Análise: as relações Irã-EUA após o fim do acordo nuclear

Tempo de leitura: 15 minutos
Arte: Marcio Vaccari.

Traduzido por e com co-autoria de David G. Borges.

As tensões nas relações Irã-EUA atingiram um novo patamar nas últimas semanas. Teerã suspendeu oficialmente, desde 15 de maio, a implementação de algumas disposições do acordo nuclear negociado desde 2015. Estamos falando de restrições ao enriquecimento de urânio e recursos como água pesada, usada em reatores nucleares. O Irã declarou que, se as outras partes não cumprirem suas obrigações negociadas dentro de um prazo de 60 dias, inclusive nos setores bancário e de petróleo, se retirará do acordo. Isso se aplica principalmente à União Europeia.

A ação de Teerã foi altamente antecipada, especialmente após os EUA endurecerem suas relações com o país persa com a imposição, a partir de Washington, de uma proibição completa das compras de petróleo iranianas – que incluiu o anúncio de que os países que realizavam comércio com o Irã utilizando metais tinham 90 dias para suspender tais relações comerciais.

Mas, ultimamente, não apenas a política de pressão econômica tem se intensificado. A retórica militar das partes se intensificou. Os EUA têm colocado aeronaves, incluindo bombardeiros, perto da costa do Irã, bem como sistemas de defesa antiaérea Patriot em outras partes do Oriente Médio – e destacaram tropas para a Síria e o Iraque. Embora Trump tenha negado relatos de que seu país tem planos de enviar 120.000 soldados para o Oriente Médio, ele não descartou essa possibilidade.

Os Estados Unidos ameaçam intensificar o trabalho contra o Irã para evitar que o país desenvolva seu setor de defesa, bem como enviar tropas para a região no entorno da República Islâmica – em uma clara demonstração de poder de dissuasão. O Irã, por sua vez, afirma que o equipamento militar e as tropas dos EUA próximos (e, por vezes, dentro) de suas fronteiras não é uma ameaça, e sim um alvo – e que eles estão prontos para repelir quaisquer operações hostis.

As ações e declarações dos dois países aumentaram as tensões não apenas nas relações bilaterais, mas também na região como um todo. Embora tanto o Irã quanto os Estados Unidos tenham declarado que não querem ação militar, as partes não demonstram desejo de negociar para promover um alívio das tensões.

A reviravolta começou em 8 de maio de 2018. Nesse dia, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que seu país estava deixando o Acordo Nuclear com o Irã, que vinha sendo negociado desde 2015. A “política de compromisso” do ex-presidente dos EUA Barack Obama foi substituída pela política de isolamento e sanções de Trump.

No geral, essa decisão era esperada, uma vez que, ainda durante sua campanha eleitoral, Trump descreveu o acordo como “o pior negócio da história dos EUA” e declarou que, se ele fosse eleito, retiraria seu país do mesmo. Depois de empossado, Trump exigiu que as autoridades iranianas revisassem os compromissos assinados durante a administração Barack Obama. O novo acordo proposto por Trump também implicava em algumas restrições na indústria de mísseis do Irã e na política regional, o que foi rejeitado por Teerã – e o confronto entre os dois países entrou em uma nova fase. A Casa Branca anunciou que sanções sem precedentes contra Teerã serão implementadas em duas fases. Na primeira fase, foi planejado que as sanções em divisas, comércio de metais e outros meios seriam impostas em 90 dias, enquanto aquelas direcionadas aos setores naval, bancário, de petróleo e de energia tomariam lugar em 180 dias. O Departamento de Estado anunciou que, durante esse período, os parceiros americanos do Irã deveriam parar de negociar com esse país.

Note-se que a política de Trump de impor – ou, melhor dizendo, reinstaurar – sanções ao Irã causou discordância inicialmente não apenas do aliado transatlântico dos EUA, a União Europeia, mas também do establishment americano, que também não concorda com a política adotada em relação ao país persa. Mas Trump afirmou que ele precisa fazer algo, pois acredita que o pacto acordado realmente prejudica os interesses dos EUA.

Assim, a primeira fase das sanções começou em agosto e estendeu-se a oportunidades de compra e venda de moedas estrangeiras, do rial (moeda nacional iraniana) para comércio exterior, comércio de ouro e de outros metais preciosos, exportações de metais, importações de alta tecnologia e construção de máquinas.

A segunda fase das sanções teve como alvo a exportação de petróleo iraniano, transações bancárias internacionais e seguros de oleodutos. Os ativos do governo iraniano, das empresas de energia Iranian Oil Company e Naftiran Intertrade Company, bem como todos os indivíduos e empresas relacionados ao Banco Central do Irã, foram bloqueados. Essas restrições afetaram mais de 600 empresas e indivíduos. Exportações de petróleo foram fortemente limitadas. Autoridades americanas disseram inicialmente que o setor de petróleo iraniano seria o principal alvo dos EUA, pois a maior parte das exportações do Irã são do setor petrolífero. O principal alvo, nesse sentido, foram países asiáticos como a Índia, a Coréia do Sul e o Japão, que são grandes compradores de petróleo iraniano e também possuem relações calorosas com os EUA.

Essa política de sanções, é claro, não passou despercebida. Dezenas de empresas de porte mundial que operam em vários setores anunciaram planos de deixar o mercado iraniano após Trump se retirar do acordo nuclear e impor novas sanções. É o caso de gigantes de energia como a Total, da França (que trabalha com a Companhia Nacional de Petróleo do Irã, NIOC, na 11ª fase do campo de gás de South Pars), assim como a Lukoil (Rússia), a Engie (França), a General Electric (EUA), a Siemens (Alemanha), a Daimler (gigante mundial de automóveis alemã), a Deutsche Telekom (Alemanha; telecomunicações) e a fabricante francesa de automóveis PSA Group (que representa Citroën, Peugeot, Opel, Vauxhall, Hindustan Motors e DS Automobiles). Joe Kezer, CEO da Siemens, disse em entrevista para a CNN que ficou impressionado com o fato de companhias de porte mundial não poderem mais aceitar novos pedidos do Irã, pois do contrário poderiam ser punidas pelos EUA. Um representante da Siemens também disse que os negócios da empresa com o país persa representam “uma parcela muito pequena” de sua receita total e que a receita anual somente nos Estados Unidos é de US$ 20 bilhões – cerca de 20% das vendas mundiais da corporação. A Airbus também se recusou a fornecer 98 aviões encomendados pelo Irã, o que representa grandes problemas para este último, já que seu rol de aeronaves está bastante desatualizado.

Naturalmente, essas sanções danificaram seriamente a economia iraniana. Imediatamente após a retirada dos EUA do acordo nuclear a moeda nacional iraniana, o rial, começou a cair. Atualmente a inflação é de 40% no país, a taxa de desemprego é oficialmente de 11,7% e, segundo alguns dados não oficiais, pode chegar a 30%, o que ajuda a explicar as frequentes greves e os numerosos protestos que, muitas vezes, terminam em confrontos com a polícia e vítimas.

Em decorrência dos problemas internos, o presidente Rouhani foi forçado a substituir o gabinete de ministros no ano passado, a fim de aliviar a maré de insatisfação no país e, em parte, para apaziguar os radicais.

No entanto, os deputados iranianos dos Majlis* não foram contidos por essa medida: convocaram o presidente Hassan Rouhani ao parlamento e este último teve que explicar aos parlamentares sobre a difícil situação econômica do país. Em seu discurso, Hasan Rouhani deu ênfase ao dado positivo de que o governo conseguiu reduzir o contrabando de US$ 25 bilhões para US$ 12,5 bilhões em apenas quatro anos.

* Nota do tradutor: “Majlis”, em árabe, designa, grosso modo, a mesma coisa que “assembleia legislativa” em português.

Além das sanções econômicas, os Estados Unidos também procuram isolar o Irã politicamente. Em particular, antes de uma visita ao Oriente Médio no início deste ano, o Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, anunciou que seu país estava tentando formar uma coalizão anti-iraniana global. “Um dos elementos desta viagem são os esforços para formar uma coalizão que inclua os estados do Golfo Pérsico, Israel, os países europeus e asiáticos ao redor do mundo, países que entendem que o maior patrocinador do terrorismo no mundo deve interromper suas operações”, afirmou o político.

É especialmente digno de nota que Israel e o Líbano têm se envolvido em escaramuças devido à presença do Hezbollah no território libanês, e ao entendimento, por parte de Israel, de que o grupo armado seria patrocinado pelo governo iraniano para estender seu poder na região.

Mas deve-se observar que a decisão do governo Trump prejudicou significativamente a imagem dos EUA, uma vez que violaram um acordo assinado por si próprios e se retiraram do mesmo unilateralmente. Muitos países agora veem os Estados Unidos como um parceiro não confiável e, após a decisão de Trump pelo rompimento do tratado, as autoridades iranianas declararam reiteradamente que não faz sentido assinar novos acordos com os norte-americanos porque não se pode confiar em um estado que violou um tratado internacional assinado pelas duas partes.

Por outro lado, os EUA de alguma forma se beneficiaram – pois suas mãos foram desatadas, ganhando maior liberdade de ação. Com a saída do acordo nuclear, Trump deu um grande presente para seus dois aliados no Oriente Médio, Israel e Arábia Saudita, ao causar enormes danos a um arqui-inimigo de ambos. Além disso, o governo dos EUA exacerba indiretamente os medos dos países árabes através do Irã, e em meio à confusão vende grandes quantidades de armas para outros atores regionais, como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Em particular, em 2017, durante sua visita ao Oriente Médio, Trump assinou o maior acordo militar da história de seu país – venderão US$ 110 bilhões em equipamentos militares para a Arábia Saudita nos próximos 20 anos.

A retirada do acordo e a imposição de sanções não se limitam às suas consequências econômicas, mas adquirem contornos de guerra psicológica. As autoridades americanas sempre retrataram o Irã como um país patrocinador de terroristas, tentando isolá-lo e demonizá-lo. E foi neste contexto que, em 30 de junho de 2018, realizou-se em Paris o congresso anual da Organização dos Povos Iranianos Mojahedin (Mojahedin Khalgh; em inglês: MEK ou MKO). Este é um grupo radical, com sede em Paris, que luta contra as autoridades iranianas há muitos anos. O Irã classifica a organização como um grupo terrorista. Segundo suas autoridades, 18.000 iranianos foram mortos por membros do MEK desde 1979, incluindo o segundo presidente do país, Mohammad Raja, o ex-primeiro ministro Mohammed Bahonar e outras figuras públicas. Por muitos anos, os Estados Unidos e a União Europeia também reconheceram o MEK como um grupo terrorista – mas em 2009 a União Europeia e em 2012 os Estados Unidos o removeram de suas listas de organizações radicais.

É óbvio que não há sinais de melhora nas relações Irã-EUA no próximo ano. O governo Trump está fazendo o possível para empurrar o Irã para um canto e disse que continuará a adotar uma dura política de sanções e isolamento. O Irã tem grandes esperanças de que na eleição presidencial dos EUA, no próximo ano, ganhe o candidato democrata e que isso alivie as tensões. Existem certos precedentes para essa expectativa. Em particular, o Comitê Nacional do Partido Democrata dos Estados Unidos aprovou recentemente uma resolução exortando o governo federal a retornar ao acordo de 2015, o que também é um sinal de que, até 2020, os candidatos do Partido Democrata deverão tomar medidas para voltar a negociar com o Irã. O documento afirma que os Estados Unidos devem retomar seus compromissos nos termos do acordo e usar a diplomacia multilateral e bilateral para encontrar soluções políticas para os problemas do Irã. É aqui que entra Donald Trump, o atual presidente, e sua estratégia para 2020: para obter mais apoio do lobby judeu nas eleições presidenciais, pode tomar passos ainda mais duros contra o país persa. Nesse contexto, é provável que as relações Irã-EUA piorem no próximo ano e, por outro lado, o Irã tentará aprofundar as relações com outros centros geopolíticos – China, Rússia e União Europeia. Já houve, inclusive, uma tentativa de aproximação neste sentido durante a última reunião do G7.

É difícil dizer por quanto tempo essa guerra de nervos entre os dois países continuará. Trump está determinado a ditar as regras do, e o Irã está comprometido em retomar o acordo previamente negociado. Portanto, é possível que qualquer cenário se desenvolva, incluindo ação militar em larga escala – que não deve ser descartada por enquanto. Austrália, Grã-Bretanha e Bahrein já se comprometeram a enviar militares para a região, reforçando a presença de navios de guerra dos EUA que já se encontram no Golfo de Omã na esteira do incidente envolvendo o petroleiro Arian Darya-1.

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ABNT:

Anik Margaryan. Análise: as relações Irã-EUA após o fim do acordo nuclear. Fora!. Acessado em 11 de outubro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/10/11/4586/>.

APA:

Anik Margaryan. (11 de outubro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/10/11/4586/.

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