A modernidade é reflexiva, e a tradição reage (1ª parte) – a “onda conservadora” e a tradição escravista

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Arte: Marcio Vaccari.

Há alguns anos temos nos deparado com a expressão “onda conservadora”. Creio que a metáfora seja pertinente, mas não pelo motivo que vem imediatamente à mente. Não é algo que surgiu, como se não estivesse lá antes – o mar “não tinha ondas” e “agora tem”. A onda que vemos se pronunciar na praia – ou, dependendo do nível da tempestade, em alto mar, também – é composta da mesma água do oceano onde aparece. Ela apenas se levanta e golpeia os surfistas, banhistas, embarcações e outros “elementos estranhos” àquele ambiente que insistem em povoá-lo e, por vezes, em tentar fazer modificações nele ou “domá-lo” – como o mergulhador que quer conhecer o ambiente marítimo em profundidade e desnudá-lo diante de todos.

Por isso a metáfora da onda procede. O conservadorismo não surgiu do nada; é um soerguimento de algo que sempre esteve ali, presente, em toda parte, embora possa ter parecido, para grande parte da intelectualidade mundial, que ele estava “derrotado”, ou “com os dias contados”. Dessa forma, a tese que parte da centro-esquerda mundial – particularmente a latino-americana – chegou a defender por um tempo – “perdemos o poder” – seria de maior precisão se fosse algo como “nunca estivemos no poder, apenas aproveitamos uma época de marolas da tradição para povoar o mar com nossos iates modernos”. Dentro dessa perspectiva, farei uma minissérie de artigos no Fora! sobre a tal “onda conservadora” em diferentes aspectos, tendo início, aqui, com o conceito de reflexividade e a tradição escravista brasileira.

De acordo com o sociólogo britânico Anthony Giddens (1991), uma das características da modernidade é a reflexividade. Isso quer dizer que um dos aspectos mais importantes da modernidade é sua capacidade de analisar, criticar, refletir e, eventualmente, modificar a si própria. À medida que o mundo moderno foi se tornando cada vez menos encantado – ou seja, cada vez menos dominado pelas explicações míticas e religiosas do mundo e cada vez mais pensado a partir da reflexão sobre sua materialidade, a partir da ciência e das correntes filosóficas modernas –, foi se tornando uma prática inerente ao nosso tempo pensar sobre ele e questioná-lo. Não estou afirmando aqui que em outras épocas da humanidade não houvesse quem questionasse o mundo tal como era ou que procurasse compreender sua lógica de funcionamento e debatesse sobre ela ou até mesmo propusesse modificações. Contudo, quando o pensamento passa a ter cada vez maior peso da lógica científica – e a própria ciência se torna uma autoridade do pensamento –, analisar o mundo, pensar sobre ele, tentar compreender sua lógica e refletir sobre o que poderia ser mudado se torna uma prática corriqueira de grande parte da população e, particularmente, dos grupos que exercem e disputam o poder, e não mais algo que apenas alguns estudiosos fazem dentro de seus círculos específicos. Essa é a característica que Giddens chamou de reflexividade da modernidade.

Ou seja, até o final da Idade Média e início da Idade Moderna, todas as grandes explicações sobre o mundo – fora dos círculos acadêmicos – eram dadas pelas religiões e sistemas míticos. A explicação oficial para uma grande praga ou epidemia – a peste negra, por exemplo, ou grandes secas, períodos de grande fome etc. – costumava ser um castigo de Deus (ou de outras divindades, de acordo com o sistema de mundo encantado de que estamos falando) para os pecados da humanidade. Ou então o resultado de uma guerra entre deuses. Ou a ascensão do demônio. E no mundo moderno? Ainda há quem viva nessa lógica? Evidentemente. Mas, apesar de grande parte das pessoas ainda acreditarem que uma catástrofe pode ser castigo de Deus, elas também vão assistir o noticiário para ver o especialista na área dar sua explicação. A versão oficial que explica os acontecimentos, hoje, é da ciência, não mais a da fé – o que não quer dizer que as explicações míticas tenham sumido ou mesmo que estejam enfraquecidas. Até porque a modernidade não é um disjuntor que, quando ligado, muda instantaneamente o funcionamento de tudo. A modernidade e a tradição vão convivendo, com ganhos e perdas sucessivos de espaço. Aliás, como ressalta Marshall Berman (2007), ser moderno é, por um lado, deslumbrar-se com as ressignificações que a modernidade traz e, por outro, sentir-se sem chão com a perda dos marcos tradicionais que eram considerados parte do próprio ser. Nesse caso, a maior parte da população escolarizada vai ter como verdade a explicação do cientista sobre a catástrofe, mas uma boa parte dela ainda vai crer que todos os fenômenos que o especialista explicou são, no fundo, orquestrados pelo maestro divino.

Outro ponto onde fica evidente essa reflexividade é a crítica constante à forma de organização da sociedade. No mundo pré-moderno, a divisão em classes que existia, por exemplo, na Europa Medieval ocidental, não era algo que estava em discussão – a não ser dentro de círculos específicos. Não havia, dentro do senso comum, ou entre os grupos que disputavam o poder, ou mesmo entre os que estavam abaixo na hierarquia social, uma expectativa de que outra configuração do mundo seria possível – ou desejável. Não há indícios de que o mundo organizado dentro da lógica feudal estivesse em xeque, que o domínio da nobreza e do clero fosse contestado. Esse tipo de contestação passa a ganhar destaque apenas à medida que a burguesia vai se fortalecendo, depois que as condições materiais o permitem – intensificação do comércio a partir das novas rotas marítimas, maior intercâmbio cultural e material com o Oriente como decorrência das Cruzadas, intenso tráfego de pessoas fugindo de grandes secas e pestes etc. – ou seja, a partir do momento em que a modernidade começa a despontar. Antes disso, as querelas políticas não eram algo que fosse trazer qualquer alteração na configuração da sociedade, ou mesmo que a colocaria em questão. Dentro da lógica política moderna, por outro lado, a forma de organização do mundo está sempre em questão. Os debates políticos sempre se pautam na forma como o mundo está organizado em comparação a como ele deveria ser. O próprio embate entre direita e esquerda está erguido em cima disso, dessa reflexividade sobre o mundo – e até mesmo o debate dentro dos grupos da esquerda e da direita.

Ainda em relação à reflexividade, uma vez que o pensamento racional passou a ser a lógica principal no mundo moderno, também se tornou uma característica recorrente a reflexão crítica sobre esse mesmo mundo, tanto em relação à natureza, quanto à forma de organização da sociedade. Notem que estou utilizando uma ideia de “reflexão crítica” em praticamente qualquer nível minimamente racional. Não estou especificando que essa criticidade seja, necessariamente, acadêmica, científica, filosófica, ou com grandes embasamentos. Uma vez que a lógica acadêmica de reflexão sobre o mundo se torna a tônica, pessoas de diversos níveis da nossa sociedade – do acadêmico mais renomado ao barbeiro que passa a tarde com a televisão ligada em programas policiais – sentem a necessidade de compreender o mundo e pensar em como ele poderia mudar, o que abre a possibilidade, inclusive, de que essa mudança seja para intensificar o domínio da tradição e deixar de lado as ressignificações que a modernidade fez.

Sendo assim, a “onda conservadora” é uma reação a essa reflexividade da modernidade (reação, esta, que tende a ser, também, reflexiva) dentro de uma sociedade que, no temor de ver desaparecer toda aquela tradição que é parte da sua forma de entender a si própria, reage se apegando aos seus aspectos tradicionais mais bem enraizados – isso é o que chamamos, especificamente, de conservadorismo. E, até o século XIX, grande parte do mundo, em particular o Brasil, era escravista, patriarcal, cristão e heteronormativo. Esses valores não deixaram de existir e é até discutível se eles se enfraqueceram ou não. A escravidão, por exemplo, acabou no Brasil em termos legais. Contudo, além de ainda existir uma prática consolidada de trabalhos análogos à escravidão, principalmente no interior do país, onde as relações de poder no campo ainda ocorrem da forma mais tradicional possível, ainda existem outros resquícios da sociedade escravocrata em inúmeros pontos da nossa realidade. Por exemplo: a ideia de distribuição de renda é muito ofensiva a grande parte das elites e da classe média brasileira, que recorrem imediatamente ao discurso do mérito. Você precisa se esforçar, “suar”, “dar o sangue”, se quiser “ganhar bem”. Muitas vezes, o “ganhar bem” a que se referem quer dizer “não morrer de fome” e “ter o que vestir”, porque, afinal, é o que se consegue quando se vive unicamente de auxílios do governo, como o Bolsa Família, que se recebe “de graça”, “sem ter que trabalhar”. O discurso em questão procura apresentar essa situação como um privilégio, e não como uma medida paliativa para evitar mortes por pobreza extrema.

O que está por trás desse discurso, para além da própria estrutura de funcionamento de qualquer sociedade capitalista periférica, é a lógica da escravidão. O trabalhador tem que estar à disposição para trabalhar o máximo que aguentar pelo menor preço que for possível pagar. Na época em que a prática escravista era legal, esse preço era comida e lugar para dormir – nem sequer estou entrando na questão da qualidade dessas duas coisas! Hoje, é um salário que, com sorte, dê para pagar a comida e o lugar para dormir. E onde a “onda conservadora” entra? Ora, sobretudo na primeira década do século XXI, o Brasil viu a criação de leis trabalhistas e diversos dispositivos que distribuíam renda, apesar de não terem realmente mexido na estrutura social, uma vez que a concentração de renda continuou existindo, assim como os impérios do agronegócio, a violência no campo, a concentração de terras, etc. Mesmo assim, essas ações foram suficientes para desencadear a reação mencionada.

Esses dispositivos (Bolsa Família, aumento real do salário mínimo por 13 anos consecutivos, “PEC das Domésticas”, expansão do crédito, entre outros), apesar de compensatórios, aumentaram o poder de compra da população mais pobre e elevaram, com isso, o preço da mão de obra – o que, sim, é um mecanismo de distribuição de renda. O trabalhador estava ficando caro e a tradição escravista acha isso inadmissível. Existe aqui algo que é da própria materialidade do sistema, afinal, é luta de classes. Quando o preço da mão de obra sobe muito, a porcentagem de lucro do empresariado cai – apesar do lucro absoluto ter aumentado muito no período em questão, pelo aumento de demanda e crescimento da economia – e existe a tendência natural de que as classes dominantes operem para reverter esse quadro. Entretanto, a tradição do próprio pensamento escravocrata também está presente, por entender que as classes mais baixas estariam recebendo algum tipo de “privilégio” do governo e que não estariam “dando o sangue” para merecer essa melhora nas condições de vida – logo, estariam sendo colocados em um lugar ao qual não pertenceriam.

Dentro dessa mentalidade, o trabalhador só pode ter acesso a melhores condições de vida – que ainda andam bem longe daquelas dos “eleitos” – depois de sua mão de obra ter sido intensamente explorada e ele, com isso, provar que “merece” viver em condições diferentes. Nesse caso, ele pode conseguir um aumento de salário, ou uma promoção – mas que não são direitos, e sim concessões dos patrões. Assim como os senhores de escravos poderiam, se assim entendessem, fazer “concessões” aos “melhores escravos”, dando a eles trabalhos menos desgastantes ou acesso a alguma educação formal (se isso fosse útil para os senhores). São formas de “prêmios de consolação” pela submissão às condições existentes – antes, de propriedade; hoje, contratuais. Da mesma forma, nos dias atuais, o trabalhador que melhor se submeter à exploração por anos e anos – até quando for conveniente para a empresa – também pode ser “premiado”: vai continuar tendo que se submeter à exploração, mas com direito a um salário melhor, ou com horários mais flexíveis, ou alguma outra “concessão” dos seus empregadores.

Contudo, há outros aspectos em que a tradição escravista ainda está presente. Um deles é justamente a tentativa de negar essa presença, nos inúmeros ensaios discursivos que tentam afirmar que o racismo “de verdade” não existe no Brasil, conforme o novo presidente da Fundação Palmares afirmou recentemente. Ou que, conforme o nosso Presidente da República, a dívida histórica da escravidão não existe, porque a culpa daquela realidade teria sido dos próprios africanos – discurso que se aproveita do aval de obras pseudo-históricas de extrema desonestidade intelectual, como o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch. Dizer que o passado “ficou no passado” é uma reflexão que mascara propositalmente a realidade, de forma que ela possa se perpetuar. Afirmar que a escravidão é algo totalmente superado e que não tem qualquer relação com a realidade atual nega um quadro social que, sim, existe. E fazer essa negação contribui para que ele continue existindo. Se as pessoas não o enxergarem, não têm por que se indignarem com ele.

E o aspecto mais gritante dessa permanência da tradição escravista é a situação social da maioria dos negros no Brasil hoje, que são a maior parte da população nas periferias urbanas e nos povos pobres do campo e, portanto, têm apenas a opção do acesso a equipamentos sociais extremamente precários – acesso a educação e saúde de pior qualidade (isso quando existe), subempregos ou trabalho informal (consequência do fraco acesso à educação de qualidade), péssimas condições de moradia (consequência dos tipos de trabalho e da impossibilidade de acesso ao capital), maior suscetibilidade à violência (tanto do crime “propriamente dito” quanto das atividades policiais), dentre muitas outras características da situação subalterna em que a população negra vive no Brasil, hoje.

Alguém poderia argumentar: “Mas isso é porque eles são pobres”. Exatamente! São pobres e tudo está estruturado de forma que eles continuem vivendo na pobreza e toda iniciativa que tente possibilitar uma transformação estrutural (mesmo que mínima) provoca o acionamento do dispositivo da tradição escravista, que lança a onda conservadora para afundar os barcos dos escravos modernos e impedir que eles saiam dos seus “devidos lugares”. Entendo que o argumento que mencionei quer dizer que a questão não é racial, mas econômica. Mas, se a estrutura social faz com que a maioria da população pobre seja negra e, pior, com que esse quadro permaneça inalterado, a questão não é só econômica, é, também, étnico-racial. É precisamente isso que chamamos de racismo estrutural, que não tem a ver, necessariamente, com o que as pessoas, individualmente, pensam sobre os negros, ou se “gostam deles”. E aqui entra a questão que ataca a tradição: nos últimos dezesseis anos, houve uma série de políticas públicas voltadas para tentar fazer alterações nessa estrutura social. Além dos programas sociais que eu já citei anteriormente, que beneficiavam majoritariamente famílias negras, há também as políticas de cotas nas universidades públicas e de demarcação de terras quilombolas, além do aumento das discussões púbicas sobre racismo nas escolas, em programas de televisão, em músicas, filmes e na arte em geral. E tudo isso tem sido alvo da tal “onda conservadora”, porque, como já mencionei, essas ações atacam uma tradição que nunca deixou de existir. E, no momento em que a tradição sente que a estruturação produzida por ela pode acabar sendo modificada, ela age. Frequentemente com um tsunami.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Fernando Muratori Costa. A modernidade é reflexiva, e a tradição reage (1ª parte) – a “onda conservadora” e a tradição escravista. Fora!. Acessado em 17 de dezembro de 2019. Disponível em <https://fora.global/2019/12/17/analise-a-modernidade-e-reflexiva-e-a-tradicao-reage-1a-parte-a-onda-conservadora-e-a-tradicao-escravista/>.

APA:

Fernando Muratori Costa. (17 de dezembro de 2019). Fora!. https://fora.global/2019/12/17/analise-a-modernidade-e-reflexiva-e-a-tradicao-reage-1a-parte-a-onda-conservadora-e-a-tradicao-escravista/.

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