Reino Unido: Boris Johnson sofre derrota e quer eleições; crise se aprofunda

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Foto: Arno Mikkor.

Boris Johnson quer eleição após membros rebeldes do Partido Conservador (Tory), seu próprio partido, o derrotarem na Câmara dos Comuns. Deputados votam para assumir o controle do cronograma da Câmara dos Comuns, na tentativa de bloquear o Brexit sem acordo.

Com informações do The Guardian.

Boris Johnson anunciou que pedirá ao parlamento que apoie os planos para uma rápida eleição geral em outubro, depois de sofrer uma derrota humilhante em sua primeira votação na Câmara dos Comuns como primeiro-ministro.

Ex-ministros do governo, incluindo Philip Hammond e David Gauke, estavam entre os 21 rebeldes conservadores que se uniram a parlamentares da oposição para assumir o controle do cronograma parlamentar.

A medida teve como objetivo pavimentar o caminho para um projeto de lei apresentado pelo membro do Partido Trabalhista (Labour) Hilary Benn, cuja proposta é bloquear um Brexit sem acordo – forçando o primeiro-ministro a solicitar uma extensão do artigo 50, se ele não conseguir fazer um acordo reformulado com a União Europeia.

Johnson perdeu a votação por 328 a 301, uma maioria convincente.

O primeiro-ministro havia descrito a legislação mais cedo, elaborada por uma coalizão entre partidos – incluindo os conservadores de alto escalão Oliver Letwin e Dominic Grieve – como “a carta de rendição de Jeremy Corbyn”.

Após sua derrota, Johnson disse que nunca solicitaria a prorrogação exigida no projeto de lei, pois segundo ele isso “entregaria o controle das negociações à UE”.

Se os parlamentares aprovarem o projeto na quarta-feira, ele disse: “o povo deste país terá que escolher” em uma eleição que ele procuraria agendar para 15 de outubro.

O primeiro-ministro precisará de uma maioria de dois terços para garantir uma eleição geral nos termos da Lei de Mandatos Fixos do Parlamento, e Jeremy Corbyn rapidamente deixou claro que seu partido não votaria na moção a menos que (e até que) o projeto contra o Brexit sem acordo fosse aprovado.

“Encaminhe a proposta primeiro, de modo a tirar o Brexit sem acordo da mesa”, disse o líder trabalhista.

Johnson realizou uma série de reuniões com potenciais rebeldes na terça-feira, procurando assegurá-los de que ele estava determinado a conseguir um novo acordo do Brexit com a União Europeia, e que os parlamentares teriam tempo de sobra para debatê-lo e aprová-lo.

Mas vários conservadores parecem ter sido encorajados ao invés de intimidados pela ameaça de perder o controle do restante do parlamento pelo partido – e pela decisão de Johnson, na semana passada, de suspender o parlamento.

Eles expressaram preocupação com o fracasso de Johnson em mostrar qualquer evidência de progresso concreto nas negociações com a UE.

Hammond e o ex-secretário de Justiça David Gauke estavam entre os rebeldes, assim como o parlamentar veterano (e neto de Winston Churchill) Nicholas Soames.

Hammond, que há menos de seis meses apresentava sua declaração como Chanceler do Tesouro, havia dito na manhã de terça-feira que estava pronto para a “luta de uma vida” para ocupar seu lugar no partido Conservador.

“Vou defender meu partido contra novatos, “entristas”, que estão tentando transformá-lo de uma igreja ampla em uma facção estreita”, disse ele ao programa Today da Rádio 4 da BBC.

Em uma referência mal disfarçada em relação ao estrategista-chefe do primeiro-ministro, Dominic Cummings, que não é membro do Partido Conservador, ele disse: “As pessoas que estão no coração deste governo, que provavelmente nem são membros do partido conservador, não se importam em nada com o futuro dos conservadores, e eu pretendo defender meu partido contra eles”.

O parlamentar conservador Phillip Lee deu o passo mais radical de atravessar o plenário do parlamento para se juntar aos Democratas Liberais, removendo a maioria do primeiro-ministro, no momento em que Johnson se preparava para falar aos deputados sobre a reunião do G7 ocorrida na semana passada.

A declaração de Johnson sobre o G7 foi apenas sua segunda aparição na tribuna do parlamento desde que ele se tornou primeiro-ministro em julho. Dirigindo-se a uma ruidosa Câmara dos Comuns, Johnson afirmou que a moção elaborada pela coalizão pluripartidária era “sem precedentes em nossa história” e “destruiria qualquer chance de negociação”.

“Existe apenas uma maneira de descrever o projeto: é o projeto de entrega de Jeremy Corbyn. É o que é. Significa exibir a bandeira branca. A proposta é vergonhosa”, disse ele.

“Quero deixar claro para todos nesta casa: não há circunstâncias em que algum dia eu aceite algo assim. Nunca vou renunciar ao controle de nossas negociações da maneira que o líder da oposição está exigindo”.

Corbyn disse que a medida era “a última chance de parar esse governo de agredir direitos constitucionais e democráticos neste país, de forma que uma cabala em Downing Street não possa nos retirar sem um acordo, sem qualquer mandato democrático e contra a maioria da opinião pública”.

“O primeiro-ministro não está conquistando amigos na Europa; ele está perdendo amigos em casa. O governo dele é sem mandato, sem moral e, a partir de hoje, sem maioria”, afirmou.

A deserção de Lee para os Democratas Liberais ocorreu depois que duas ex-ministras moderadas dos Conservadores, Justine Greening e Alistair Burt, disseram que iriam renunciar ao parlamento na próxima eleição geral.

Lee, em sua carta de saída, disse que o processo do Brexit transformou seu “outrora grande partido” em “algo mais parecido com uma facção estreita”.

Enquanto alguns dos deputados que apoiam a moção dos rebeldes na terça-feira querem bloquear o Brexit, outros gostariam de deixar a UE com um acordo.

Um grupo de parlamentares do Partido Trabalhista, incluindo Stephen Kinnock e Gloria De Piero, planejam apresentar duas emendas ao projeto, pedindo que o atraso do Brexit seja usado para garantir um acordo e que seja feita uma votação sobre o acordo de retirada de Theresa May – incluindo as concessões de última hora que ela fez pouco antes de ser forçada a renunciar.

Exortando os parlamentares a apoiarem a moção rebelde nesta terça-feira, Letwin disse que, devido à iminente suspensão do parlamento, esta era a oportunidade final para parlamentares legislarem e terem essa legislação “imposta sobre um governo relutante”.

O parlamentar do distrito de West Dorset disse que a ameaça de Johnson de um Brexit sem acordo parece significar “se eles não fizerem o que ele deseja, ele se jogará no abismo”.

Questionado se o plano de adiar o Brexit até pelo menos 31 de janeiro não criaria simplesmente confusão, Letwin disse que essa é a melhor opção oferecida.

“É para dar ao governo tempo para resolver esse problema e permitir que o parlamento ajude a resolver uma questão que se mostrou muito difícil”, disse ele. “Não digo que seja fácil de se fazer até 31 de janeiro, mas tenho certeza de que isso não será feito até 31 de outubro. Estamos entre uma rocha e um lugar duro e, neste caso, o lugar duro é melhor que a rocha. É simples assim. É hora da decisão”.

“Se os membros honoráveis ​​de toda a casa quiserem impedir uma saída sem acordo em 31 de outubro, eles terão a oportunidade de fazê-lo se, mas somente se, votarem nesta moção esta noite. Espero que eles façam isso”.

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Redação do Fora!. Reino Unido: Boris Johnson sofre derrota e quer eleições; crise se aprofunda. Fora!. Acessado em 3 de setembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/09/03/reino-unido-boris-johnson-sofre-derrota-e-quer-eleicoes-crise-se-aprofunda/>.

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Redação do Fora!. (3 de setembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/09/03/reino-unido-boris-johnson-sofre-derrota-e-quer-eleicoes-crise-se-aprofunda/.

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