Análise: o governo brasileiro sabia sobre o golpe na Bolívia antes dele ocorrer?

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Arte: Marcio Vaccari.

No dia 10 de novembro, o presidente da Bolívia, Evo Morales, renunciou ao seu cargo após uma onda de protestos, pressões das forças armadas e acusações de fraude nos procedimentos eleitorais que lhe garantiriam mais alguns anos à frente do posto. O assunto foi tratado como uma renúncia corriqueira por alguns veículos de mídia, e por golpe militar por outros – devido à “sugestão” do comandante das forças armadas bolivianas, Williams Kaliman, e do comandante-geral da polícia, Yuri Calderón, de que o presidente deveria renunciar. Embora parte do público internacional tenha ficado surpreso, o ocorrido não era inesperado: o próprio Evo Morales alertava sobre a possibilidade de um golpe desde o dia 23 de outubro, o que o levou a declarar estado de emergência, e consultorias internacionais como a Stratfor alertavam sobre a possibilidade de crise política desde muito antes.

No dia 09 de novembro, um dia antes do golpe, o jornal costa-riquenho El Periódico divulgou arquivos de áudio em que líderes da oposição boliviana tramavam os pormenores do levante. Em um destes arquivos, que teriam sido recebidos pelo veículo em 09 de outubro, um fato inusitado: um dos conspiradores menciona o respaldo que estaria sendo dado pelo governo brasileiro e por igrejas protestantes à movimentação para a tomada de poder. Um dos homens gravados menciona “Un tipo de la gente de Bolsonaro, que ha estado en la estrutura de Bolsonaro” (“Um sujeito do pessoal de Bolsonaro, que esteve [recentemente] na estrutura de Bolsonaro”). A questão, então, passa ao nível geopolítico: o governo brasileiro sabia de antemão do que estava para ocorrer na Bolívia? Se sabia, participou do processo?

Obviamente estas perguntas não são fáceis de serem respondidas. No máximo, podemos especular sobre o assunto com base em informações fragmentárias e circunstanciais.

Os encontros de ministros de estado brasileiros (e deputados) com golpistas bolivianos.

Entre os dias 27 e 29 de maio, o ministro Sérgio Moro encontrou-se com Carlos Mesa e Jorge Quiroga Ramírez enquanto participava de uma conferência em Estoril, Portugal. Ambos são opositores declarados de Evo Morales. Mesa, ex-presidente boliviano entre 2004 e 2005, foi candidato nas eleições deste ano – e teria conversado sobre Moro a respeito de corrupção na América Latina. Ramírez, por sua vez, foi presidente entre 2001 e 2002 e teria entregue a Moro uma carta pedindo que o Brasil intercedesse na Corte Interamericana de Direitos Humanos contra a tentativa de reeleição de Evo Morales.

Sérgio Moro (esq) com Carlos Mesa (dir).
Sérgio Moro (esq) com Jorge Quiroga Ramírez (dir).

Também em maio, mais precisamente no dia 02, Luis Fernando Camacho se encontrou com o ministro Ernesto Araújo por intermédio da deputada Carla Zambelli (PSL-SP). A reunião com a deputada consta na agenda oficial do ministro, mas não há menção aos líderes da oposição boliviana que a acompanhavam. A demanda de Camacho era similar à de Jorge Ramírez. Ele é presidente do comitê cívico de Santa Cruz e foi um dos articuladores dos protestos contra Morales no período eleitoral e pós-eleitoral. Apontado por muitos como um “Bolsonaro boliviano” (dentre vários outros que receberam esta alcunha), é conhecido por seu fundamentalismo religioso e ficou famoso nas redes sociais após o golpe por ter entrado no Palácio Quemado com uma bíblia e a colocado sobre a bandeira boliviana. O nome de Camacho aparece em conexão com três empresas envolvidas no escândalo dos Panama Papers.

Ernesto Araújo (centro) ao lado de Carla Zambelli (de azul) e Luis Fernando Camacho (segundo da direita para a esquerda). Os demais também são membros da oposição Boliviana.
Agenda oficial do ministro Ernesto Araújo.

No dia 12 de novembro, dois dias após a renúncia de Morales, Ernesto Araújo afirmou que não ocorreu um golpe na Bolívia, e que a permanência de Morales era uma ameaça à democracia. Além disso, reconheceu Jeanine Añez, segunda vice-presidente do senado, como presidente legítima do país vizinho.

Os contatos do governo brasileiro com a oposição boliviana não se resumem aos ministros de estado. Em 10 de setembro o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro e membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, apresentou, junto com o deputado Marcel Van Hattem (NOVO-RS), um requerimento “com o propósito de debater o Protocolo de Adesão do Estado Plurinacional da Bolívia ao Mercosul e o atual cenário político boliviano”. Entre os convidados a serem ouvidos, consta o nome de Luis Fernando Camacho.

Há de se mencionar, ainda, que o Comitê Cívico de Santa Cruz – entidade liderada por Camacho – recebe apoio político e financeiro de latifundiários brasileiros produtores de soja e oleaginosas.

Requerimento do deputado Eduardo Bolsonaro. Entre os convidados, Luis Fernando Camacho.

O mesmo arquivo de áudio revelado pelo El Periódico no qual “Un tipo de la gente de Bolsonaro” é mencionado ainda revelam o nome de outros atores políticos. São eles: “Manfred” (que provavelmente se trata de Manfred Reyes Villa), “Cárdenas” (provavelmente Víctor Hugo Cárdenas Conde), “Humberto” (provavelmente Humberto Peinado) e “PAN” (provavelmente referindo-se ao Partido de Acción Nacional). Mas quem são estes atores?

Manfred Reyes Villa foi prefeito de Cochabamba entre 1993 e 2000, e governador do departamento de Cochabamba entre 2006 e 2008. Ex-militar, durante seu serviço ativo esteve na famosa “Escola das Américas” (que hoje atende pelo nome de “WHINSEC”), em 1976, e serviu como agregado militar da embaixada da Bolívia no Brasil e nos Estados Unidos. Já foi candidato à presidência da Bolívia em 2000 e em 2009. Atualmente mora nos EUA.

Víctor Hugo Cárdenas Conde foi vice-presidente da Bolívia entre 1993 e 1997, e atualmente é um opositor declarado de Evo Morales. Foi candidato presidencial, nas eleições deste ano, pelo partido Unidad Cívica Solidaridad.

Humberto Peinado é pastor protestante e foi o candidato à vice-presidência na chapa de Cárdenas neste ano. Trabalhou como advogado e administrador de fundos de pensão, e lidera um movimento contrário a pautas como a liberação do aborto e a lei de identidade de gênero (aprovada em 2016).

O PAN-BOL, fundado em 2016, é um partido eclético que apresentou como candidata presidencial Ruth Nina, advogada e dirigente sindical. Reconheceu, na sexta-feira (15/11), Jeanine Añez como presidente legítima do país – e criticou o governo do México por ter concedido asilo a Evo Morales que, segundo o partido, está “se vitimizando”.

Do ponto de vista político, há evidências suficientes para demonstrar que parlamentares e ministros de estado brasileiros mantinham diálogo com a oposição boliviana antes de ocorrer o golpe do estado – o que não é suficiente para afirmar que sabiam de antemão sobre o que viria a acontecer. Mas e o setor militar?

Os “voos -fantasma” da Força Aérea Brasileira.

No dia 08 de novembro (dois dias antes do golpe na Bolívia), membros da equipe do Fora! receberam de uma fonte que prefere permanecer anônima a informação de que, naquela mesma data, 18 caças Northrop F-5 da FAB foram deslocados das bases aéreas de Canoas (RS) e Santa Cruz (RJ) para a base aérea de Campo Grande (MS). Eles estariam de prontidão desde o dia 01 do mesmo mês, e teriam decolado para cumprirem missões após sua chegada a Campo Grande. A natureza de tais missões e onde elas foram realizadas, no entanto, não nos foi informada. Devido à própria natureza das atividades militares, é bastante difícil confirmar a veracidade de tais alegações; mas, em nossa tentativa de confirmá-las, esbarramos em outras informações que são, no mínimo, curiosas.

No Diário Oficial da União de 29 de outubro de 2019 foi publicada uma portaria, datada de 25 de outubro, na qual o Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, designa o comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), Ten Br Ar Antonio Carlos Moretti Bermudez, para participar de uma conferência dos comandantes das forças aéreas da América do Sul em Tucson, Arizona (EUA), entre os dias 04 e 08 de novembro. A realização da conferência foi divulgada pela própria força aérea dos EUA, e contou com a participação de militares da Argentina, do Brasil, da Colômbia, do Chile, do Equador, do Paraguai e do Peru. A Bolívia não participou deste encontro, que tem como finalidade promover “entendimento mútuo”, “cooperação” e “proteção” entre as nações presentes.

Diário Oficial da União mostrando a data da viagem do comandante da FAB para Tucson, EUA.

Em virtude das datas, é improvável que o comandante da FAB – Antonio Bermudez – tenha emitido a ordem para realocação dos caças, se é que ela ocorreu de fato. Uma vez que os documentos que poderiam nos confirmar tal deslocamento normalmente não são de acesso público, tivemos de recorrer a outros métodos em nossa averiguação.

Apelamos ao site FlightRadar24, que consiste em uma plataforma na qual o tráfego aéreo de todo o mundo pode ser observado. O próprio site admite que a detecção de aeronaves depende da colaboração de governos, das emissões de sinais efetuadas pelas aeronaves em voo, e da cobertura de satélites nas localidades em que transitam. No entanto, como regra geral, a plataforma é bastante confiável e costuma registrar qualquer coisa que decole ou pouse nos principais aeroportos ou perto deles – e as bases aéreas mencionadas por nossa fonte ficam bastante próximas a aeroportos comerciais e a cidades de grande porte.

As aeronaves da Força Aérea Brasileira usam matrículas padronizadas: excluindo-se os protótipos, todas começam com as letras “FAB” seguidas de quatro dígitos, nos quais o primeiro designa o tipo da aeronave (“1” designa aeronaves de treinamento; “2” de emprego geral; caças têm “4” como primeiro algarismo, etc.).

Estranhamente, uma quantidade bastante baixa de tráfego foi registrada em Campo Grande entre os dias 07/11 e 11/11, o que é atípico. A plataforma não mostra o histórico de nenhuma das aeronaves cuja matrícula seja “FAB4xxx”, o que indica que o governo brasileiro não fornece esse tipo de dado (ou solicita que a plataforma o exclua). Há de se considerar, ainda, que os F-5 brasileiros foram modernizados em 2017 e passaram a contar com contramedidas eletrônicas. Mas nosso levantamento mostrou uma outra aeronave, de matrícula FAB2561, voando na fronteira com a Bolívia no dia 10 de novembro.

Abaixo, todo o percurso realizado pela aeronave no dia 10 de novembro.

Um especialista consultado por nossa equipe afirmou que o perfil de voo mostrado na imagem acima não poderia estar sendo executado pelo piloto automático; o avião deveria estar sendo pilotado manualmente (ou “na unha”, no jargão da aviação). A proximidade com a fronteira da Bolívia chama a atenção, ainda, por outro fato: o FAB 2561 não é uma aeronave de guerra ou de patrulha, mas se destina ao transporte de autoridades.

Documentos da própria Força Aérea Brasileira indicam que nenhuma autoridade foi transportada neste trajeto no dia 10 de novembro. Em realidade, até dois dias atrás (19 de novembro) não havia nenhuma informação sobre qualquer transporte de autoridades após 12 de novembro; esta informação é relevante devido a voos realizados por outras aeronaves (ver abaixo).

Decidimos averiguar outros voos e rotas. Entre os dias 10 e 15 de novembro, três aeronaves da Força Aérea fizeram voos em rotas incomuns que não condizem com o que é divulgado pela própria instituição: a FAB 2561 (já mencionada), FAB2560 e FAB2522.

A aeronave FAB2561, além de seu voo em aparente patrulha na fronteira da Bolívia com Rondônia, faz um percurso entre Goiás (podendo ter decolado e pousado em Brasília-DF ou em Anápolis-GO) e Buenos Aires (Argentina) no dia 12 de novembro.

A aeronave FAB2560 faz um voo de ida e volta entre Goiás (mais uma vez, poderia ter decolado ou pousado em Brasília ou Anápolis) e Buenos Aires nos dias 14 e 15 de novembro.

Entre os dois trajetos o único fato noticiado pela imprensa ocorrido em Brasília e que teria relevância internacional foi a invasão da embaixada da Venezuela por apoiadores de Juan Guaidó, em 13 de novembro.

A aeronave FAB2522, por sua vez, faz um trajeto até Bogotá, Colômbia, no dia 12 de novembro, retornando no dia seguinte e chegando em Brasília no dia 14. Mais uma vez, nenhuma autoridade consta na lista de transporte da Força Aérea Brasileira.

Abaixo, discriminamos os dias e horários em que cada aeronave foi detectada pelo FlightRadar24, para auxiliar a interpretação das imagens. Os leitores podem confirmar a informação consultando o próprio site em questão, embora algumas funcionalidades só estejam disponíveis para assinantes.

FAB2561
Dia 10/11

09:57 UTC sudeste de Brasília (DF)
10:04 UTC norte de Águas Lindas de Goiás (GO)
11:14 UTC noroeste de Sorriso (MT)
11:32 UTC norte de Novo Paraná (MT)
17:16 UTC a sul da terra indígena Massaco (RO); sobrevoou o Parque Estadual de Corumbiara (RO)
17:40 UTC cerca de 40km a leste de Pimenteiras do Oeste (RO)
19:08 UTC sul de Água Quente (MT)
19:18 UTC sudeste de São Lourenço de Fátima (MT)
20:04 UTC leste de Iturama (MG)
20:51 UTC próximo a Santo Antônio do Porto (MG)
22:50 UTC noroeste de Benfica (MG)
23:40 UTC sul de Unaí (MG)

Dia 12/11

12:46 UTC próximo a Maniratuba (GO)
15:08 UTC sobrevoando a RS-265 (RS)
16:31 UTC oeste de Arroio Grande (RS)
17:36 UTC Buenos Aires, Argentina
18:59 UTC Buenos Aires, Argentina
19:31 UTC Santa Clara de Olimar, Uruguai
20:52 UTC Sertão Santana (RS)
21:02 UTC Canoas (RS)
21:51 UTC Rod. Oswaldo Aranha (RS)
23:42 UTC nordeste de Planaltina de Goiás (GO)

FAB2560
Dia 14/11

18:03 UTC a sul de Luziânia (GO)
20:20 UTC a leste de Prado Novo (RS)
21:16 UTC Santa Isabel do Sul (RS)
22:25 UTC Buenos Aires, Argentina

Dia 15/11

09:11 UTC Buenos Aires, Argentina
11:51 UTC sudoeste de Luziânia (GO)
12:02 UTC sudeste de Brasília (DF)

FAB2522
Dia 12/11

13:44 UTC noroeste de Juiz de Fora
14:53 UTC Santo Antônio do Descoberto (DF)
15:47 UTC norte do Parque Estadual do Descoberto (DF), divisa com Goiás
16:04 UTC leste de Auriverde (GO)
16:48 UTC sudeste de Feliz Natal (MT)
23:13 UTC Bogotá, Colômbia

Dia 13/11

19:59 UTC Bogotá, Colômbia
20:13 UTC norte de Lejanias, Colômbia

Dia 14/11

21:01 UTC sul de Goianésia (GO)
21:12 UTC norte do Parque Nacional de Brasília (DF)

O sistema do FlightRadar24 não é capaz de acompanhar as aeronaves durante todo o seu percurso initerruptamente. Os “saltos” entre alguns horários se dão por conta dos momentos em que uma torre de controle, radar ou satélite perde contato com o avião observado, que torna a ser detectado por outra torre de controle, radar ou satélite minutos depois.

Questionamos a autoridades. Nosso site foi derrubado em seguida.

Em virtude da dificuldade de confirmar as informações que foram passadas a este veículo pela nossa fonte, enviamos um e-mail ao CECOMSAER (Centro de Comunicação Social da Aeronáutica) da Força Aérea Brasileira solicitando esclarecimentos. O reproduzimos abaixo:

Transcrição:
“Boa tarde,
Somos de um site pequeno, especializado em notícias e colunas sobre geopolítica e relações internacionais. Estamos trabalhando em um artigo que envolve a Força Aérea Brasileira, e gostaríamos de saber se poderiam nos ceder algumas informações e responder a algumas perguntas – ou, ao menos, nos orientar sobre onde devemos procurar as informações de que precisamos. Relaciono abaixo as perguntas que temos:

1) Havia esquadrões da FAB de prontidão a partir do dia 01 de novembro de 2019? Em especial, estavam de prontidão os esquadrões Jambock (1º/1º GAvCa), Pif-Paf (2º/1º GAvCa) e Pampa (1º/14º GAv)?
2) Foram deslocadas aeronaves e/ou pessoal de outras bases da FAB para a ALA5 (Base Aérea de Campo Grande) entre os dias 01 e 10 de novembro de 2019? Em caso afirmativo, seria possível informar quantas aeronaves foram deslocadas e quais os modelos das mesmas? Ainda em caso afirmativo, foram deslocados pessoal e aeronaves dos esquadrões Jambock, Pif-Paf e Pampa para a ALA5?
3) Foram realizadas missões perto da fronteira com a Bolívia ou dentro de espaço aéreo boliviano entre os dias 08 de novembro e 11 de novembro de 2019?
4) Foi transportada alguma autoridade na aeronave de matrícula FAB2561 no dia 10 de novembro de 2019? Em caso afirmativo, seria possível divulgar o percurso e a autoridade em questão?
5) Foi transportada alguma autoridade na aeronave de matrícula FAB2561 no dia 12 de novembro de 2019? Em caso afirmativo, seria possível divulgar o percurso e a autoridade em questão?
6) A aeronave de matrícula FAB2561 realiza exclusivamente transporte de autoridades, ou é utilizada também para missões de outra natureza?
7) A aeronave de matrícula FAB2561 esteve realizando alguma atividade (por exemplo: transporte de órgãos para transplantes) em espaço aéreo argentino no dia 12 de novembro de 2019?
8) A aeronave de matrícula FAB2561 esteve realizando alguma atividade (por exemplo: transporte de órgãos para transplantes) no estado de Rondônia, perto da fronteira com a Bolívia, em 10 de novembro de 2019?
9) Foi transportada alguma autoridade na aeronave de matrícula FAB2522 nos dias 12 e 13 de novembro de 2019? Em caso afirmativo, seria possível divulgar o percurso e a autoridade em questão?
10) A aeronave de matrícula FAB2522 realiza exclusivamente transporte de autoridades, ou é utilizada também para missões de outra natureza?
11) A aeronave de matrícula FAB2522 esteve realizando alguma atividade (por exemplo: transporte de órgãos para transplantes) em espaço aéreo colombiano nos dias 12 e 13 de novembro de 2019?
12) Foi transportada alguma autoridade na aeronave de matrícula FAB2560 nos dias 14 e 15 de novembro de 2019? Em caso afirmativo, seria possível divulgar o percurso e a autoridade em questão?
13) A aeronave de matrícula FAB2560 realiza exclusivamente transporte de autoridades, ou é utilizada também para missões de outra natureza?
14) A aeronave de matrícula FAB2560 esteve realizando alguma atividade (por exemplo: transporte de órgãos para transplantes) em espaço aéreo argentino nos dias 14 e 15 de novembro de 2019?
15) É corriqueiro que as aeronaves do Grupo de Transporte Especial (GTE) da FAB realizem pousos e decolagens nas bases aéreas de Anápolis (GO) e Canoas (RS)?
16) Existe algum meio de civis terem acesso às ordens do dia para os esquadrões Jambock (1º/1º GAvCa), Pif-Paf (2º/1º GAvCa) e Pampa (1º/14º GAv), bem como para o GTE, nas datas entre 01 de novembro de 2019 e 16 de novembro de 2019?

Agradecemos desde já pela atenção dispensada.
Equipe do Fora!
https://fora.global”

Até o fechamento deste texto, nenhuma resposta foi obtida.

Curiosamente, a mensagem acima foi enviada em um sábado (16/11). Na terça-feira subsequente, dia previsto para a publicação deste texto, o site do Fora! recebeu um ataque cibernético e ficou fora do ar por dois dias – e por este motivo a análise só está sendo publicada agora. Neste intervalo o site da Força Aérea Brasileira foi atualizado com informações sobre voos de autoridades ocorridos entre 12 e 18 de novembro; nas novas atualizações constam trajetos de ida e volta do Ministro-Chefe da Secretaria Geral da Presidência da República para Buenos Aires, em dias que condizem com o nosso levantamento inicial e sobre os quais havíamos questionado a FAB por email. Ainda permanecem sem explicação, no entanto, os voos para Bogotá e na fronteira com a Bolívia.

O encontro entre generais.

Para além de registros de voos e informações incongruentes, que podem ou não ter relação com o ocorrido na Bolívia e na embaixada da Venezuela em Brasília, é digno de nota que o general Williams Kaliman, comandante das forças armadas bolivianas que “sugeriu” a Evo Morales que renunciasse, esteve no Brasil em outubro deste ano, visitando a escola de paraquedistas do exército, o “Ninho das Águias”, no Rio de Janeiro. Estavam presentes o presidente Jair Bolsonaro, o governador Wilson Witzel, o general Fernando Azevedo (Ministro da Defesa), o general Luiz Eduardo Ramos (da Secretaria de Governo), e o general Augusto Heleno Pereira (chefe do Gabinete de Segurança Institucional).

Williams Kaliman na escola de paraquedistas do exército brasileiro, no Rio de Janeiro.
Autoridades presentes na cerimônia ocorrida na escola de paraquedistas do exército no mesmo dia da visita do general boliviano Williams Kaliman.

Kaliman participou de cursos na “Escola das Américas”/WHINSEC em 2003, assim como Manfred Reyes Villa fez em 1976; outros atores que foram relevantes para o golpe também passaram pela instituição. Kaliman foi enviado para seu treinamento na WHINSEC por ordem do então presidente Carlos Mesa. O general Augusto Heleno proferiu palestra no mesmo local em 2006, pouco depois de retornar da missão no Haiti (MINUSTAH). Yuri Calderón esteve na APALA, organização de caráter similar à WHINSEC, mas destinada a policiais, em 2018.

Yuri Calderón (terceiro da esquerda para a direita) na APALA em 2018.

Após a renúncia de Evo e de Jeanine Añez ter assumido a presidência com a anuência das forças armadas e policiais da Bolívia, o alto comando militar foi destituído. Kaliman supostamente está de mudança para os Estados Unidos, onde gozará de aposentadoria, conforme matéria já citada da revista Fórum. Assume o seu posto o general Carlos Orellana. Nos últimos dias, também foi questionado o relatório da Organização dos Estados Americanos que recomendou a realização de novas eleições, e que teria contribuído para o estopim das movimentações que levaram à queda de Evo Morales. A situação promete piorar, tendo em vista que foi emitido no sábado, 16/11, um decreto que exime as forças armadas e a polícia do país de responsabilidade penal em ações de repressão contra os manifestantes que rechaçam a mudança de regime.

Conclusões preliminares.

Em suma, não há dados concretos que possam apontar para uma possível participação do governo brasileiro no que ocorreu na Bolívia – ou mesmo que o governo brasileiro tivesse conhecimento prévio do fato. No entanto, há fartura de informações que indicam reuniões, encontros, relacionamentos ou pontes institucionais entre membros de alto nível do governo brasileiro e da oposição boliviana, incluindo aqueles que foram diretamente responsáveis pelo golpe; tal fato tem chamado a atenção, inclusive, de analistas políticos europeus. Se o governo brasileiro não sabia de antemão sobre o que aconteceria, podemos com certeza afirmar que é, no mínimo, incompetente. Se sabia, cabe a pergunta: envolveu-se diretamente?

Este texto será atualizado assim que obtivermos resposta do CECOMSAER da FAB.

Contribuíram para esta análise: Flavio Soeiro, Lucas Barbosa, Gabriel Borges e Attila Piovesan.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

David G. Borges. Análise: o governo brasileiro sabia sobre o golpe na Bolívia antes dele ocorrer?. Fora!. Acessado em 21 de novembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/11/21/analise-o-governo-brasileiro-sabia-sobre-o-golpe-na-bolivia-antes-dele-ocorrer/>.

APA:

David G. Borges. (21 de novembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/11/21/analise-o-governo-brasileiro-sabia-sobre-o-golpe-na-bolivia-antes-dele-ocorrer/.

Adaptações na ordem nome-sobrenome, bem como em outros elementos, podem ser necessárias. Se o texto tem co-autores ou se trata de uma tradução, os co-autores/tradutores devem ser revisados manualmente devido a limitações em nosso script.

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