Análise: A crise na economia liberal (parte II da série “A crise”)

Tempo de leitura: 7 minutos
Arte: Marcio Vaccari.

Na segunda parte de nossa especulação a respeito da crise (você pode ler a primeira parte aqui), pensaremos sobre a dimensão econômica da fratura existente no sistema que nós chamamos convenientemente de filosofia política moderna e liberal. Aqui, tentaremos identificar como as transformações do tradicional sistema econômico liberal nos levaram para além dos processos econômicos baseados no mercado e o que isto significa para os indivíduos e cidadãos.

Um dos fatores que mais alimenta as angústias e ansiedades é a perspectiva econômica futura. As recentes crises, como a de 2008 nos Estados Unidos ou a atual no Brasil, onde aproximadamente 13 milhões de pessoas encontram-se desempregadas e muitas mais trabalhando na informalidade (em condições precárias e sem garantias de direitos), bem como a crise resultante do fracasso em assegurar o bem estar, normalmente são explicados pelas pessoas a partir da ideia de corrupção, ou seja, estaríamos neste estado de coisas porque a política e a economia foram tomadas dos cidadãos. Aqui, não investigaremos ainda o que é corrupção dentro do liberalismo. Iremos abrir um caminho diferente e explorar o assunto desde outro ponto de vista.

Para pensarmos o aspecto econômico da crise, é essencial compreender como o liberalismo concebe o que são mercado e humanidade. De um ponto de vista liberal e moderno, o mercado existe objetivamente e este é um sistema metafísico, ou seja, é regido por um conjunto de leis objetivas que não são invenções humanas. Os humanos são, por sua vez, livres, individualistas e possuidores de propriedade em seus corpos e mentes. À medida que esses humanos interagem entre si e trabalham, o mercado realiza sua função, a saber, criar valor e alocar recursos escassos. O conjunto desses dois relatos tornou possível o surgimento do capitalismo ocidental. O fundamental aqui é o espaço aberto e livre para os humanos se engajarem na produção de valor. Nota-se, assim, como este entendimento moderno e liberal do que é o mercado interdepende de uma compreensão igualmente liberal acerca da existência humana.

A crise, então, manifesta-se a partir da ruptura entre a descrição liberal da economia e da existência humana. De um lado, ainda nos concebemos como humanos livres, individualistas e com capacidade de gerar valor através do trabalho. Ademais, tentamos ir ao espaço livre do mercado para produzir. Contudo, por outro lado, este espaço econômico que existia não está mais aí. As pessoas ainda acreditam na existência de um mercado tal qual concebido pelo liberalismo, mas este espaço transformou e transcendeu a si próprio. A afirmação parece sem sentido. Como assim, não existe mais mercado?

O fenômeno da automação do trabalho ataca diretamente uma das teses mais importantes do liberalismo: a ideia de que nosso trabalho possui valor. Muitos estudos (como esse ou esse) mostram como diversos empregos estão em vias de desaparecer (como evidenciou uma recente greve dos motoristas e cobradores de ônibus). Diante do impacto desta explosão de desenvolvimento tecnológico, o que se constata é que o trabalho de muitas pessoas, que outrora possuía valor, passará a não valer nada. É importante ressalvar, no entanto, que este estado de coisas é uma evolução natural das teses liberais elaboradas desde Maquiavel, Hobbes e Locke. Maquiavel foi o primeiro a constatar que aquele que deseja poder deve investir em tecnologia. Justamente o desenvolvimento desta fez a economia transcender o liberalismo clássico. As pessoas ainda concebem suas existências a partir do liberalismo, mas vivem em um mundo que não é mais liberal.

Se o trabalho não vale mais nada, como será possível ir ao espaço aberto do mercado para produzir valor? O consumo dos cidadãos já corresponde à maior parte do Produto Interno Bruto em muitos países. No Brasil, 64% do PIB vem do consumo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Ainda no Brasil, a indústria está estagnada e ocupa a menor fatia do PIB. Considerando esses dados, como é possível sustentar o consumo quando o trabalho não possui mais qualquer valor (em uma perspectiva liberal)? Justamente este dilema expressa a crise na dimensão econômica do liberalismo.

A solução encontrada foi a ação do estado para estimular o consumo, seja através de juros baixos, incentivos a empréstimos, ou investimentos, estimulando o que podemos chamar de uma governamentalidade econômica. Assim, fica evidente o ocaso de mais uma tese cara ao liberalismo, a saber, de que o estado deve ser limitado. Hoje, se o estado, que é um dos grandes empregadores mundo afora, deixasse de participar e de estimular a economia, o resultado seria desastroso. A única saída para o estado é atuar para manter um modesto crescimento no PIB, para impedir que a economia simplesmente não entre em colapso. A solução é paliativa, pois não é sustentável. Ao que tudo indica, a automação irá aprofundar as desigualdades.

A crise já está aqui. Neste sentido, as reformas trabalhista e da previdência podem ser vistas como uma tentativa de desvalorização controlada da vida humana, à medida que buscam adiar o colapso que descrevemos, através do corte de aposentadorias e de direitos. A precarização do trabalho e os altos índices de desemprego são outra evidência desta crise. Como reagirão as populações quando descobrirem que seus trabalhos não possuem mais valor? Existencialmente falando, quais são as consequências para os indivíduos e cidadãos? Estas são as perguntas sobre as quais tentaremos pensar na terceira e última parte desta série, dedicada a pensar a crise da dimensão existencial do liberalismo.


Esta coluna é dedicada ao meu professor de história do ensino médio, que reencontro aqui na coluna. Muito obrigado por todo o carinho, esforço e paciência, querido Márcio.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Bruno Lopes Tomaz. Análise: A crise na economia liberal (parte II da série “A crise”). Fora!. Acessado em 5 de setembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/09/05/analise-a-crise-na-economia-liberal-parte-ii-da-serie-a-crise/>.

APA:

Bruno Lopes Tomaz. (5 de setembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/09/05/analise-a-crise-na-economia-liberal-parte-ii-da-serie-a-crise/.

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