Análise: sobre as relações entre Turquia e Síria

Tempo de leitura: 6 minutos
Arte: Marcio Vaccari.

Tradução de Gabriel Borges.

As ações turcas na Síria e seus desenvolvimentos subsequentes, particularmente a declaração conjunta Turco-Americana, o consequente cessar-fogo e o memorando de entendimento Russo-Turco, modificaram completamente o mosaico do conflito sírio. O que a Turquia ganha com esses acordos tanto com a Rússia quanto com os Estados Unidos? Quais motivos estão por trás das ações de Moscou e Washington?  

Turquia

A Turquia manobra para coordenar suas operações com os Estados Unidos por um lado e Rússia e Irã por outro, eventualmente uma zona de segurança de 120 quilômetros entre Tel Abyad e Ras al-Ayn. Deve-se perceber, entretanto, que isso não é ainda o objetivo final de Ankara e futuramente a Turquia tentará realizar seu plano máximo (estabelecer o controle sobre mais de 400km de seu território). Talvez não seja coincidência que ambos os acordos, Turco-Americano e Russo-Turco, não respondem ao questionamento de por quanto tempo as tropas turcas irão controlar a fronteira entre Turquia e Síria. Isso permite a Ankara fortalecer sua influência nessa região ao fingir anexá-la à Turquia.

Como resultado da criação dessa zona de segurança e da rendição das forças curdas, a Turquia reduziu significantemente a influência dos curdos em suas fronteiras, o que também perturbou as relações com os curdos dentro da Turquia. Ao mesmo tempo, através do acordo com a Rússia, a Turquia consegue uma pressão adicional sobre as forças curdas, cuja expectativa era de ganhar uma cooperação considerável com a Rússia depois da retirada das tropas americanas e o início das excursões turcas.

Com a criação da zona de segurança, a Turquia tem a oportunidade de relocar a questão dos refugiados em território turco (mais de 3,5 milhões) para algum anexo ao planejar o retorno de mais de um milhão de pessoas em territórios então ocupados pelos curdos. Pode-se presumir que a Turquia vai potencializar a ocupação dessas áreas com uma população de falantes da língua turca, para ganhar influência nesses territórios.

Sobretudo, ao estabelecer o controle sobre algumas dessas áreas sírias, a Turquia “materializa” sua influência sobre a Síria e seu papel como peça-chave no conflito sírio.

Rússia

Ao concordar virtualmente com a criação da zona de segurança de 32km de profundidade na fronteira entre Turquia e Síria, a Rússia expande sua influência sobre o norte da Síria (incluindo patrulhamento articulado e mecanismo de monitoramento com o exército turco) e incrementa largamente em seu papel como parte do conflito sírio.

A retirada das tropas americanas do território sírio e o enfraquecimento do fator curdo deriva dos interesses russos. Moscou é melhor para negociar em Astana com sua parceira Turquia que os americanos e as forças curdas.  Ao mesmo tempo, como resultado das operações turcas, as forças curdas são obrigadas a negociar com o governo de Damasco, que Moscou é desejosa de possuir, e em um futuro próximo a Rússia espera ser capaz de intervir ativamente nas questões políticas do conflito Sírio-Curdo.

Chegar a um acordo com a Turquia na zona de segurança significa que esta concordou por ceder à Rússia.

Estados Unidos

Por “permitir” essas ações em território turco, os Estados Unidos buscam resolver em definitivo seu envolvimento direto no conflito sírio (por volta de 200 mil militares foram mandados para a síria para controlar instalações petroleiras), retirando suas forças da Síria, o que ainda está em observação. Os planos e objetivos anunciados pelo presidente dos Estados Unidos estão pelo não envolvimento direto nos conflitos de outras regiões e busca por aliados poderosos capazes de “suportar essa responsabilidade”.

Ao mesmo tempo, pela declaração conjunta entre Turquia e Estados Unidos datada de 17 de outubro de 2019, a administração americana tenta afastar parte da crítica internacional e interna e lucrar politicamente para a eleição de 2020. O acordo também dá conta de forma rápida e sem perdas das operações turcas, enfraquecendo a resistência turca.

Evidentemente, é compreensível que entendimentos ocultos podem também ser parte dos acordos da Turquia com a Rússia e os Estados Unidos, que serão julgados apropriadamente conforme os eventos se desenrolam mais claramente.

Governo sírio

Essa situação para a Síria também demonstra uma conjuntura de fatores positivos. É especialmente importante para Damasco o fato de que os Estados Unidos estão retirando suas tropas do território sírio e os curdos têm que negociar com o governo sírio sob condições muito mais desfavoráveis do que tinham até a decisão do presidente dos Estados Unidos de retirar suas tropas e autorizar a ação turca. Por motivos do acordo com os curdos, o governo sírio restaura sua autoridade sobre os territórios sírios. E finalmente, as autoridades sírias têm a oportunidade de resolver o problema referente ao território de Idlib e já estão se esforçando para tanto.

Resumindo, devemos compreender que o conflito sírio entrou em uma nova fase, e os eventos que se sucederão serão de grande influência para resultar em um final definitivo.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Anik Margaryan. Análise: sobre as relações entre Turquia e Síria. Fora!. Acessado em 27 de fevereiro de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/02/27/analise-sobre-as-relacoes-entre-turquia-e-siria/>.

APA:

Anik Margaryan. (27 de fevereiro de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/02/27/analise-sobre-as-relacoes-entre-turquia-e-siria/.

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