Análise: KC-390 – um dos mais avançados cargueiros do mundo é brasileiro

Tempo de leitura: 17 minutos
Arte: Marcio Vaccari.

A Embraer de asas novas nos 50 anos e rumo aos 100.

É impossível falar da Embraer sem se lembrar de seu fundador: Ozires Silva. Ozires foi piloto da Força Aérea Brasileira, tendo ingressado na Escola de Aeronáutica em 1951, no Rio de Janeiro, e posteriormente no Instituto Tecnológico da Aeronáutica, se formando engenheiro aeronáutico. Em 19 de agosto de 1969, fundou a Embraer no interior do estado de São Paulo, quando lançou o icônico ‘Bandeco’ (Embraer 110/Bandeirante). Ela foi a primeira aeronave desenvolvida e produzida no Brasil e por brasileiros. Nos corações e nas mentes daqueles que são apaixonados por aviação, Ozires Silva, Santos Dumont e o Marechal-do-Ar Casimiro Montenegro Filho (fundador do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, patrono da área de engenharia da Força Aérea Brasileira e da academia nacional de engenharia/BR) formam a Santíssima Trindade da aeronáutica brasileira – segundo seu biógrafo, o engenheiro Decio Fischetti. O Coronel Ozires Silva, que viria a ser o primeiro a ocupar o cargo de ministro da Infraestrutura do Brasil (15 de março de 1990 – 27 de março de 1991), foi peça-chave para o desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira, além de ter dado inúmeras contribuições ao desenvolvimento tecnológico e científico nacionais. Vale ainda a ressalva de que, mesmo não comandando mais diretamente a Embraer, Ozires Silva é indispensável na empresa, sendo consultado sempre que necessário sobre projetos e decisões importantes – foi ele o responsável pela privatização da Embraer que se iniciou em 1991 e foi concluída em 1994.

O KC-390

Fonte: Marcos Corrêa/PR

Iniciado em paralelo ao projeto FX-2, que tem como objetivo a modernização das aeronaves de superioridade aérea, o projeto do KC-390 qualifica as aeronaves de transporte da Força Aérea Brasileira, com vistas à substituição dos estadunidenses Lockheed Martin C-130 (o “Hércules”), que opera na FAB desde 1964. Atualmente, 23 aeronaves estão em operação e exercem importantes missões, como o ressuprimento da Base Comandante Ferraz, na Antártida, que é realizado pelo 1º/1º GT (Primeiro Esquadrão do Primeiro Grupo de Transporte Aéreo/Esquadrão Gordo), sediado na Base Aérea do Galeão – RJ. Segundo a FAB, as missões na Antártida continuarão a ser realizadas pelo Hércules.

O anúncio do projeto KC-390 foi feito em abril de 2007, pelo então comandante da Aeronáutica Brasileira, Tenente-Brigadeiro do Ar Luiz Carlos da Silva Bueno (2003-2007), no primeiro ano do segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006/2007-2010). A mensagem passada pelo governo anunciava ao povo brasileiro e aos seus parceiros de todo o mundo sobre o pacote de melhorias e modernização da força militar, e que contaria com a substituição dos C- 130 por uma aeronave mais moderna desenvolvida em conjunto pelo Comando da Força Aérea Brasileira e pela Embraer.

O KC-390 faz parte de um grupo de medidas para permitir o avanço e a integração da FAB em uma nova era, que tem como um dos objetivos equipar a Dimensão 22 – um cenário tridimensional de 22 milhões de km² importante para a manutenção da soberania do espaço aéreo brasileiro e integração do território nacional com vistas à defesa. A FAB adotou, em relação à Dimensão 22, o seguinte lema: Controlar – Defender – Integrar. A aeronave faz com que a FAB possa estar presente nestes 22 milhões de quilômetros quadrados pertencentes ao Brasil (Brasil continental, ilhas, mar e zona econômica exclusiva), área quase 5 vezes maior que a União Europeia, com seus 4,476 milhões de km².

Com contratos que já rondam os US$ 3,8 bilhões, podendo chegar, segundo a Embraer Defesa & Segurança, à cifra dos US$ 20 bilhões. O programa contou com apoio de R$ 4,5 bilhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e, entre 2011 e 2014, com investimentos na ordem dos R$ 5,5 bilhões, durante o primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rouseff (2011-2014/2015-2016) – a quem o projeto deve muito, visto o papel da presidente através de apoios e aportes de capital com recursos do tesouro brasileiro autorizados pela mesma, em cifras que, atualizadas, rondam os US$ 6 bilhões, fundamentais para o avanço do projeto.

Tratando-se de uma aeronave multimissões, o KC-390 é modular e pode ter sua configuração alterada de forma muito simples e rápida, obtendo as configurações de transporte de cargas; transporte e lançamento de tropas; combate a incêndios; reabastecimento de aeronaves em voo; busca, salvamento e resgate; apoio aéreo logístico; dentre outras. Mesmo se tratando de um avião de dimensões nunca antes produzidas em terras tupiniquins e com motores turbofan, o KC-390 tem uma enorme “maleabilidade”, sendo capaz de pousar e decolar de aeródromos/pistas curtas e sem pavimentação, muito comuns em diversas localidades do Brasil, de Portugal, da Argentina e da Colômbia, por exemplo. Para o desenvolvimento foi formado um consórcio contando com Brasil, Portugal, Argentina e República Checa, com especial destaque para a contribuição do CEiiA/Portugal (Centro de Inovação e Desenvolvimento em Engenharia, localizado no distrito do Porto, região norte de Portugal), que foi fundamental para o desenvolvimento e sucesso do projeto, tendo realizado trabalhos nas mais diversas partes da aeronave – com especial destaque nas áreas de design e estrutura.

Passando por uma readequação no quadro de aeronaves da FAB, a Embraer, que foi incumbida do desenvolvimento do novo cargueiro, foi além e entregou à Aeronáutica o melhor e mais completo projeto encabeçado pelo fabricante brasileiro. Sendo uma verdadeira quebra de paradigmas, o KC-390 conseguiu reunir toda a experiência dos 50 anos da empresa em um único projeto, com a melhor relação custo-benefício do mercado atual.

Ficha técnica

DIMENSÕES TOTAIS
Comprimento: 115,49 pés (35,20 metros)
Altura: 38,85 pés (11,84 metros)
Envergadura: 115 pés (35,05 metros)

DIMENSÕES DO COMPARTIMENTO DE CARGAS / PORÃO
Comprimento: 60,83 pés (18,54 metros)
Altura: 10,50 pés (3,20 metros)
Largura: 11,32 pés (3,45 metros)
Deflexão da rampa: 4 pés (1,24 metros)
Volume: 44.645,1 Galões/US (169 metros cúbicos)

DESEMPENHO
(De acordo com a Embraer Defesa & Segurança)
Teto Operacional: 36.000 pés (aproximadamente 11.000 metros)
Velocidade de Cruzeiro: 870 km/h (aproximadamente Ma 0,7)
Velocidade Máxima: 988 km/h (aproximadamente Ma 0,8)

RAIOS DE AÇÃO1
Com tanques externos: 4.600 milhas náuticas (8.520 km)
Em translado: 3.310 milhas náuticas (6.130 km)
Em missão de reabastecimento em voo: 1.347 milhas náuticas (2.495 km)
Com maior capacidade de carga, ou seja, em transporte logístico: 1.520 milhas náuticas (2.820 km)

DISTÂNCIA DE DECOLAGEM2
Em operações de transporte logístico: 5.348 pés (1.630 metros)
Em condições normais de operação: 4.265 pés (1.300 metros)
Em missões táticas: 3.608 pés (1.100 metros)

1Vale ainda a ressalva que o KC-390, apesar de operar como reabastecedor, também pode ser reabastecido em voo, o que torna praticamente ilimitado o seu raio de operação.
2As distâncias podem ser menores ou maiores, a depender da necessidade de cada operação.

CARGAS3
Aeronave vazia: 112.000 libras (aproximadamente 51 toneladas)
Em missões táticas: 148.000 libras (aproximadamente 67 toneladas)
Operações “padrão”: 164.000 libras (aproximadamente 74,4 toneladas)
Transporte logístico: 179.000 libras (aproximadamente 81 toneladas)
Carga útil máxima: 57.300 libras (aproximadamente 26 toneladas)
Combustível nas asas4: 6.128 Galões/US (23,200 metros cúbicos)

3Todos os dados de capacidade de carga são fornecidos pela Embraer, podendo as capacidades serem alteradas conforme condições meteorológicas e/ou condições de operação.
4Os 23,200 metros cúbicos, se considerado o Avgas (combustível mais usual em aviação), são equivalentes, em condições padrão (1 atm e 288,15 K), a 16,704 toneladas de combustível nas asas.

TRIPULAÇÃO
Cockpit: 1 Comandante (Piloto), 1 Primeiro-Oficial (Co-piloto), 1 Engenheiro de Voo .
Compartimento de Cargas/Porão: Até 80 soldados, de acordo com a Embraer.

SISTEMAS DE DEFESA DA AERONAVE
RWR – Chaff e Flare: Sistema de defesa para desviar misseis tanto terra-ar como ar-ar que busquem assinaturas de calor via infravermelho, “confundindo” o míssil e fazendo-o buscar outra assinatura de calor que não a dos motores. Utiliza uma nuvem composta por micro e até nano partículas de alumínio e/ou fibras metalizadas (chaff), bem como lançamento de metais com altas taxas de liberação de calor como, por exemplo, o magnésio – obtendo assim uma nuvem pirotécnica com assinatura de calor maior ou igual que a dos motores (flare).
DIRCM – Directional Infrared Countermeasures: Contra-medida usada para direcionar um feixe infravermelho contra misseis hostis, atuando como autodefesa da aeronave. Este sistema de defesa é usado contra mísseis por atração passiva infravermelha, que normalmente lançados do ombro de combatentes em solo – como o Igla-S, de fabricação russa, e o Stinger, de fabricação norte-americana.

O KC-390 conta ainda com painéis balísticos integrados em sua estrutura, o que facilita a operação em ambientes hostis, como em cenários de conflitos.

Exemplos de sistemas DIRCM – neste caso, fabricados pela Northrop Grumman, que cedeu a imagem. O sistema que equipa os KC-390 é fabricado pela AEL Sistemas S/A.

Abaixo, vídeos que mostram o funcionamento dos sistemas de Chaff e Flare (em um AC-130) e do DIRCM (estimulando um míssil A-Darter), bem como uma imagem do próprio KC-390 lançando Flares.

AVIÔNICOS
O KC-390 possui sistemas aviônicos integrados avançados, que facilitam a pilotagem e a operação da aeronave como, por exemplo, o fly-by-wire.
Sistemas HUD Duplo: Heads-up-display para ambos os pilotos, que os permite receber e acompanhar os dados da aeronave sem ter que desviar o olhar para checar os instrumentos do avião. Sistema de iluminação de cabine e compartimento de carga/porão compatíveis com sistemas de visão noturna para lançamentos e ambientação de tropas a saltos noturnos.
Sistema de lançamentos ponto-a-ponto para cargas e tropas, podendo também ser empregado em combate a incêndios, tornando assim mais precisa a operação.

Por conta de todo o trabalho comandado e desenvolvido pela Embraer (Embraer Defesa & Segurança) e em respeito à propriedade intelectual, visando também preservar as vantagens obtidas com os avançados sistemas aviônicos do KC-390, os dados detalhados sobre esses sistemas não serão divulgados por nós ao público.

GRUPO MOTOPROPULSOR (G.M.P.)
2x turbofans Pratt e Whitney IAE-V2500-E5, com alta razão de bypass, capazes de produzir até 31.330 libras (aproximadamente 139,36 kN) de empuxo cada. Vale ainda a ressalva de que, para a situação de voo em translado, o KC-390 tem consumo específico de combustível (SFC) para cada motor na casa dos 0,325 kg∙s-1, sendo essa taxa de consumo relativamente baixa se considerarmos as dimensões da aeronave.

Abaixo, imagens com os raios operacionais estimados do KC-390 a partir de determinadas cidades. Os círculos são irregulares porque levam em consideração fatores de navegação, como a presença de cadeias de montanhas e diferenças de temperatura entre correntes aéreas, entre outros.

Dupla certificação

Com a primeira unidade sendo a PT-ZFN e sem a Embraer ter atrasado a data de entrega de nenhum projeto ao longo dos seus 50 anos de existência, o KC-390 foi certificado para fins militares e civis de acordo com os padrões 14 CFR 25 da FAA (Federal Aviation Administration) e também de acordo com as normas da EASA (European Union Aviation Safety Agency) – para os mesmos fins segundo nossas fontes, algo incomum no mercado. Assim, a aeronave já está habilitada a cumprir quaisquer missões impostas. O KC-390 foi oficialmente concluído em 23 de outubro de 2018 – mesmo dia em que, em 1906, no Campo de Bagatelle (Paris), Santos Dumont voava seu 14-Bis pela primeira vez de forma pública e de acordo com as normas de um aeroclube, ficando a data conhecida no Brasil como Dia do Aviador e da Força Aérea Brasileira. O KC-390 foi apresentado com todas as certificações na Base Aérea de Brasília, na presença de autoridades civis e militares, bem como do Tenente-Brigadeiro do Ar Nivaldo Luiz Rossato – à época, Comandante da Aeronáutica Brasileira, do então presidente da
república Michel Temer (2016-2018). Mais de 10 anos depois de seu anúncio, o KC-390 está concluído e pronto para que se inicie a produção do modelo.

Encomendas

Atualmente, a aeronave tem um custo unitário (sem complementos/aditivos) rondando os US$ 80 milhões em sua versão básica, com negócios na casa dos US$ 10 bilhões – podendo chegar aos US$ 20 bilhões em uma primeira versão, segundo a Embraer. O KC-390 é considerado por muitos como sendo um sucesso, como mostra a quantidade de encomendas e de interessados nas mais diversas partes do globo.

São clientes do KC- 390:

Brasil (compra confirmada): 1º lote com 30 unidades – já tendo sido entregues os 2 primeiros protótipos à FAB – podendo vir a ser feitas mais encomendas conforme a necessidade das forças armadas brasileiras.

Portugal (compra confirmada): 5 unidades, podendo ainda ser adquirida mais 1 unidade, sendo que as aeronaves são prioritariamente para combate a incêndios.

Argentina (intenção de compra): 6 unidades.

República Checa (intenção de compra): 6 unidades.

Colômbia (compra confirmada): 12 unidades para modernização das aeronaves do país.

Chile (opção firme de compra): 6 unidades para a Força Aérea Chilena.

Hungria (compra confirmada): Para fins de renovação da força aérea. Quantidade ainda não foi divulgada.

Suécia (opção firme de compra): Confirmado pelo governo da Suécia por conta do projeto FX-2.

Itália (intenção de compra): Interesse confirmado pelo governo da Itália, porém sem finalidades e quantidades definidas. Deve-se considerar que a Itália, nesse momento, passa por uma forte instabilidade política, o que faz com que o chefe de governo e o parlamento se tornem mais cautelosos nesse tipo de aquisição.

Conclusão

Por tudo o que foi descrito acima, pode-se inferir que, mesmo sem expor os dados que seriam necessários para uma comparação justa com seus concorrentes diretos (como o A-400M da Airbus, o Boeing C-17 Globemaster III e o Antonov An-178), o KC-390 é motivo de orgulho para todos os envolvidos no projeto e confirma que, apesar da turbulência política e econômica que assolam o Brasil desde 2013, os brasileiros muito têm do que se vangloriar em relação à sua indústria aeronáutica – que soube se inventar e reinventar ao longo desses 50 anos, estabelecendo-se como terceiro maior fabricante de aeronaves do mundo e maior fabricante de aeronaves executivas. Com isso, a Embraer confirmou estar pronta para o voo que a conduzirá rumo aos 100 anos. Devo reiterar minha admiração e meu respeito a todos os envolvidos no projeto e a Ozires Silva/PF, cujo trabalho culminou na melhor aeronave já desenvolvida em solo brasileiro, o que inspira toda uma geração de apaixonados pela aviação e pela engenharia aeronáutica.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Lucas Barbosa. Análise: KC-390 – um dos mais avançados cargueiros do mundo é brasileiro. Fora!. Acessado em 3 de setembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/09/03/analise-kc-390-a-embraer-de-asas-novas-nos-50-anos-e-rumo-aos-100/>.

APA:

Lucas Barbosa. (3 de setembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/09/03/analise-kc-390-a-embraer-de-asas-novas-nos-50-anos-e-rumo-aos-100/.

Adaptações na ordem nome-sobrenome, bem como em outros elementos, podem ser necessárias. Se o texto tem co-autores ou se trata de uma tradução, os co-autores/tradutores devem ser revisados manualmente devido a limitações em nosso script.

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