Análise: A crise existencial liberal (parte III da série “A Crise”)

Tempo de leitura: 7 minutos
Arte: Marcio Vaccari.

Nas colunas passadas, vimos o que mobiliza a crise do liberalismo no que diz respeito à economia e à política. Vimos que esses âmbitos fazem parte de uma trinca fundamental que explica e determina o modo de ser do liberalismo. Agora, devemos observar como a compreensão liberal acerca da existência humana também mobiliza o estado atual de crise que se observa no mundo todo. Nessa compreensão repousa a ideia mais perigosa e tóxica para nós hoje: A ideia de que o propósito da vida humana é a aquisição e a busca por glória.

O primeiro pensador a oferecer uma descrição liberal da existência humana foi Nicolau Maquiavel, aquele que criou as condições de possibilidade para o surgimento da filosofia política moderna. Dedicando sua obra mais conhecida – O Príncipe – para Lorenzo de Médici, um jovem e poderoso aristocrata italiano, Maquiavel rejeita as interpretações gregas e cristãs acerca do propósito da existência humana e sobre no que consiste a vida boa, que eram fundadas na ideia de que perseguir e cultivar as virtudes morais consistia na felicidade humana. Segundo Maquiavel, homens e mulheres poderosos e ambiciosos desejam e buscam adquirir poder. Esta é uma ideia transformadora para a filosofia política. Isto fica muito expresso no capítulo III d’O Príncipe, onde o pensador florentino afirma:

“O desejo de conquista é algo muito natural e comum; aqueles que obtêm êxito na conquista são sempre louvados, e jamais censurados; os que não têm condições de conquistar, mas querem fazê-lo a qualquer custo, cometem um erro que merece ser recriminado”.

Segundo Maquiavel, os gregos e o cristianismo não compreenderam a natureza humana corretamente. Em última análise, as cidades-estado falharam porque não compreenderam o que mobiliza a humanidade. Outra coisa que Maquiavel suspira nos ouvidos de Lorenzo de Médici é que o propósito da aquisição e da conquista é a obtenção de glória. Aqueles poderosos e ambiciosos desejam que seu nome seja lembrado para sempre. A glória é o fim último da humanidade.

Maquiavel dedicou o livro a Médici. O livro foi escrito para ser lido apenas por um grupo seleto de pessoas, a saber, aqueles aristocratas naturalmente talentosos e ambiciosos, preservando, em certo sentido, aquela ideia grega e cristã de que existe um governante por natureza (o rei filósofo e o papa, respectivamente). Thomas Hobbes, por sua vez, universaliza a compreensão oferecida pelo filósofo florentino. Segundo Hobbes, no Leviatã, todos os seres humanos são aquisitivos e individualistas. Este é um movimento decisivo para preparar o desenvolvimento do liberalismo clássico e do capitalismo como um todo. Segundo Hobbes, a felicidade desta vida não consiste no repouso de uma mente satisfeita. Eis a justificativa que Hobbes apresenta para sua tese, facilmente localizada no primeiro parágrafo do capítulo VIII do Leviatã:

“Pois não existe o finis ultimus (fim último) nem o summum bonum (bem supremo) de que se fala nos livros dos antigos filósofos morais. E ao homem é impossível viver quando seus desejos chegam ao fim, tal como quando seus sentidos e imaginação ficam paralisados. A felicidade é um contínuo progresso do desejo, de um objeto para outro, não sendo a obtenção do primeiro outra coisa senão o caminho para conseguir o segundo. Sendo a causa disto que o objeto do desejo do homem não é gozar apenas uma vez, e só por um momento, mas garantir para sempre os caminhos de seu desejo futuro”.

Hobbes não apenas universaliza a compreensão maquiavélica acerca do propósito da vida humana, mas também transforma a própria felicidade em prazer. Além disso, Hobbes também estende a todos os seres humanos a ideia de que a finalidade da existência humana é a busca pelo poder e pela glória. Não por acaso, ele apresenta esta consequência no parágrafo seguinte ao que citamos acima:

“Assinalo assim, em primeiro lugar, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte”.

Essa transformação histórica na compreensão acerca da existência humana preparou e proporcionou o liberalismo clássico. Hoje, essas se radicalizaram e encontraram seu extremo lógico nos reality shows e nas redes sociais. De um lado, a busca pela felicidade (enquanto prazer) mobiliza o consumo do qual falamos na última coluna. Não é por acaso que o consumo de álcool é tão importante na sociedade hoje. Por outro lado, a explosão do Facebook e das selfies é uma demonstração da obsessão com a celebridade que é característica dos nossos tempos. Isto resulta em uma sociedade viciada em consumo (pois compreende que o prazer consiste nisto) e em estima. O surgimento das redes sociais coincidiu com o colapso político e econômico do liberalismo, transformando-as em uma plataforma alternativa para a realização e a busca pela glória dos cidadãos. Para aqueles cujas vidas não giram em torno da busca pelo poder e glória, Maquiavel tem uma palavra para descrevê-los: vulgares. Naturalmente, a sociedade marginaliza aqueles que não conseguem obter poder e fama, alimentando a sensação de falta de estima que caracteriza a vida de milhões de pessoas e alimenta uma ansiedade que transpassa toda a sociedade. Esta marginalização encontra paralelo em Sócrates, que afirmava ser um estrangeiro em Atenas por estar cercado de pessoas que não o compreendiam.

Assim, estamos vivendo hoje o extremo lógico das ideias que definem a existência humana do ponto de vista do liberalismo. Uma saída para esta crise implica na criação de uma nova interpretação acerca do que consiste ser humano. Não é possível, infelizmente, apresentar o que seria isto em uma coluna. O que não significa que é impossível falar sobre este assunto, afinal, o próprio esforço de pensá-lo já é, em si mesmo, uma tentativa de preparar o surgimento de uma nova compreensão sobre a humanidade. A partir de agora, as próximas colunas serão dedicadas a observar eventos atuais sob o prisma da filosofia política. Até lá.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Bruno Lopes Tomaz. Análise: A crise existencial liberal (parte III da série “A Crise”). Fora!. Acessado em 26 de setembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/09/26/analise-a-crise-existencial-liberal-parte-iii-da-serie-a-crise/>.

APA:

Bruno Lopes Tomaz. (26 de setembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/09/26/analise-a-crise-existencial-liberal-parte-iii-da-serie-a-crise/.

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