Maomé e a formação da civilização islâmica

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Arte: Marcio Vaccari.

De antemão vale lembrar que sob a ótica islâmica, é inexato afirmar que o profeta Maomé tenha sido o criador do islão ou que ele fosse o evangelizador de uma doutrina inovadora. Isso é, o islão não é a designação de uma crença singular que fora de forma inaugural exposta por Maomé. Ao contrário, segundo essa crença ele seria o profeta derradeiro e supremo de uma ascendência de “iluminados”, os quais reiteravam e complementavam cada um a doutrina do seu antecessor.

Portanto, um dos princípios basilares da doutrina islâmica é que Deus, desde a gênese da humanidade, enviou à raça humana, de tempos em tempos, profetas para conduzi‑los. Desse modo, cabia a esses enviados orientar os homens e mulheres para o caminho mais acertado, capacitando-os a viver na perene “bem-aventurança” extramundana. Nessa esteira, os fiéis acreditam ainda que o “Supremo”, tendo considerado que os seres humanos tivessem alcançado um certo nível de perfeição aceitável, estavam prontos para compreender as suas últimas manifestações e, por extensão, aptos a cumprir as orientações que geririam o comportamento do gênero humano em todos os campos. Assim, Ele “escolheu” um árabe para exercer a função de último entre os profetas, residente em Meca, chamado Muhammad ibn ‘Abd Allāh, integrante da cabila dos Kuraysh.

Os profetas precedentes a Maomé foram excluso personagens de menor expressão Abraão, Moisés e Jesus Cristo. Como podemos concluir, todos foram catequizadores e propagadores de uma fé monoteísta, desvendada por textos que lhes haviam sido transmitidas pelo “Céu”. As pessoas que aceitavam como verdadeiras as narrativas desses profetas e, consequentemente, suas escrituras sagradas, como os judeus ou cristãos, por exemplo, são chamados ahl al‑Kitāb (as pessoas do Livro) e, na condição de depositários de um fragmento da “verdade confessa”, eles possuem uma apreço especial por parte dos muçulmanos. Afinal, dentro da doutrina islâmica, o desígnio divino foi, a contar da gênese, agir de forma a que todo o gênero humano fosse levado a crer exclusivamente Nele, o Ser Supremo. Nessa lógica teológica, os contínuos “anúncios” divinos estão fundamentados em um dois eixos basilares: o monoteísmo e a universalidade.

Com isso em mente, voltamos ao início do texto: Maomé não é o criador do islã, afinal, a religião é precedente a ele. Dessa forma, como dissemos acima ele é, dentro da doutrina islâmica, o último ente de uma linhagem de profetas; ele é, na linguagem muçulmana, o “selo dos profetas” (khātimu l‑anbiyā). Por conseguinte, o islã cultua todos os “enviados” anteriores, por ele estimados como portadores da aspiração divina.

Em razão do propósito do texto, não cabe aqui retratar pormenorizadamente a biografia de Maomé. Mas, cabe ressaltar que no do século VII da era cristã, a Arábia era ocupada por uma ampla quantidade de cabilas, politicamente autônomas, que compunham em bloco um corpo social, linguístico e cultural. Estas eram em sua maioria nômades (beduínos); contudo, no território meridional da Arábia, bem como nos inúmeros oásis, haviam habitantes fixos que exerciam a agricultura. Também existiam, principalmente no percurso das rotas comerciais tradicionais que intercomunicavam o litoral do Oceano Índico às costas mediterrâneas, algumas urbes cujos moradores praticavam o comércio, ainda que mantivessem os costumes e o código moral e ético dos nômades. Entre essas cidades, ressaltamos que Meca era o centro comercial e religioso mais importante da Arábia.

A crença dos árabes pré‑islâmicos era, de modo geral, essencialmente tradicionalista. Explica-se: o culto destinava‑se a deuses ou espíritos que viviam; acreditava‑se em massas de pedra, rochedos, árvores ou poços. Determinados deuses eram astros, como o Sol ou o planeta Vênus. Havia, além disso, a concepção da existência de um ser supremo, denominado “Alá”, contudo este ainda não instituía peça de nenhum culto específico. Em sentido oposto tínhamos al‑Lāt, “a deusa”, que ao que tudo indica tinha um papel de maior destaque.

Os símbolos e imagens de algumas dessas divindades estavam dispostos em um antigo templo de Meca, chamado Ka’ba. Por via de regra, os árabes dessa fase histórica, fossem eles nômades ou fixos, atentavam pouco ao campo religioso. Entre os fatores que podem explicar a posição secundária para o elemento religioso está o fato dela representar, para eles, apenas mais um item, entre tantos outros, complementar dos costumes e tradições dos seus antepassados.

Existia na Arábia, além disso, respeitáveis assentamentos compostos por grupos de fé judaica; muitos dentre eles eram árabes convertidos – habitando majoritariamente nos oásis, em cabilas aparelhadas de acordo com um arquétipo equivalente àquele dos árabes partidários da crença tradicional. O cristianismo, por sua vez, desde cedo conseguira espaços na Arábia. Os seus núcleos basais localizavam‑se no Sul da península (Nadjrān) e nas fronteiras do deserto, na Mesopotâmia e na Transjordânia. Havia, em complemento, cristãos convivendo solitariamente na maioria das cidades, bem como monges que viviam no deserto a existência solitária dos anacoretas.

Mas voltemos a falar de Maomé e de seu papel na difusão do islã. Nato de Meca, criança póstuma, órfão precoce, ele foi, até aproximadamente os seus quarenta anos, comerciante. Maomé desfrutava de uma reputação de retidão e honestidade nos negócios – contudo, dito isso, em nada se diferenciava dos seus companheiros mercadores. Segundo a doutrina, no ano 610 da era cristã, ele começou a receber, intermediado pelo anjo Gabriel, as primeiras revelações de Deus.

Nessas mensagens havia a resolução de pregar e propagar o islã a humanidade. As primeiras revelações eram fundamentadas na unicidade de Deus e no dia final; elas encorajavam os seres humanos a não descuidarem da religião em detrimento das matérias mundanas. E, por fim, elas traziam os fundamentos da equidade entre todos homens, sem distinção de posição social ou riqueza.

No momento em que Maomé principiou a sua pregação e conseguiu agrupar em sua órbita um pequeno grupo de crentes, a oligarquia, composta por ricos comerciantes e banqueiros de Meca, logo percebeu o caráter revolucionário da narrativa religiosa. Os poderosos receavam que Meca, núcleo da religião tradicional árabe centrado principalmente no santuário da Ka’ba, perdesse o seu prestígio e influência com a difusão do islamismo. Tal assertiva tem que ser acompanhada de outra: a peregrinação anual a Meca, que levava milhares de árabes de toda a península até a cidade, era uma fonte de ganhos consideráveis para esses comerciantes e banqueiros.

Ainda que Maomé não manifestasse em princípio nenhum desejo de desempenhar mando político em Meca, os seus predicados morais e intelectuais, corroborados também pela sua incumbência profética e pela sua comunicação simbólica com Alá, transformavam‑no, na visão da oligarquia, em um rival ameaçador. Assim se explica, ao menos até 622, os motivos que marcaram a história do Profeta e dos seus primeiros crédulos, caracterizada pelas perseguições – incluindo atentados contra a vida do Profeta.

Durante a fase mais crítica da intolerância e do assédio, Maomé e os seus adeptos dirigiram-se para a urbe‑oásis de Yathrib, a qual futuramente se tornaria Madīnat al‑Nabī (a cidade do Profeta – Medina). Este deslocamento, ocorrido no ano 622 da era cristã, baliza o ano de origem do calendário muçulmano. A migração de Meca para Medina é denominada hidjra, vocábulo comumente traduzido de forma incorreta como “a fuga”, uma vez que a palavra árabe significa “cortar os laços tribais e criar novos elos”.

Nos anos imediatos – e até seu falecimento no ano 11 (calendário muçulmano) ou 632 (calendário cristão) – o Profeta fortaleceu e administrou a sociedade muçulmana (umma,em árabe), afastou as ofensivas dos seus oponentes de Meca e, por meio da diplomacia e da guerra, colocou sob a sua autoridade uma ampla confederação de cabilas árabes. No momento em que se encontrou forte o suficiente, ele regressou a Meca e ali adentrou como vencedor, reconhecido como líder religioso e político investido do poder supremo. Nos seus últimos dias, Maomé era efetivamente o senhor incontestável da maior parte da Arábia e já se organizava para difundir o islã para além do território peninsular.

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ABNT:

João Paulo Charrone. Maomé e a formação da civilização islâmica. Fora!. Acessado em 8 de outubro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/10/08/maome-e-a-formacao-da-civilizacao-islamica/>.

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João Paulo Charrone. (8 de outubro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/10/08/maome-e-a-formacao-da-civilizacao-islamica/.

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