Geórgia: extrema-direita cresce com a conivência das autoridades

Tempo de leitura: 15 minutos
Sandro Bregadze, fundador da Marcha Georgiana, em manifestação em março de 2018. Foto: Onnik James Krikorian.

O movimento de extrema-direita da Geórgia vem crescendo nos últimos anos, apresentando uma ameaça perigosa para os judeus, pessoas LGBTQ e comunidades ortodoxas não-georgianas.

Com informações da consultoria geopolítica Stratfor.

Deveria ter sido uma noite como outra qualquer para Vitali Safarov. O ativista de direitos civis de 25 anos de idade foi a um bar no centro de Tbilisi para socializar, quando discutiu com dois membros de gangues neonazistas. A briga logo tomou um rumo fatal e, nas primeiras horas de 30 de setembro de 2018, Avtandil Kandelakishvili, 21 anos, e Giorgi Sokhadze, 24 anos, mataram Safarov, esfaqueando-o dez vezes.

Sokhadze, apelidado por seus companheiros de “Slayer”, era conhecido por ter inclinações fascistas, enquanto Kandelakishvili tinha uma tatuagem de suástica. Uma testemunha-chave do julgamento afirmou que os dois fizeram comentários antissemitas ao matar Safarov, que era descendente de judeus e yazidis. Apesar dos epítetos raciais dos agressores, o tribunal não qualificou o assassinato de Safarov como crime de ódio.

Por fim, o tribunal condenou Kandelakishvili e Sokhadze a 15 anos de prisão em junho. A família de Safarov, no entanto, pretende recorrer da decisão, com a mãe da vítima, Marina Alanakyan, determinada a entender por que seu filho foi morto e garantir que o caso estabeleça um precedente importante para punir crimes de ódio na Geórgia.

O ativista de direitos humanos Vitali Safarov foi esfaqueado em setembro de 2018. Imagem: Centro de Participação e Desenvolvimento.

Outros na sociedade civil estão ansiosos para descobrir por que o governo e a polícia falharam em abordar o problema cada vez mais visível da radicalização de extrema-direita no país. De fato, com as autoridades fechando os olhos às atividades de extrema-direita e neonazistas, e um governo cada vez mais impopular abrindo caminho para que mais grupos ultraconservadores entrem no parlamento e difundam seus pontos de vista, a Geórgia está à beira de uma mudança forte em direção à direita.

Uma realidade ignorada

Até o momento, o extremismo violento na Geórgia foi enquadrado apenas no contexto do Estado Islâmico, da Síria e da população muçulmana minoritária do país. Mesmo assim, existem poucos projetos efetivos para combater o fenômeno no país – nenhum dos quais lida com a desmobilização da extrema-direita ou a desradicalização.

O Instituto de Tolerância e Diversidade, por exemplo, observou em um comunicado de imprensa, menos de duas semanas após o assassinato de Safarov, que grupos neonazistas estavam ativos na Praça da Liberdade de Tbilisi há pelo menos um ano, visando especificamente bares frequentados por turistas e outros estrangeiros. Além disso, alegaram que a polícia falhou consistentemente em responder às queixas, incluindo aquelas envolvendo os dois neonazistas responsáveis ​​pelo assassinato de Safarov.

“Este foi um resultado verdadeiramente trágico e fatal de crimes de ódio impunes ao nosso redor”, disse Agit Mirzoev, que trabalha no Centro de Participação e Democracia, onde Safarov trabalhou uma vez. “Temos falado sistematicamente sobre os perigos da radicalização (de extrema-direita) nos últimos quatro ou cinco anos, mas nem o público nem o governo mostraram uma resposta adequada a essas preocupações”.

De fato, foi somente quando os georgianos acordaram com as notícias dos massacres da mesquita de Christchurch (Nova Zelândia), em março, e viram fotografias de escritos em georgiano – junto com cirílico, armênio e latim – rabiscados nas armas do atirador que muitos começaram a se preocupar com a possível conexão entre a extrema-direita da Geórgia e radicais no exterior. Um dos nomes inscritos nos armamentos do atirador Brenton Tarrant foi o de David, o Construtor, o rei da Geórgia que levou as forças do país à vitória contra os turcos seljúcidas na batalha de Didgori, em 1121. David, sua bandeira e 1121 tornaram-se importantes para grupos radicais como a Marcha da Geórgia, cujos membros fizeram da bandeira do unicórnio do rei seu principal símbolo e começaram a usar camisetas com a data da Batalha de Didgori.

Imediatamente após os massacres da Nova Zelândia, o governo da Geórgia prometeu investigar possíveis ligações entre os neonazistas do país e militantes de extrema-direita no exterior. No entanto, não houve progresso desde então.

O manifesto do atirador de Christchurch parecia ter forte influência de Anders Breivik, o terrorista de extrema-direita que matou 77 pessoas, incluindo uma georgiana, em um ataque a bomba em Oslo e um massacre na ilha de Utoya, na Noruega, em julho de 2011. Tanto Breivik quanto Tarrant parecem ter ficado fascinado com a Geórgia e outros países cristãos que compartilhavam uma inimizade histórica com os muçulmanos. Ambos também eram obcecados com a “Grande Substituição”, uma teoria de conspiração que afirma que os não-europeus estão tomando o lugar dos europeus brancos. Hoje, a “Grande Substituição” é uma narrativa importante entre os grupos extremistas de diversas partes do mundo.

Um site georgiano, MyStar, chegou a traduzir os trabalhos de David Lane, membro de uma organização terrorista doméstica dos EUA, chamada “A Ordem”, para georgiano. Em todo o mundo, Lane é mais conhecido por suas 14 palavras: “Nós devemos assegurar a existência do nosso povo e um futuro para crianças brancas”, que se tornou um mantra para os supremacistas brancos e os neonazistas de todo o mundo. Enquanto isso, outro post do MyStar citou o Antigo Testamento para justificar a execução de crianças na Alemanha nazista. O site não renovou sua hospedagem no início deste ano, e o domínio agora é usado para vender carteiras e bolsas.

No entanto, outros sites continuam a publicar conteúdo semelhante. Um desses grupos é o Poder Georgiano Neonazista, que é prolífico na disseminação de memes da alt-right (“direita alternativa”) representando Pepe the Frog, referências às pílulas vermelhas e azuis de “Matrix” (filme que foi apropriado pela extrema-direita) e imagens patriarcais de mulheres “puras”. Também adotou as 14 palavras de Lane como uma hashtag georgiana no Facebook.

Mais recentemente, grupos ultraconservadores e nacionalistas – como a Unidade Nacional Neonazista e a Marcha da Geórgia – também intensificaram suas atividades. Em maio do ano passado, os dois grupos convergiram para o parlamento para enfrentar os clientes de boates que protestavam contra uma batida policial particularmente pesada no famoso Bassiani Club.

Apesar da demonstração de força, nem Sandro Bregadze (líder da Marcha da Geórgia) nem Giorgi Chelidze (o cabeça da Unidade Nacional) responderam a acusações na época. De fato, foi apenas em setembro de 2018 que as autoridades processaram Chelidze por posse ilegal de munições – um ato que veio à luz depois que ele postou um vídeo no Facebook dele e de outros treinando com armas semi-automáticas. No julgamento que se seguiu, Chelidze e seus apoiadores fizeram saudações nazistas no tribunal, imitando Breivik durante seu julgamento. No entanto, o tribunal condenou o líder da Unidade Nacional a apenas 3 anos e meio de prisão, em maio.

Além disso, o governo da Geórgia não demonstrou nenhum interesse em enfrentar o problema da radicalização de extrema direita, apesar de Tbilisi sediar um seminário da Organização para Segurança e Cooperação na Europa, em junho, contra o extremismo violento.

O ex-defensor público do país, Ucha Nanuashvili, acusou o governo de manter dois pesos e duas medidas, mostrando inconsistências na luta contra o extremismo e reagindo apenas em casos excepcionais – e, mesmo assim, inadequadamente. “Não há coordenação das instituições estatais a esse respeito, e a impressão é que as autoridades não estão cientes dos efeitos devastadores causados ​​pelo incentivo a esses grupos”, disse Nanuashvili.

Em junho, por exemplo, o Ministério do Interior se recusou a fornecer segurança à comunidade LGBTQ de Tbilisi para o primeiro evento do Orgulho Gay, no que permanece um país com costumes conservadores. Sem se intimidar, os organizadores disseram que iriam realizar o evento de qualquer maneira, mesmo quando grupos de extrema-direita e ultranacionalistas ameaçaram usar de violência. A Igreja Ortodoxa da Geórgia pediu calma, mas alertou que qualquer violência seria culpa dos organizadores da marcha do Orgulho Gay.

Entra o demagogo

Depois de um tenso impasse entre grupos ultraconservadores e ativistas LGBTQ fora da Chancelaria do Estado em 14 de junho, o empresário milionário Levan Vasadze anunciou, dois dias depois, que estava formando grupos de vigilantes para identificar e sequestrar qualquer pessoa considerada provável de participar ou apoiar a marcha do Orgulho Gay de Tbilisi. Apesar das advertências do Ministério do Interior de que tais declarações violavam o artigo 223 do Código Penal, que proíbe a formação de grupos ilegais, Vasadze ainda não foi processado.

Em maio do ano passado, o Centro de Legislação e Pobreza do Sul citou Vasadze como representante do Congresso Mundial das Famílias anti-LGBTQ, vinculado a Alexander Dugin, que tem conexões com o Kremlin. Em dezembro de 2017, o centro observou que Vasadze falou em Chisinau, Moldávia, na Conferência Eurasiana de Dugin, um evento que também atraiu neonazistas e identitaristas.

Os ultranacionalistas da Geórgia negam qualquer ligação com Moscou, disse Nanuashvili. “No entanto, seus argumentos são semelhantes aos dos grupos de extrema-direita russos e representam o ‘soft power’ (poder brando) russo”, disse ele. “A maioria desses grupos é verdadeiramente anti-Rússia, mas grupos relativamente grandes e influentes, como a Marcha da Geórgia e outras organizações unidas em torno de líderes como Vasadze, não podem esconder suas atitudes pró-russas”.

George Marjanishvili, diretor do Centro de Participação e Democracia, não se surpreende com a falta de ação das autoridades. “Vasadze representa um grupo bastante influente na Geórgia”, disse ele.

“É um grupo que tem apoio da Igreja Ortodoxa da Geórgia e do próprio patriarca”, disse Marjanishvili. “A maioria da sociedade vê [Vasadze] como o ‘megafone’ do Patriarcado da Geórgia, de modo que o governo tenta evitar qualquer controvérsia com ele justamente por causa dessa influência. Vasadze pode criar problemas maiores para o governo do que a oposição, então o governo geralmente escolhe enterrar a cabeça na areia”.

Mais preocupante, segundo os críticos, é a especulação de que o governo possa utilizar politicamente esses grupos de extrema-direita. “É bastante claro que o governo ocasionalmente usa esses grupos para assustar e demonizar grupos liberais e outros com opiniões diferentes deles”, disse Nanuashvili. “Tudo isso reforça a suposição de que eles têm o favor e o apoio de alguns funcionários do governo”.

Isso também levanta temores sobre as eleições parlamentares de 2020. Com sua popularidade no ponto mais baixo dos últimos anos, o partido Sonho Georgiano, no poder, está atualmente com apenas 21% de intenções de voto, de acordo com uma pesquisa recente do Instituto Nacional Democrata – apenas seis pontos a mais que o partido de oposição Movimento Nacional Unido.

O descontentamento público está crescendo, especialmente após os violentos protestos contra o governo em 20 de junho e as manifestações diárias desde que o fundador e líder do Sonho Georgiano, o bilionário Bidzina Ivanishvili, atendeu a uma das demandas dos manifestantes – a saber, que fossem apresentados planos para implementar uma representação proporcional para o próximo ano, ao invés de 2024. Ivanishvili é considerado pelos analistas locais e regionais o verdadeiro poder por trás da Geórgia.

É digno de nota que Ivanishvili também decidiu abortar os planos iniciais para estabelecer um limiar eleitoral, o que significa que não haverá barreira à representação parlamentar. “Sabemos que esses grupos têm ambições políticas, e acho que isso é preocupante à luz da mudança do sistema eleitoral”, disse Marjanishvili. “Agora a barreira mínima é quase inexistente e eles provavelmente têm apoiadores suficientes para conseguir assentos no parlamento da Geórgia, obter legitimação e usar o parlamento para espalhar ódio e xenofobia”.

Tais preocupações não são infundadas. Mesmo sob o atual sistema eleitoral, o partido ultraconservador e populista Aliança dos Patriotas, considerado por muitos como pró-Rússia, ingressou no Parlamento em 2016 com seis cadeiras, depois de ultrapassar por pouco o limiar de 5% do eleitorado.

Em 2013 o Tabula, um site popular que também publicava uma edição impressa regular, previu esse cenário. “O atual governo é amigo de Vasadze e, portanto, ele tem total liberdade para agir”, escreveu a revista. “De importância primordial, porém, é a influência desse novo ator político e o grau de dano que ele infligirá aos interesses e à segurança da Geórgia”.

O escrito do Tabula foi profético: nos seis anos seguintes, os pontos de vista de Vasadze e do restante da extrema-direita da Geórgia abriram cada vez mais caminho dentro da sociedade. E, do modo como as coisas estão agora, é provável que sua influência aumente.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Redação do Fora!. Geórgia: extrema-direita cresce com a conivência das autoridades. Fora!. Acessado em 3 de setembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/09/03/georgia-extrema-direita-cresce-com-a-conivencia-das-autoridades/>.

APA:

Redação do Fora!. (3 de setembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/09/03/georgia-extrema-direita-cresce-com-a-conivencia-das-autoridades/.

Adaptações na ordem nome-sobrenome, bem como em outros elementos, podem ser necessárias. Se o texto tem co-autores ou se trata de uma tradução, os co-autores/tradutores devem ser revisados manualmente devido a limitações em nosso script.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*