As memórias do “Brasil holandês” e o mito do “bom colonizador”

Tempo de leitura: 13 minutos
Arte: Marcio Vaccari.

Estive em Recife-PE em julho, para participar do Simpósio Nacional de História da ANPUH. Enquanto eu me deslocava pela cidade com motoristas de aplicativos de transporte, ou táxi, mesmo, em quase todas as vezes em que mencionei que era professor de História – sim, eu tenho o hábito de conversar com os motoristas – veio algum tipo de exaltação por parte deles à experiência colonial holandesa em Pernambuco e à figura de Maurício de Nassau. Em geral, enalteciam a própria cidade, como um polo de enorme riqueza cultural, atribuindo essa riqueza precisamente aos anos de colonização holandesa. Alguns até chegaram a sugerir que “se os holandeses tivessem tomado conta mesmo do Brasil, hoje seríamos muito mais desenvolvidos”.

Ainda naquela semana do evento, tirei um dia para conhecer um pouco melhor a cidade, pois minhas visitas anteriores sempre foram muito apressadas, com pouco tempo disponível. Nesse dia, visitei o Instituto Ricardo Brennand, um grande museu e centro cultural que tem enormes coleções de diversos tipos de antiguidades, além de exposições artísticas. Naquele local, havia uma seção dedicada à memória de Maurício de Nassau e do Brasil Holandês, com exposição dos principais livros manuscritos produzidos no período como uma espécie de registro e divulgação da natureza brasileira e também do espaço geográfico em si. Além desses manuais, a exposição ainda continha diversas obras de arte destinadas à reprodução da paisagem tropical, objetos antigos utilizados no período, documentos e diversas outras antiguidades que contribuíam para a consolidação da imagem mitificada do conde holandês e da colônia administrada por ele. E, enquanto eu me encontrava nessa seção, observei que duas senhoras já, provavelmente, na casa dos 70 anos, admiravam a exposição e comentavam entre si: “os holandeses realmente eram muito melhores que os portugueses, eles que deviam ter colonizado o Brasil”.

Essa consolidação de uma memória idealizada do período em que parte do território brasileiro foi colônia holandesa – da qual Pernambuco era a maior parte – mostra um enquadramento de memória muito intenso e duradouro, cristalizado ao longo de séculos. Michael Pollak, historiador canônico nos estudos da área, já nos falava do trabalho de enquadramento de memória, um processo contínuo e ativo de fazer com que uma determinada representação do passado se torne a “oficial” ou “certa” dentro daquele grupo. Isso quer dizer que desde o século XVII se repete – e não apenas em Recife – em livros, salas de aula, na tradição oral e, posteriormente, nos meios de comunicação de massa, monumentos, museus, nomes de ruas, praças e até faculdades particulares uma representação do passado na qual os holandeses “desenvolveram a região”, enquanto os portugueses “nada tinham feito” até então. Essa oposição que se consolida em uma espécie de, digamos, “memória oficial”, traz, por um lado, um maniqueísmo bastante comum – o “bom” holandês, versus o “mau” português – e, por outro, um sentimento de subalternidade: não está em questão nessa memória enquadrada criticar ou se indignar com qualquer iniciativa de exploração colonizatória, apenas ter gratidão e admiração (ou, mesmo, adoração) por um “bom colonizador”. É uma ideia de que a colonização não é apenas válida, mas necessária, condicionada apenas a que se tenha uma metrópole que “desenvolva” a colônia. Uma relação, por um lado, paternalista e, por outro, messiânica, como se algum agente externo “iluminado”, ou “esclarecido” estivesse destinado a promover no Brasil uma transição de um estado “atrasado” a outro “desenvolvido”, trazendo esse desenvolvimento e o “instalando” aqui.

Esse enquadramento, evidentemente, deixa de fora o óbvio: todas as ações que hoje são louvadas nessa memória enquadrada que presenciei em Recife – mas, que, como já mencionei, não é exclusiva de lá – tinham um objetivo colonial, ou seja, facilitar o domínio holandês sobre aquele território. É preciso ter em mente que a própria invasão holandesa foi consequência da ruptura diplomática e da quebra dos acordos comerciais entre Portugal e Holanda que envolviam a produção açucareira no Brasil. Os dois países tinham uma relação comercial muito bem estabelecida desde o século anterior, envolvendo o comércio do melaço da cana-de-açúcar que seria refinado na Holanda – e essa relação foi quebrada depois de diversas tensões que surgiram a partir da União das Coroas Ibéricas, quando Portugal passou a ser regido pelo rei da Espanha, Filipe II, em 1580. Após essa ruptura diplomática, as políticas holandesas se voltaram a retomar o negócio do açúcar a partir da produção brasileira, o que passou a envolver, por causa da impossibilidade diplomática, a conquista militar da área açucareira do território brasileiro. Segundo o livro “História do Brasil”, de Boris Fausto, entre 1624 e 1637, os neerlandeses promoveram diversas ações militares para conquistar parte significativa do Nordeste do Brasil e, em 1637, eles conseguiram se estabelecer em Pernambuco e partes de capitanias vizinhas e instalaram uma colonização holandesa, nomeando como governador local o conde João Maurício de Nassau-Siegen.

Maurício de Nassau conseguiu, de fato, instituir uma política administrativa eficiente – embora tenhamos que lembrar que “eficiente”, nesse caso, significa “capaz de gerar na colônia as condições necessárias para garantir a riqueza da metrópole”. Evidentemente, gerar essas condições passava por fornecer créditos para que os senhores locais pudessem reestruturar seus engenhos e voltar a produzir; trazer artistas e naturalistas europeus para fazer registros, mapas e diversos documentos e obras de arte que retratavam a paisagem, a fauna, a flora e o espaço geográfico brasileiro; construir uma nova cidade para ser a capital colonial – Recife, na época, era apenas uma pequena vila de Olinda, mas, ao se tornar o local de moradia do conde, este começou uma política urbanista para a edificação de sua “Cidade Maurícia”, o que acarretou o crescimento daquela que é a atual capital pernambucana, incluindo a instalação de uma estrutura necessária à administração pública; fazer alianças com populações indígenas locais, para evitar que eles ajudassem os portugueses a reconquistar o território, dentre outras ações. Contudo, todas essas políticas adotadas têm relação íntima e indissociável com uma necessidade holandesa de conquistar a confiança da população local e de ter uma colônia com um nível de desenvolvimento que tanto lhes garantisse uma produção de riquezas que valesse o esforço quanto tornasse a sua defesa mais fácil – uma vez que Portugal não desistiria de ter de volta esse território. Ou seja, essas não foram medidas para “desenvolver” o território pernambucano no sentido pleno, mas para instituir uma certa eficiência moderna somente até o ponto que bastasse para os objetivos da colonização.

Mesmo assim, todas essas políticas adotadas pelo conde holandês fazem parte do recorte do passado que é a memória do “Brasil Holandês”, que, no caso de Pernambuco, parece constituir uma parte indissociável de um sentimento identitário que exalta tanto o estado quanto sua capital por sua diversidade cultural – que gera, inclusive, produtos culturais que são lembrados e vendidos por todo o país e até o exterior. Dentro desse sentimento de pertencimento identitário, o “orgulho” do recifense por pertencer a essa cidade não seria possível se não fossem as, digamos, “sementes plantadas” durante a administração de Maurício de Nassau, com sua eficiência administrativa e incentivo à cultura e à ciência. Não tenho condições de afirmar se a maioria da população de Recife ou de Pernambuco toma para si tanto esse sentimento de pertencimento quanto a memória que serve de base a ele. Entretanto, o fato de eu ter me deparado com essa memória social em contextos diversos e em tão pouco tempo me leva a crer que esse enquadramento de memória ainda tem muita força simbólica por lá, mesmo que a exaltação ao “Brasil Holandês” não seja exclusiva dos pernambucanos.

A reflexão aqui não visa criticar o sentimento de pertencimento identitário dos recifenses/pernambucanos, nem o seu “orgulho” de sua cidade/estado, nem dizer que ele está “errado”. No geral, sentimentos identitários são construídos com base em uma memória compartilhada do passado, que invariavelmente o recorta de forma a atender as necessidades discursivas e identitárias daquele grupo. Uma coletividade só consegue se entender como tal se compartilhar valores e sentimentos em comum, dentre eles um determinado entendimento do passado. E, muitas vezes, algumas formas de analisar o presente precisam de um suporte do passado e esse apoio vem na forma das construções de memória. Assim, “Recife só é um lugar de efervescência cultural no presente porque no passado houve um conde holandês que se preocupou com essa questão”. Dessa forma, em algum momento da construção dessa memória, para que os recifenses entendessem a si próprios como viventes de uma cidade que fervilha cultura, foi necessário que esse fervilhar tivesse uma base no passado; e esse passado precisava estar bem enquadrado, deixando de lado todas as partes que atrapalhariam essa construção. Os colonizadores holandeses eram bons, os portugueses eram maus. Construir uma representação assim requer reduzir toda a imensidão do passado que compreende a ocupação neerlandesa no Brasil a essas ações enumeradas para mostrar o quanto a colonização holandesa teria feito bem a Pernambuco, enquanto os portugueses “nada fizeram”.

Parece-me que, no Brasil, esse tipo de representação, que vou chamar aqui de “mito do bom colonizador”, tem muita força. Pessoas por todo o país repetem continuamente que “o país é atrasado porque não foi colonizado pelos ingleses”. Isso, aliás, era ensinado nas escolas brasileiras até o início da segunda metade do século XX. A própria teoria de Sérgio Buarque de Holanda, um dos nomes mais respeitados da sociologia brasileira, traz esse pensamento de que o fato da colonização brasileira ter sido portuguesa foi responsável por um capital cultural patrimonialista e corrupto que dificultaria o desenvolvimento da nação. E, embora não seja esse o sentido da reflexão buarqueana, há um pensamento que toma emprestada essa teoria para construir aquele sentimento de subalternidade que mencionei. É como se não houvesse violência na colonização – pelo simples fato de ser uma colonização – ou como se ela não importasse, ou fosse um mal necessário. A indignação, ao invés de se voltar contra a violência da colonização em si, mira apenas um suposto “mau colonizador” e passa a adorar um suposto “bom colonizador”. Tudo bem sermos subalternos, o que precisamos é de um bom senhor.

Penso ser importante fazer essa reflexão, inclusive, pela lógica geopolítica atual – na qual o Brasil, como país da periferia do capitalismo, continua em uma posição geopolítica subalterna, embora haja discussões acaloradas sobre qual seria o “melhor senhor”. Afinal, estando alinhados com Estados Unidos e União Europeia ou com China e Rússia, nosso papel ainda é de exportador de artigos baratos (commodities, principalmente) e de importador de bens caros, sobretudo os tecnológicos – ou seja, a situação ainda é de dependência. Isso sem falar nos campos científico e cultural. Claro, não ignoro que as escolhas de alinhamento geopolítico são muito mais complexas do que isso e, evidentemente, os diferentes caminhos fazem diferença. Contudo, exceto em círculos intelectuais, não me parece que haja qualquer discussão na sociedade brasileira sobre abandonar ou não esse sentimento de “pertencimento à subalternidade”. Não parece estar em questão que deixar a subalternidade pode ser um caminho, mas apenas que a decisão crucial e definitiva seja: qual é o melhor senhor?

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Fernando Muratori Costa. As memórias do “Brasil holandês” e o mito do “bom colonizador”. Fora!. Acessado em 24 de setembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/09/24/as-memorias-do-brasil-holandes-e-o-mito-do-bom-colonizador/>.

APA:

Fernando Muratori Costa. (24 de setembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/09/24/as-memorias-do-brasil-holandes-e-o-mito-do-bom-colonizador/.

Adaptações na ordem nome-sobrenome, bem como em outros elementos, podem ser necessárias. Se o texto tem co-autores ou se trata de uma tradução, os co-autores/tradutores devem ser revisados manualmente devido a limitações em nosso script.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*