Irã-EUA: Entenda o conflito e como ele pode progredir

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O ataque dos EUA que matou o general Qasem Soleimani em Bagdá (Iraque) no dia 03 de janeiro foi “respondido” na madrugada de hoje (08/01), com mísseis disparados pelo Irã contra bases americanas no Iraque. Terá sido isso tudo o que havia por vir?

No dia 03 de janeiro, um ataque norte-americano realizado por drones no aeroporto internacional de Bagdá, Iraque, matou o general iraniano Qasem Soleimani. Soleimani era membro da Guarda Revolucionária Islâmica e comandava a Força Quds, um grupo de elite especializado em guerra irregular (inteligência, contra-inteligência, guerrilha, sabotagem, etc.) e ações militares extraterritoriais. No mesmo ataque, foi morto também Abu Mahdi al-Muhandis, vice-chefe do Comitê de Mobilização Popular (Al-Hashd Al-Sha’abi) e comandante do Kata’ib Hezbollah, com ligações estreitas com a Força Quds. Ambos dirigiram o combate contra o Estado Islâmico na região, e também atuaram apoiando grupos contrários ao regime de Saddam Hussein no Iraque, país vizinho. O ataque americano supostamente teria sido uma retaliação contra o ocorrido na embaixada dos EUA em Bagdá, em 31 de dezembro.

Em realidade, nada é tão simples. A escalada das tensões entre EUA e Irã já ocorre há meses. Em maio, o Irã suspendeu algumas das disposições do acordo nuclear assinado em 2015, em resposta a sanções norte-americanas destinadas a atingir as exportações de petróleo do país persa e a declarações feitas por Donald Trump de que seu país deixaria o acordo por completo. Entre julho e agosto, houve uma querela a respeito de um petroleiro iraniano que foi retido em Gibraltar (território do Reino Unido) sob a suspeita de transportar combustível para a Síria a despeito de sanções dos EUA. Em agosto, os EUA negociaram com a Austrália o envio de efetivos militares para o Estreito de Omã, unindo-se assim a tropas do Bahrein e da Grã-Bretanha. Em setembro, o Hezbollah – que é apoiado pelo governo do Irã – atacou alvos em Israel, país historicamente alinhado aos interesses estadunidenses. Durante todo este tempo, o governo dos EUA reforçou a sua presença militar na região, enviando tropas para se juntarem às que já estavam estacionadas na Síria e no Iraque (incluindo um porta-aviões e navios anfíbios), e cedendo a pressões políticas e militares da Turquia. Em dezembro, Irã, Rússia e China anunciaram que fariam exercícios militares conjuntos.

O Irã possui há anos a ambição de se tornar uma potência regional no Oriente Médio, mas isso não interessa aos EUA pois implicaria em perda de poder pelos seus aliados locais – notadamente Israel e Arábia Saudita. Em especial, para a doutrina militar estadunidense o surgimento de uma nova potência bélica na região, com o aparato tecnológico para o uso de armas nucleares (cujo desenvolvimento o Irã já iniciou e interrompeu inúmeras vezes) seria uma séria ameaça: significaria não apenas que Turquia e Israel deixariam de ser os únicos países com aparato nuclear na região, como teria o potencial de intensificar a corrida armamentista no sul da Ásia, visto que o Irã faz fronteira com o Paquistão, e este com a Índia – os dois últimos já possuem suas próprias ogivas. O Irã também faz fronteira com o Afeganistão, país no qual os EUA travam a mais longa guerra de sua história.

Deste modo, o ataque de drones que matou Qasem Suleimani e Abu Mahdi al-Muhandis está longe de ser uma resposta impulsiva a um único evento. Este tipo de ação militar leva meses em termos de planejamento, e exige paciência para aguardar até que a oportunidade ideal para sua execução surja. Mais do que isso, a própria seleção dos alvos foi cuidadosa: tinha como objetivo realizar uma demonstração de força, e deixar o governo do Irã ciente de que os EUA têm interesses geopolíticos na região e pretendem avançar com eles. O ataque pretendia passar uma mensagem, e ter sido realizado em território iraquiano não foi ao acaso – eleições locais serão realizadas no Iraque este ano, e partidos e movimentos anti-americanos têm sido financiados por grupos ligados ao governo iraniano, que tem interesse em influenciar os rumos políticos do país vizinho.

No entanto, apesar da retórica agressiva das autoridades iranianas após o ataque do dia 03, o lançamento de mísseis realizado na madrugada de hoje indica uma desescalada, ao menos temporária, no conflito.

O ataque, efetuado contra a base aérea de al-Asad e o aeroporto de Erbil, nos quais há tropas dos EUA estacionadas, ocorreu nas primeiras horas da manhã – quando a maior parte dos soldados americanos estava dormindo. Isso minimiza as chances de ferir ou matar tropas. As autoridades iranianas tambêm possuem ciência de que os postos americanos têm um sistema de defesa antiaérea muito avançado, e sabem o quanto os mísseis de seu próprio país são eficazes contra este tipo de tecnologia. E é possível que o Irã tenha permitido que a notícia do ataque vazasse – fontes do primeiro-ministro iraquiano alegam terem recebido uma notificação verbal de Teerã momentos antes da realização dos lançamentos, o que teria permitido que autoridades dos EUA fossem avisadas com antecedência. Embora as redes de televisão pró-Irã tenham noticiado “centenas de mortos”, tanto autoridades iraquianas quanto estadunidenses alegaram que ninguém saiu ferido. Os lançamentos foram realizados a partir do próprio território iraniano, em cumprimento à promessa feita tanto por Hassan Rohani (presidente do Irã) quanto pelo aiatolá Khamenei (líder supremo) de que a resposta seria dada pelas forças armadas. Levando em conta o conjunto, é bastante possível que o ataque tenha sido apenas uma forma de ganhar apoio interno e em meio a grupos militantes e milícias (como o Hezbollah), sem de fato agredir os norte-americanos. O aparato diplomático e militar dos EUA certamente entenderia esse tipo de mensagem, e manteria sua retórica pública agressiva sem, no entanto, tomar outras atitudes materiais que agravassem mais o conflito, levando a uma desescalada.

Há, no entanto, duas outras hipóteses que devem ser consideradas. A primeira consiste em atribuir a falta de eficácia no ataque à possibilidade de que Khamanei esteja fora de sintonia com o aparato militar de seu país, e tenha superestimado o efeito de tal ato. Dado o histórico de proximidade do aiatolá com as forças armadas, esta hipótese é improvável. A segunda, mais problemática, consiste em imaginar que o propósito real dos lançamentos de mísseis seria enganar os americanos com uma falsa sensação de segurança – passando a impressão de que o aparato militar iraniano é fraco é já fez tudo o que podia – levando a um ganho de tempo necessário para planejar uma ação assimétrica que pode causar um estrago bem maior.

Trata-se de um jogo perigoso, visto que os altos níveis do governo dos EUA podem ser levados a acreditar que a performance fraca do Irã em sua retaliação seja uma mostra de fraqueza, reforçando a confiança e provocando ainda mais reações irracionais e provocações por parte de Washington. Além disso, outros atores internacionais, como os demais países da região, também podem interpretar este ato como sinal de fraqueza, e com isso a região inteira teria ainda mais instabilidade.

De qualquer modo, uma guerra aberta seria prolongada e demonstraria ser algo deletério tanto a Teerã quanto a Washington – e ao restante da região, como um todo, também. Em caso de guerra, os EUA teriam que enviar mais tropas, munições e demais recursos para a região, possivelmente retirando-os de outros teatros operacionais de interesse, como o sudeste asiático, o leste europeu e o caribe, enfraquecendo suas posições. E o Irã certamente veria seus atuais problemas internos políticos e econômicos se agravarem.

Há um risco considerável de que aliados regionais do governo iraniano podem acabar por se envolver com a retórica bélica assumida publicamente pelo governo do país persa, e com isso intensificar suas ações. O cenário mais provável, ao que tudo indica, é de ações irregulares, como guerrilha e insurgência, em lento crescimento em toda a região, levadas a cabo por grupos indiretamente apoiados pelos países envolvidos. No entanto, embora esse cenário seja menos preocupante do que o de uma guerra aberta entre os dois países, é preciso ficar em alerta: ambos descobriram que podem atacar diretamente um ao outro.

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ABNT:

Redação do Fora!. Irã-EUA: Entenda o conflito e como ele pode progredir. Fora!. Acessado em 8 de janeiro de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/01/08/ira-eua-entenda-o-conflito-e-como-ele-pode-progredir/>.

APA:

Redação do Fora!. (8 de janeiro de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/01/08/ira-eua-entenda-o-conflito-e-como-ele-pode-progredir/.

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