O COVID-19 não será o fim do capitalismo, mas seu aprofundamento

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Arte: Marcio Vaccari.

A recente pandemia do novo Coronavírus acendeu a esperança de inúmeros militantes de esquerda, muitos dos quais foram alçados à categoria de “analistas políticos” pelo público. A ironia é que, aparentemente, estes mesmos analistas nunca leram Marx e os intelectuais que seguiram o seu legado – ou não os entenderam.

Multiplicam-se vídeos e artigos de imprensa com o mesmo conteúdo: o COVID-19 mudou os modos de relação. As pessoas estão descobrindo a importância da solidariedade mútua. O mito neoliberal, de redução do tamanho do estado, caiu por terra. Grandes empresas irão sofrer um baque econômico e chegarão perto da falência. Países com governos neoliberais flertam com a estatização, com o keynesianismo e com a ideia de renda básica universal. Todos esses fatores estariam abrindo um enorme campo para a eventual superação do sistema capitalista.

Essa esperança ignora solenemente o modo como o capitalismo funciona e faz parte da escatologia típica da militância das esquerdas. É necessária uma grande crise – ou uma grande revolução, na sua versão clássica – para que se atinja o paraíso terreno do socialismo. Não é muito diferente do cristianismo messiânico, e se destaca o fato de que todos os modelos político-econômicos surgidos entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX – o socialismo de estado, o neoliberalismo, o fascismo e o anarquismo – se baseiem nos mesmos pressupostos: de que há um paraíso a ser obtido, de que as pessoas podem obter sua “salvação” se seguirem os preceitos corretos (se forem pias o suficiente), e de que haverá uma grande tribulação que, após superada, resultará na regeneração da humanidade. O campo de estudos da teologia política é especialmente esclarecedor e instrutivo ao mostrar como nossas crenças políticas são influenciadas pela herança religiosa de nossa cultura.

O problema, na presente situação, é que a realidade aponta não no sentido de uma superação do modo de reprodução social vigente, mas sim no seu aprofundamento.

A pandemia irá provocar uma enorme crise econômica. Isso nenhuma pessoa em plena posse de suas faculdades mentais pode negar. Mas em qualquer crise são os pequenos negócios que sofrem mais risco de irem à falência, e não os grandes – que não somente têm acesso a mais capital de giro e linhas de crédito melhores, como podem exercer pressão política para receberem apoio governamental. Os grandes negócios comprarão as pequenas empresas endividadas, fortalecendo seus monopólios e a concentração de riqueza. O oposto do que esperam os adeptos da segunda vinda de Cristo em sua versão político-econômica. E, ironicamente, em total acordo com o que escreveu Marx na Bíblia, digo, n’O Capital. Capítulo 25 do primeiro volume, para quem quiser conferir.

Não apenas isso, como o capitalismo vai além de ser um mero sistema econômico. É um sistema de organização e reprodução social que invade todas as esferas da socialização humana. Por isso Walter Benjamin o compara a uma religião de culto incessante que se manifesta através da produção e do consumo (para maiores detalhes, ver O Capitalismo como Religião, ensaio que o autor deixou incompleto). A forma-estado, a forma-dinheiro e a forma-trabalho realizam a manutenção do sistema.

Enquanto existir estado, existirá capitalismo; essa é a lição subjacente ao que escreveu Althusser em Aparelhos Ideológicos de Estado e também Pachukanis em Teoria Geral do Direito e Marxismo. E está lá, em Marx, n’A Ideologia Alemã, bem como em A Guerra Civil na França, na Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e nos manuscritos de Paris. O fato de neoliberais convictos, como Trump e Macron, estarem “aumentando o estado para salvar a economia” não indica uma superação do sistema vigente – muito pelo contrário. Estão meramente aumentando a força das instituições que são capazes de realizar a manutenção do sistema vigente, mantendo o “comitê de negócios da burguesia” em funcionamento. O keynesianismo nunca teve como derradeira intenção ser uma superação do modo de vida capitalista; sempre foi, antes de tudo, uma forma de fornecer ao sistema uma sobrevida alongada.

É por isso que os flertes de líderes mundiais com a ideia de renda básica universal não devem ser vistos pelas esquerdas como uma capitulação dos neoliberais. Seria, inclusive, muito estranho que uma ideia que teve entre seus defensores Thomas Morus, Condorcet, Bertrand Russell e Milton Friedman, e que foi seriamente discutida por Richard Nixon, representasse algum tipo de ruptura radical com o capitalismo. Os teóricos da esquerda que defendem a ideia, como André Gorz, sempre se referem a ela como uma “transição suave” do capitalismo financeiro global para outro modo de organização social que nos está sendo imposto por conta da automação. Longe de ser algo revolucionário. Em um sistema baseado em trocas e consumo, dar às pessoas a possibilidade de continuarem consumindo ou de aumentarem seus gastos promove a manutenção desse sistema, não a sua superação.

Esse erro de análise decorre de parte substancial das esquerdas não compreender de fato o caráter do trabalho nas sociedades atuais. Após a revolução industrial, o trabalho deixa de ser um mero “metabolismo com a natureza” pelo qual se caracterizava em sociedades agrárias pré-modernas. Ele passa a uma condição de pressuposto metafísico inquestionável. No capitalismo, quem não trabalha não come; “trabalhador” vira sinônimo de “cidadão” – ou, em sua versão brasileira, de “cidadão de bem”. É um pressuposto econômico invadindo a vida política. Ocorre uma fetichização do trabalho, que se torna um elemento de organização e coesão social tido como a-histórico. Mesmo nas tentativas de superação desse modelo, como as ocorridas na extinta União Soviética e na China maoísta, o trabalho como elemento promotor da elevação moral do indivíduo não foi descartado ou sequer questionado. O trabalho, em sociedades capitalistas, deixa de ser meramente um metabolismo com a natureza e passa a ser meio de produzir algo que será apropriado por outro em troca de dinheiro, que por sua vez é utilizado para obter alguma outra coisa que outra pessoa produziu. E isso nunca foi mudado pelos países que adotaram o socialismo de coturno como modelo político, pois mesmo o planejamento estatal da economia nada mais era do que uma organização estatal da produção, da circulação e do dinheiro. Os pressupostos básicos do sistema se mantinham inalterados. Esta é a lição trazida pelos teóricos da Crítica do Valor, como Robert Kurz, Anselm Jappe e Isaak Rubin, mas que já está contida no próprio Marx – nos manuscritos de Paris, já citados, e no capítulo 7 do primeiro volume de O Capital.

Se o capitalismo é, como afirmou Benjamin, uma religião de culto incessante e frenético, a esperança revolucionária que o COVID-19 provocou em DCE’s e coletivos – ventilada no YouTube e nos “textões” do Facebook, bem como no espaço de “cotas” para colunistas de esquerda dos grandes jornais – é, de forma similar, uma religião escatológica baseada em messianismo e em vulgarização teórica do marxismo. Não serve a nada, exceto para fornecer conforto psicológico a quem depende de delírios com um paraíso futuro para funcionar socialmente – enquanto promove a devida auto-estetização e romantização dos “revolucionários” que são seus autores.

Precisamos de marxistas melhores.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

David G. Borges. O COVID-19 não será o fim do capitalismo, mas seu aprofundamento. Fora!. Acessado em 23 de março de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/03/23/o-covid-19-nao-sera-o-fim-do-capitalismo-mas-seu-aprofundamento/>.

APA:

David G. Borges. (23 de março de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/03/23/o-covid-19-nao-sera-o-fim-do-capitalismo-mas-seu-aprofundamento/.

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