimas semanas a capital russa, Moscou, esteve no epicentro de agitações políticas. As ruas da cidade estão entupidas de manifestantes exigindo condições iguais de competição política para os cidadãos.

Texto original de nossa colaboradora Anik Margaryan, traduzido por David G. Borges.

Tudo começou com a rejeição, por parte do governo da cidade de Moscou, de candidaturas de candidatos independentes para concorrerem a 45 vagas no conselho municipal, nas eleições que serão realizadas em 08 de setembro. Como resultado, vários ativistas organizaram protestos que começaram a ganhar força. Mas não foram os protestos, e sim o comportamento da polícia durante estas semanas que chamou mais a atenção.

Em primeiro lugar, podemos notar que as manifestações são realizadas de forma exclusivamente pacífica – ao contrário do que pode ser observado em Hong Kong, por exemplo. Muitas fontes proeminentes da mídia referiram-se a elas como “exemplares” por não terem causado danos à cidade.

“Um passeio pelas avenidas” em Moscou – foi assim que os organizadores anunciaram o próximo evento no Facebook. Centenas de pessoas têm se reunido todos os dias, desde 14 de julho, nas manifestações; centenas de pessoas foram presas, muitas vezes com uso de força. A maioria acaba por ser liberada e volta à ação no dia seguinte.

Um dos jovens rostos dos protestos, um libertário de 21 anos, tornou-se um influenciador com 123.000 seguidores no Youtube. Yegor Zhukov, estudante de ciências políticas na prestigiada Escola Superior de Economia da Rússia (Higher School of Economics, HSE), pode ter de enfrentar oito anos de prisão devido a acusações controversas de “inquietação em massa”. Os críticos do Kremlin têm certeza de que as acusações são uma tática de intimidação para esmagar os maiores protestos já ocorridos no país.

De uma cela de prisão, Zhukov lançou um ataque ao sistema político montado por Vladimir Putin, que foi confirmado como primeiro-ministro pela primeira vez há 20 anos. Zhukov disse que gostaria de agradecer ao governo russo pela enorme quantidade de trabalho que faz todos os dias para cair em descrédito, e acrescentou que é difícil encontrar alguém que tenha feito mais para aumentar os números da oposição na Rússia do que o próprio governo russo.

O caso Zhukov e a atividade de outros jovens forçou muitos habitantes de Moscou a se unirem aos atos e também expressarem suas opiniões e seu desacordo.

Então, qual é o conflito a respeito das eleições para a Duma* da cidade de Moscou?

*Nota do tradutor: “Duma” é uma assembleia com funções legislativas ou de aconselhamento. Neste caso, a autora se refere à Московская городская дума, o que poderia ser traduzido, em português, como “Assembleia Municipal de Moscou”. Mais abaixo, quando a autora se refere à Duma Federal (Государственная дума), trata-se da câmara baixa do parlamento russo – grosso modo, equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil.

Candidatos de partidos não-registrados (majoritariamente de oposição) tiveram de coletar vários milhares de assinaturas de eleitores para participarem do pleito. Esse era o requisito comum para cada um deles, e muitos conseguiram reunir as assinaturas necessárias. Mas o governo russo lhes negou o registro e a participação nas eleições.

Aqueles que tiveram sua candidatura negada alegam que houve falsificação maciça, por parte dos que já estão no poder, durante a validação dos registros. Afirmam que os membros da comissão eleitoral cometeram erros propositais ao inserirem os dados dos eleitores em um sistema eletrônico, de modo que as assinaturas fossem invalidadas posteriormente. Como consequência, os políticos de oposição tomaram as ruas. Um dos candidatos, Lyubov Sobol, declarou: “se essas eleições forem roubadas agora, nunca mais teremos eleições”.

Mas é importante afirmar que as manifestações regulares em Moscou não são as únicas na Rússia. Há muitos cientistas políticos que afirmam que o país está entrando em uma fase de crise profunda. O número de locais onde há relatos de manifestações da população local aumenta diariamente.

Que outras manifestações estão acontecendo na Rússia ao mesmo tempo?

  • Resistência na Inguchétia, onde as pessoas queixam-se que algumas das suas terras foram transferidas para a vizinha Chechênia.
  • Conflito em Ecaterimburgo. Nesta cidade as autoridades estavam planejando construir uma igreja ortodoxa no parque da cidade. Após protestos em massa as autoridades tiveram que abandonar esses planos – mas agora os líderes das manifestações começaram a ser presos como resposta.
  • Confrontos com a polícia em Moscou. As autoridades construíram um aterro bem no meio de uma floresta, perto da cidade de Likino-Dulyovo. Os ativistas que se opuseram foram brutalmente espancados, e há algumas pessoas que até tiveram suas pernas e mãos quebradas pelos métodos violentos dos policiais.
  • Conflitos com a polícia na região de Arkhangelsk – sobre o lixo, novamente. As autoridades decidiram construir um depósito de lixo para transportar resíduos originados em Moscou e região, de modo a evitar distúrbios perto da capital. As divergências sobre este caso resultaram em confrontos com a polícia local.
  • Paralelamente às manifestações em Moscou, cuja demanda é o registro de candidatos independentes para as eleições, há protestos em São Petersburgo a respeito das eleições locais já realizadas. Os manifestantes exigem o cancelamento dos resultados eleitorais.

Alguns especialistas afirmam que não é por acaso que vários protestos coincidiram no tempo

As manifestações nas regiões russas não são apenas devido às questões específicas de cada uma, mas também por causa da crise política geral no país.

Em primeiro lugar, a estagnação da economia russa – em grande parte devido a sanções internacionais por interferir na Crimeia e, supostamente, nas eleições dos Estados Unidos.

Em segundo, existe uma sensação de desesperança e impasse social entre os jovens, que se tornaram a principal força motriz do atual confronto com as autoridades. Há alguns que, durante as manifestações, carregam cartazes com frases como “Minha mãe disse que houve uma época em que Putin não era o presidente da Rússia”. Portanto, é óbvio que os jovens estão realmente cansados ​​do velho sistema político com figuras já conhecidas.

E, finalmente, há um terceiro fator que piora a situação. A degradação intelectual da classe dominante, que trouxe a ausência de competição entre os políticos por muitos anos. Alguém de boa memória pode se lembrar das histórias do presidente Putin sobre a produção de armas biológicas pelos americanos no território da Geórgia. Ou da declaração de Patrushev, Secretário do Conselho de Segurança, de que a inteligência russa era capaz de se infiltrar no subconsciente do Secretário de Estado dos EUA. Ou alegações, populares na televisão, de que a Terra pode ser plana e de que a teoria de Darwin não é científica.

Todos esses fatores provam que o sistema político russo precisa de um recomeço – caso contrário, a crise se aprofundará.

No fim das contas, podemos dizer que o principal problema da Rússia é 2024…

O que esperar da Federação Russa nesta situação? A principal tarefa das autoridades russas é 2024. Este é o ano em que Vladimir Putin deverá deixar o cargo de presidente. Com a atual constituição, ele não pode permanecer por mais tempo. Todos os mandatos para a extensão de seu tempo no poder, dentro da legalidade, já foram usados.

Mas ele e sua elite não podem ir embora tão facilmente. Eles precisam encontrar novas maneiras de permanecer no poder. E já existem várias opções para manter Putin na presidência após o término do atual mandato.

Putin provavelmente assumirá o cargo de primeiro-ministro novamente. Essa “realocação” já aconteceu antes. Ele se tornou presidente pela primeira vez em 1999 e, após dois mandatos, atuou como chefe do governo de 2008 a 2012 – voltando em seguida à presidência.

Mas sob a constituição atual será impossível repetir essa manobra e retornar à presidência. É por isso que, de acordo com a Bloomberg, o Kremlin começou os preparativos para mudar a constituição.

Existem, supostamente, três mudanças:

  • Os poderes do primeiro-ministro serão significativamente aumentados e, consequentemente, os da presidência serão reduzidos.
  • Os poderes da Duma Federal serão expandidos. Será a Duma que nomeará o primeiro-ministro.
  • A Duma Federal ampliará o número de deputados eleitos através de listas não-partidárias, os assim chamados “deputados independentes”.

O Presidente da Duma Federal, Vyacheslav Volodin, aliado de Putin, já propôs em duas ocasiões alterar o texto da constituição russa – dando ao parlamento mais poderes e diminuindo os da presidência.

Mas alguns especialistas estão certos de que tudo pode se desenrolar de outra maneira: desencadeando conflitos de larga escala

Um outro curso de eventos também é possível: os habitantes da Rússia devem estar prontos para provocações, cujo objetivo principal será fomentar o conflito político ou social em grande escala. Desse modo, seria possível impor um estado de emergência e abolir completamente as eleições.

As autoridades russas também podem tentar elevar sua popularidade se utilizando de agressão política a outras nações. Portanto, os vizinhos da Rússia também devem estar prontos para provocações. Se funcionou uma vez com a Crimeia, então por que não tentar de novo?

Não há cenários otimistas para o desenrolar da situação política interna na Rússia. As autoridades começam a ceder às pressões das ruas, e os manifestantes começam a compreender que deve haver muito mais gente nos protestos para conseguirem as mudanças que eles querem ver.

Até onde se chegará quando a nova geração exigir a proteção de seus direitos, ninguém sabe. Mas o terreno está preparado. Arkhangelsk, Inguchétia, Moscou, São Petersburgo, Ecaterimburgo. Lixo, aposentadorias reduzidas, drogas, eleições fraudulentas, pobreza e desesperança. É tudo o que está acontecendo por enquanto – até o primeiro sangue ser derramado. Mais cedo ou mais tarde, os nervos de alguém irão ceder ou alguém irá deliberadamente provocar algo mais sério. Existem muitas variáveis, mas apenas um é o resultado final. A questão é apenas qual será o número de vítimas.

Avaliando a situação atual da Rússia e suas posturas nos cenários doméstico e internacional, é possível dizer que o país precisa mudar suas políticas interna e externa de uma forma ou de outra – ou existirá alta probabilidade de que a Federação Russa enfrente tempos mais difíceis, com ameaças e desafios à sua economia, à cultura, à política externa e até à sua estrutura como Estado.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Anik Margaryan. Análise: com protestos, a crise política na Rússia se aprofunda. Fora!. Acessado em 30 de agosto de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/08/30/analise-com-protestos-a-crise-politica-na-russia-se-aprofunda/>.

APA:

Anik Margaryan. (30 de agosto de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/08/30/analise-com-protestos-a-crise-politica-na-russia-se-aprofunda/.

Adaptações na ordem nome-sobrenome, bem como em outros elementos, podem ser necessárias. Se o texto tem co-autores ou se trata de uma tradução, os co-autores/tradutores devem ser revisados manualmente devido a limitações em nosso script.

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