EUA: vazamento sugere autocensura de órgão das Nações Unidas

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Caravana de migrantes em Tijuana, México.
Fonte: Carolyn Van Houten/The Washington Post

Organização Internacional para as Migrações (OIM) orienta evitar certos temas em documentos para não entrar em conflito com políticas estadunidenses.

Com informações do The Guardian

Uma comunicação interna vazada sugere que, sob pressão dos EUA, a agência para migração das Nações Unidas deve se autocensurar em assuntos relacionados a crises climáticas e o pacto de migração global.

Um e-mail interno enviado no dia 28 de agosto por um funcionário da OIM que atua nos Estados Unidos retransmite um recado do Bureau de População, Refugiados e Migração (PRM), comunicando à agência que as atividades custeadas nos programas “não podem estar em conflito com políticas atuais sensíveis ao governo americano”.

Por assuntos sensíveis entende-se crise climática, desenvolvimento sustentável, o pacto global para migração e “qualquer coisa que pareça contrária ao posicionamento governamental dos EUA sobre assuntos domésticos e estrangeiros”, disse o funcionário.

“Documentos relacionados às atividades dos programas, especialmente aqueles que serão publicados, devem receber análise e aprovação prévia do doador”, continua. O funcionário pede “discrição” da parte dos colegas e que os documentos sejam compartilhados com “tempo suficiente para fazer ajustes necessários em coordenação com a PRM”.

O autor do e-mail alertou que a “PRM está muito disposta em cortar fundos que não estão em linha com os objetivos da política externa dos EUA”.

Por meio de fontes na OIM e outras comunicações, o The Guardian conclui que a agência tem evitado referências diretas às mudanças climáticas nos documentos dos projetos, mesmo aqueles custeados por outras entidades governamentais dos EUA, como USAid.

Cerca de um quarto do orçamento total de US$ 2 bilhões da OIM vem dos EUA; desse montante, o PRM contribui com US$ 18 milhões. Não há indicações que projetos cujas rendas venham de outros doadores serão censurados ou que os programas já existentes sejam afetados.

Entretanto, esta medida desperta preocupação de agentes envolvidos com causas humanitárias nos Estados Unidos, e um deles demonstrou estar “muito preocupado… que a OIM aceite este tipo de pressão”; declarou ainda que viu resposta ao e-mail de pelo menos um oficial regional, na qual ele “pede explicitamente à sua equipe para não fazer referência direta a alterações climáticas ou o pacto global de migração em um conjunto de relatórios e propostas que seriam enviados ao governo dos EUA”.

“Enquanto compreendo que a OIM está somente fazendo o que julgam estrategicamente necessário para proteger o financiamento de projetos importantes, os altos funcionários devem atentar para o fato de que há um caminho perigoso aqui”, arrematou.

Jeff Crisp, pesquisador do Centro de Estudos de Refugiados da universidade de Oxford, e que já trabalhou no Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), disse que o vazamento “levanta sérias questões sobre a autonomia da OIM, sua vulnerabilidade a posições adotadas pela administração norte-americana e sua capacidade de atuar como um membro do sistema ONU”.

As tensões entre Estados Unidos e OIM ficaram mais fortes durante o último ano, quando Ken Isaacs, candidato escolhido pelos EUA como diretor-geral da agência foi rejeitado – tornando-se o primeiro estadunidense a não conseguir ocupar esta posição desde os anos 1960. Isaacs já compartilhou em redes sociais sua crença de que mudanças climáticas são “uma farsa”.

Leonard Doyle, chefe de comunicação da OIM, declarou que a organização “reconhece e respeita as prioridades e limitações de seus doadores, incluindo os EUA. Procuramos garantir que a equipe esteja ciente de tais suscetibilidades quando elaboram propostas de financiamento para atividades que são uma resposta às tendências migratórias e que correspondem às práticas recomendadas”.

Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse que a “OIM é uma parceira importante para os Estados Unidos em todo o mundo. O governo dos EUA apoia organizações como OIM para desenvolver programas e atividades que são consistentes com nossas metas e objetivos de política externa”.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Flávio Henrique Soeiro de Castro. EUA: vazamento sugere autocensura de órgão das Nações Unidas. Fora!. Acessado em 13 de setembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/09/13/eua-vazamento-sugere-autocensura-de-orgao-das-nacoes-unidas/>.

APA:

Flávio Henrique Soeiro de Castro. (13 de setembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/09/13/eua-vazamento-sugere-autocensura-de-orgao-das-nacoes-unidas/.

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