Canadá: Disputa acirrada entre liberais e conservadores na eleição 2019

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Fonte: iStock

Em um cenário em que a bola da vez parece estar com a direita em boa parte das democracias ocidentais, o Partido Liberal de Justin Trudeau até o momento amarga a segunda posição nas intenções de voto para as próximas eleições canadenses, previstas para 21 de outubro.

Quando ocorreram as últimas eleições em nível federal no Canadá, em 2015, o Brexit sequer havia sido cogitado. A vitória de Donald Trump nos EUA era uma possibilidade remota para os analistas. Fake News era um termo relativamente novo no jargão político, cujo impacto atingiu plenitude assustadora nas eleições brasileiras de 2018.

Tradicionalmente avesso a radicalismos – no Canadá é incomum que representantes tanto da extrema-direita como da extrema-esquerda consigam espaço parlamentar relevante – algumas coisas mudaram nos últimos quatro anos. Com o crescimento de grupos de extrema-direita no país, o Partido Nacionalista Canadense (Canadian Nationalist Party) deu mais um passo para oficializar seu registro, gerando reação de grupos anti-ódio. Alguns políticos conservadores começam a soar como Donald Trump. E há quem alerte que o mesmo tipo de manipulação do Brexit e da última eleição dos EUA possa também ocorrer nas eleições canadenses.

Ainda assim, a política canadense costuma ser vista como um exemplo de democracia. O sistema é pluripartidário, mas há anos apenas cinco partidos conseguem assentos no parlamento (MPs): o Partido Liberal (Liberal Party), o Partido Conservador (Conservative Party), o Novo Partido Democrático (New Democratic Party), o Bloco Quebequense (Bloc Québécois) e o Partido Verde do Canadá (Green Party of Canada).

Por ser um dos países da Comunidade das Nações (Commonwealth) que reconhece como Chefe de Estado o monarca do Reino Unido – atualmente, a rainha Elizabeth II –, a escolha do ocupante de cargo de primeiro-ministro, o mais elevado do poder executivo canadense, é realizada pelo representante da coroa britânica, ou seja, pelo governador-geral do Canadá. Normalmente, o critério utilizado é a representatividade e legitimidade perante o parlamento: assim, o líder do partido que conquistar a maioria das cadeiras parlamentares costuma ser nomeado primeiro-ministro.

Uma das consequências deste arranjo é que, historicamente, o cargo acaba sendo alternado entre membros dos partidos Liberal e Conservador, e em 2019 não será diferente. Neste cenário, vamos analisar os dois principais envolvidos na disputa eleitoral para conquistar os 170 assentos necessários para formar a maioria no parlamento:

O Partido Liberal

Fonte: material de campanha do Partido Liberal

Há poucos anos, os liberais estavam em alta – principalmente pelo carisma de Justin Trudeau, seu líder e atual primeiro-ministro canadense. O Partido Liberal conseguiu a vitória em 2015 com uma campanha de apelo maciço à classe média e ao desejo de muitos em fazer parte deste estrato social. Trudeau inclusive cumpriu algumas de suas promessas de caráter progressista (aperfeiçoamento de benefícios para crianças, legalização da maconha, aumenta de licença parental e corte de impostos para a classe média e outras mais desfavorecidas). Todavia, questões mais pragmáticas e comezinhas começaram a arranhar sua imagem e a do partido.

Ambientalistas ficaram furiosos com o projeto de expansão do oleoduto Trans Mountain entre as províncias de Alberta e Colúmbia Britânica. A implementação de sua política de créditos de carbono alimenta o temor de um aumento de preços generalizado. Apesar do governo ter firme controle inflacionário e de gozar de um ambiente com os menores patamares de desemprego em décadas, o problema da especulação imobiliária afeta muitas pessoas: com as taxas de juros excepcionalmente baixas na última década, muitos canadenses compraram imóveis e, consequentemente, se endividaram com hipotecas. Em grandes cidades, como Toronto e Vancouver, o preço dos imóveis disparou, e a tendência é dos juros aumentarem, potencialmente colocando em dificuldades financeiras inúmeras pessoas. E em apenas 3% das vizinhanças canadenses um assalariado que trabalha em tempo integral recebendo um salário mínimo consegue alugar um apartamento médio de dois quartos, uma perspectiva desanimadora – principalmente para os mais jovens.

Mesmo com esses fatores, em fevereiro os liberais estavam em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. A estratégia parecia simples: levando em conta a diminuição de algumas cadeiras no parlamento, a perspectiva era de compensar as prováveis perdas de eleitores em Ontário, Colúmbia Britânica e no Canadá Atlântico com mais votos em Quebec.

No entanto, em março, a ex-procuradora-geral e ministra da Justiça, Jody Wilson-Raybound, denunciou pressões de Trudeau para não processar judicialmente a empreiteira SNC-Lavalin, e sim firmar um acordo com a empresa, acusada de práticas ilegais entre 2001 a 2011. Como era de se esperar, esse pedido para não prosseguir com as acusações formais afetou de maneira muito negativa a imagem do político e de seu partido. Recentemente, o comitê de ética do parlamento canadense responsabilizou diretamente o primeiro-ministro por interferência no caso SNC-Lavalin, o que pode se tornar mais uma elemento a comprometer o esforço de voltar ao topo das intenções de voto e conquistar as 170 cadeiras necessárias.

O Partido Conservador

Fonte: material de campanha do Partido Conservador

Fundado em 2003, o atual Partido Conservador, apesar de recente, tem uma história de décadas por ter origem na fusão de diversos partidos de direita e centro-direita. Em sua forma moderna, governou o Canadá de 2011 a 2015, quando Stephen Harper foi primeiro-ministro. O atual líder dos conservadores é Andrew Scheer, que aos 32 anos tornou-se o mais jovem orador da Câmara dos Comuns. Relativamente jovem (40 anos) e quase desconhecido – ao menos fora dos círculos políticos – Scheer também é líder da oposição oficial ao governo liberal e conta com apoio sólido de setores empresariais e financeiros: os conservadores são os que mais receberam doações para campanha.

As propostas para o pleito deste ano envolvem uma redução de impostos e o fim da taxa sobre carbono, medidas que reafirmariam o compromisso de aumentar o poder aquisitivo da população; a promessa de manter o benefício infantil aprimorado pelos liberais; a implementação de uma política ambiental que promova desenvolvimento econômico em um cenário de reconhecimento da realidade das mudanças climáticas. Entretanto, a ênfase em “mais tecnologia e menos impostos” pode, como consequência, aumentar as emissões de gases de efeito estufa acima do que é permitido pelas políticas atuais, prejudicando o objetivo estipulado pelos acordos de Paris para 2030 – uma pauta sensível num país que aquece a uma taxa duas ou até três vezes acima da média global.

Parte da propaganda conservadora apela a um senso de nacionalismo, ao defender que mais recursos sejam investidos internamente para benefício dos canadenses. Scheer tenta ser cauteloso, evitando a retórica mais extremada da direita, mas por vezes é acusado de “afagá-la” mais do que deveria.

Na última década, as contas públicas canadenses são primariamente deficitárias, e a perspectiva é de continuar assim até 2024 – mas Scheer afirma que equilibrará as contas públicas em poucos anos. Mesmo Trudeau dificultando a entrada de imigrantes ilegais, sua postura geral pró-imigração é alvo dos conservadores, que propõem mais restrições em um processo de triagem para definir quem teria habilidades desejáveis às empresas canadenses, visando atender ao apelo de parte da população que acredita que o Canadá já tem imigrantes demais.

Scheer tem a chance inédita de derrubar um governo liberal que busca reeleição num ambiente econômico favorável, e de se tornar o segundo homem mais jovem a assumir o posto. Contudo, até o momento, sua campanha é principalmente reacionária, e não somente no sentido político e social (pelos discursos de desinchar a máquina pública, de defesa de empresas extrativistas, pelas postura anti-imigratória e nacionalista) mas também no sentido de que é mais pautada em reação aos tropeços dos liberais do que em proposições originais, o que gera a imagem negativa de um candidato definido pelos rivais, sem identidade própria, e ainda desconhecido por muitos canadenses.

 

Situação atual

Andrew Scheer e Justin Trudeau. Imagem: Chris Young/Canadian Press

No momento, o Partido Conservador está na frente nas pesquisas de intenção de voto, com 34%, e o Partido Liberal, com 33,3%, segue logo atrás, diminuindo cada vez mais a lacuna à medida em que outubro se aproxima.

Parte considerável da população compreende que se há bonança econômica, ela beneficia a poucos. As políticas protecionistas dos EUA evidenciaram a necessidade de buscar novos parceiros comerciais. O primeiro-ministro Justin Trudeau precisa lidar com a queda de popularidade e um escândalo, enquanto busca reverter a desvantagem em relação aos conservadores, e Andrew Scheer precisa ter mais visibilidade e desenvolver uma personalidade política forte para convencer a população de que seu discurso está alinhado com o desejo da maior parte dos canadenses e não somente de uma elite econômica e empresarial. Por ora os conservadores estão com a vantagem, mas é imprudente pensar que a vitória em 21 de outubro está garantida.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Attila Piovesan. Canadá: Disputa acirrada entre liberais e conservadores na eleição 2019. Fora!. Acessado em 3 de setembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/09/03/canada-disputa-acirrada-entre-liberais-e-conservadores-na-eleicao-2019/>.

APA:

Attila Piovesan. (3 de setembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/09/03/canada-disputa-acirrada-entre-liberais-e-conservadores-na-eleicao-2019/.

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