Brasil: multinacional dos EUA investe em empresas desmatadoras da Amazônia

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Incêndio florestal perto de Porto Velho. Foto: Ricardo Moraes/Reuters.

Relatório da Friends of the Earth culpa maior gestor de investimentos do mundo por fazer aplicações em empresas que contribuem para o risco de incêndio no Brasil.

Com informações de Al-Jazeera (Qatar).

Enquanto os incêndios na Amazônia provocam danos sem precedentes, um relatório divulgado hoje (30/08) mostra que a BlackRock, a maior administradora de ativos do mundo, detém amplos investimentos nos setores considerados responsáveis ​​pela devastação das florestas no Brasil.

Com US$ 6,5 trilhões em ativos sob gestão, a BlackRock foi classificada como “o maior investidor do mundo em desmatamento” pelos autores do relatório – a Friends of the Earth EUA, a Amazon Watch e a empresa holandesa de pesquisa Profundo.

O relatório, intitulado “O Grande Problema de Desmatamento da BlackRock”, analisa dados financeiros de 2014 a 2018 – mostrando que o grupo global de gestão de investimentos está entre os três principais acionistas em 25 das maiores empresas de capital aberto do mundo com “risco de desmatamento”.

Os dados revelam que as participações da BlackRock em seis setores – soja, carne bovina, óleo de palma, borracha, madeira e celulose/papel – aumentaram em mais de US$ 500 milhões nos últimos cinco anos.

Jeff Conant, principal autor do relatório e gerente sênior do programa florestal internacional da Friends of the Earth EUA, disse que “os investimentos da BlackRock estão causando diretamente os incêndios florestais na Amazônia e o desmatamento em todo o mundo”.

“Não acredito que a BlackRock e seus fornecedores estejam considerando o risco de desmatamento”, disse ele em entrevista à Al Jazeera. “Não existem muitas empresas piores por aí do que as da nossa lista”.

Das 167 empresas que apresentam risco de desmatamento identificadas pelos pesquisadores, a BlackRock detinha ações em 61 delas – avaliadas em US$ 1,5 bilhão até o final do ano passado.

“Boas práticas de governança corporativa, incluindo como as empresas gerenciam o ambiente material e os fatores sociais inerentes aos seus modelos de negócios, têm o potencial de impactar o valor a longo prazo dos ativos de nossos clientes”, afirmou a BlackRock em comunicado. “Nossa obrigação como gestora de ativos e fiduciário é gerenciar os ativos de nossos clientes de acordo com suas prioridades de investimento”, acrescentou a empresa.

“Na ausência da opção de desinvestir nessas empresas, nos envolvemos com elas para avaliar como gerenciam os riscos e oportunidades materiais relacionados à sustentabilidade em seus negócios, e as incentivamos a adotar práticas comerciais robustas consistentes com o desempenho sustentável a longo prazo”.

Fatores ambientais, sociais e de governança: Eles fazem o que quiserem

Conant afirmou que a BlackRock ganha dinheiro com o agronegócio ambientalmente destrutivo, principalmente por meio de participações em holdings de commodities em fundos de investimentos que acompanham passivamente os mercados globais.

“A [BlackRock] pode fazer com que o setor de ESG o que quiser”, disse Conant, referindo-se a fatores ambientais, sociais e de governança (“environmental, social and governance” – ESG) que até agora parecem mal-sucedidos na triagem de empresas com risco de desmatamento desses fundos. “O investimento passivo é um problema ativo”.

“A maioria dos fundos de ESG é baseada em dados do setor de ESG, que na verdade não estão necessariamente olhando para o cenário todo e procurando as fontes certas para obter informações”, acrescentou. “Eles não estão pensando profundamente sobre o que são impactos ambientais – e seus pesos relativos”.

O uso excessivo de terra, água e pesticidas – quando combinado com os efeitos adversos da mudança climática – contribuiu para os incêndios no Brasil, bem como no Ártico, na Indonésia e na África Central. Conant disse que essas chamas são “esperadas”, e que “veremos mais delas”.

Ele também sugeriu que os problemas foram exacerbados pelo “regime autoritário do [presidente brasileiro Jair] Bolsonaro, que está sendo apoiado pelas finanças globais”.

As holdings de alto risco e os títulos vinculados a conflitos podem representar um dilema para a BlackRock que é financeiro, ambiental e moral.

No início de agosto, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirmou que o desmatamento e outras práticas de uso da terra respondem por quase um quarto das emissões de gases de efeito estufa.

“A BlackRock pode seguir a liderança de outros gestores de ativos globais e fazer mudanças para o bem da floresta tropical, do clima e de seus clientes, retirando investimentos de empresas que destroem o planeta e aplicando pressão máxima para mudar o comportamento das empresas”, disse Moira Birss, do Amazon Watch.

O relatório citou o Fundo de Pensões do Governo Norueguês por ter colocado em uma lista negra muitas empresas dos portfólios da BlackRock. Além disso, o CalPERS – um fundo de pensão dos funcionários públicos do estado da Califórnia, nos EUA – reconheceu o desmatamento como um “investimento de risco material”.

“A administração responsável é mais do que apenas declarações públicas”, disse Ward Warmerdam, da Profundo, que realizou grande parte da pesquisa para o relatório. “Trata-se de alinhar sua estratégia de investimento com padrões ambientais e sociais amplamente aceitos”.

Recentemente, um relatório do Institute for Energy Economics and Financial Analysis criticou a BlackRock por perder US$ 90 bilhões através de investimentos em combustíveis fósseis na última década.

O novo relatório diz que a BlackRock poderia instruir as empresas que atuam na Amazônia a auditar suas cadeias de suprimentos e, por sua vez, remover os investimentos relacionados aos incêndios atuais.

“Leva tempo para desfazer esses investimentos, mas uma declaração pública é muito fácil”, disse Conant. ” [A BlackRock] deve pedir a todos os provedores de índices que desenvolvam fundos padrão de investimento livres de combustíveis fósseis e de desmatamento”.

Ele criticou os esforços do governo brasileiro para “acabar com um dos ecossistemas mais preciosos do mundo para obter lucro a curto prazo”, acrescentando que a BlackRock deve “assumir uma postura ativa em rejeitar a oferta de destruir a Amazônia para os negócios”.

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ABNT:

Redação do Fora!. Brasil: multinacional dos EUA investe em empresas desmatadoras da Amazônia. Fora!. Acessado em 30 de agosto de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/08/30/brasil-multinacional-dos-eua-investe-em-empresas-desmatadoras-da-amazonia/>.

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Redação do Fora!. (30 de agosto de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/08/30/brasil-multinacional-dos-eua-investe-em-empresas-desmatadoras-da-amazonia/.

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