Coronavírus: EUA acusado de prejudicar outros países em “guerra das máscaras”

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Diversos países do mundo têm denunciado ações dos Estados Unidos da América na compra de suprimentos médicos em meio à crise do coronavírus. Táticas qualificadas como desleais têm causado atritos diplomáticos entre os norte-americanos e diversas outras nações dos continentes americano e europeu.

Na Alemanha, o ministro do interior de Berlim, Andreas Geisel, acusou os EUA de se apropriarem de 200 mil máscaras faciais encomendadas por seu país. A remessa teria sido apreendida em Bangkok, Tailândia, enquanto a carga era transferida entre voos. Geisel classificou o ato como “pirataria moderna” e “métodos do velho oeste“. Os itens já haviam sido pagos pelo governo alemão e seriam distribuídos a policiais.

Na França, o presidente da região Provence-Alpes-Côte d’Azur, Renaud Muselier, acusou os Estados Unidos de terem pago para “desviar” um carregamento de máscaras oriundo da China que tinha como destinatário as autoridades de saúde francesas. O carregamento conteria cerca de 60 milhões de unidades deste equipamento de proteção. “Hoje de manhã (02/04, quinta-feira), na China, os americanos compraram a encomenda francesa em dinheiro logo na pista de decolagem. O avião com destino à França partiu, ao invés, para os Estados Unidos”, afirmou Muselier. O jornal francês Liberátion publicou uma matéria afirmando que os norte-americanos teriam pago o dobro do valor pela encomenda destinada aos franceses.

Valérie Pécresse, presidente da região de Île-de-France, que inclui Paris, comparou a busca por suprimentos médicos a uma “caça ao tesouro”. “Eu encontrei um estoque de máscaras disponíveis e os americanos – não estou falando do governo americano, mas sim de americanos – fizeram uma oferta mais alta do que a nossa. Eles ofereceram um valor três vezes maior e pagamento à vista. Eu não posso fazer isso. Estou gastando dinheiro do contribuinte e só posso pagar na entrega ao verificar a qualidade”, disse Pécresse à BMFTV.

No entanto, os países europeus não têm um histórico ilibado nesta questão. A própria França já havia confiscado, no dia 05 de março, um carregamento de máscaras fabricadas por uma empresa sueca e destinado à Espanha e à Itália, com base na requisição de estoques decidida em 03 de março pelo governo francês. O avião com os suprimentos médicos havia feito uma parada em Marselha. O confisco foi altamente controverso, e criticado pela imprensa de diversos países.

Jornais europeus também denunciaram um confisco de 680 mil itens hospitalares destinados à Itália, incluindo respiradores, realizado na República Tcheca. Um pesquisador tcheco, Lukas Cervinka, denunciou a prática das autoridades de seu país a ONGs humanitárias, o que chegou rapidamente na imprensa italiana.

Em 03 de abril, sexta-feira, a 3M, empresa sediada nos EUA, recebeu um pedido do governo Trump para interromper suas exportações de suprimentos médicos e hospitalares para o Canadá e a América Latina, de modo a ser capaz de atender à demanda interna dos EUA. O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, reagiu e advertiu o governo estadunidense de que isso seria “um erro”. A 3M emitiu um comunicado à imprensa afirmando que “existem implicações humanitárias significativas em cessar o fornecimento de respiradores e suprimentos para trabalhadores do setor de saúde no Canadá e na América Latina”.

Uma carga de 600 respiradores artificiais destinada ao Brasil, oriundos da China, ficou retida no aeroporto de Miami. A empresa fornecedora cancelou unilateralmente a remessa, e não informou o novo destino dos equipamentos. Na quarta-feira o ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta, declarou em entrevista coletiva que compras brasileiras haviam “caído” depois da confirmação das compras americanas, e sugeriu que os contratos rompidos se deviam aos itens serem comprados por uma terceira parte, a um preço mais alto, diretamente com o fornecedor.

Cuba, por sua vez, está acusando os Estados Unidos de um “bloqueio criminoso” depois de ter visto anulada a entrega de equipamentos médicos vindos da China, entre os quais ventiladores e kits de testes para Covid-19, devido às sanções norte-americanas impostas a Havana. “Cuba denuncia que a doação de equipamentos médicos para combater a Covid-19, por parte da Fundação chinesa Alibaba, não pôde chegar ao país devido aos regulamentos do bloqueio criminoso imposto pelo Governo dos Estados Unidos contra o nosso povo”, lê-se na página oficial da Presidência cubana no Twitter. O fato foi divulgado pela RTP de Portugal.

O governo venezuelano também acusou os EUA de prejudicarem a compra de equipamentos médicos através das sanções econômicas, e de se aproveitarem da pandemia para tentar desestabilizar mais ainda o país, inclusive com ameaça de uso de força militar disfarçada de operação contra o narcotráfico. As acusações se dão na esteira da recompensa oferecida pelo governo dos Estados Unidos por Nicolás Maduro, mandatário venezuelano, e da sugestão pública de um plano de transição para a Venezuela. A Rússia tomou o partido da Venezuela e “repudiou” as ações dos EUA.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, já pediu que sanções econômicas contra países como Irã, Venezuela, Zimbábue, Coréia do Norte e Cuba sejam afrouxadas durante a pandemia, de modo que essas nações tenham como lutar contra o vírus de forma mais eficaz. Também defendeu um cessar-fogo global para que países em estado de guerra sejam capazes de dirigir seus esforços para questões de saúde pública no momento. Em relatório, a Organização das Nações Unidas destacou conflitos ocorridos em Camarões, República Centro-Africana, Colômbia, Mianmar, Filipinas, Sudão do Sul, Sudão, Ucrânia, Iêmen, Síria, Afeganistão e Líbia.

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Redação do Fora!. Coronavírus: EUA acusado de prejudicar outros países em “guerra das máscaras”. Fora!. Acessado em 4 de abril de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/04/04/coronavirus-eua-acusado-de-prejudicar-outros-paises-em-guerra-das-mascaras/>.

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Redação do Fora!. (4 de abril de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/04/04/coronavirus-eua-acusado-de-prejudicar-outros-paises-em-guerra-das-mascaras/.

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