Análise: A União Europeia irá sobreviver ao coronavírus?

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Arte: Marcio Vaccari.

O mais influente bloco econômico-político do mundo corre o risco de ser uma das principais vítimas do Covid-19.

Os sinais aparecem por todos os lados. Negociações entre autoridades a respeito de emissão de títulos para combate à pandemia e seus efeitos econômicos entraram em colapso na quinta-feira (09/04). Italianos e espanhóis se sentiram insultados por alemães e holandeses. O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, disse que seu país enfrenta uma “emergência econômica e social”. Os dinamarqueses falaram de “uma crise financeira com esteróides”. O vice-presidente da comissão europeia, Frans Timmermans, afirmou que “a União Europeia como conhecemos não vai sobreviver a isto”.

Semanas antes, o ministro das finanças holandês, Wopke Hoekstra, declarou que a Espanha deveria ser investigada por não ter margem orçamental para lidar com a crise. O primeiro-ministro de Portugal, António Costa, reagiu, chamando a declaração de “repugnante”. O rei da Espanha endossou a fala de Costa. Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, afirmou que “o futuro da Europa está em jogo na guerra contra o coronavírus”.

O presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, cujo país está pleiteando a entrada no bloco europeu desde 2014, já havia declarado em uma entrevista em meados de março que “agora todos se deram conta de que a solidariedade internacional não existe; a solidariedade europeia não existe”. A insatisfação dos sérvios com a resposta atual à crise se soma a desilusões anteriores em relação à política externa do bloco e ao longo tempo de espera para que o país ingresse na União Europeia.

Todos estes fatores são, obviamente, agravados pela recente saída do Reino Unido do bloco – que ainda está sendo digerida. Somam-se ainda à instabilidade política permanente em que países como França e Espanha se viram nos últimos anos, e à recente substituição de alguns nomes fortes do bloco que mantinham as coisas em estado de normalidade.

A Oxford Analytica, empresa do ramo de consultoria geopolítica, já havia publicado uma análise chamando a atenção para a “falta de coesão” e a “ameaça de fragmentação” do bloco europeu. Um grupo de intelectuais portugueses foi mais enfático: “A solidariedade europeia não é uma opção, mas sim uma necessidade se a União Europeia não quiser transformar-se numa das principais vítimas do covid-19”.

No fim das contas, um pacote emergencial de 500 bilhões de euros para que os países-membros contraiam empréstimos foi aprovado no dia 10/04, sexta-feira, sendo pouco mais do que uma ampliação do mecanismo europeu de estabilidade, que já existia – um terço do que o Banco Central Europeu já havia declarado que seria necessário: algo por volta de 1,5 trilhão de euros.

A razão da querela já é bem conhecida: os países do norte da Europa não confiam nas políticas econômicas dos países ao sul do continente, que por sua vez se sentem desassistidos pelo bloco por estarem constantemente sob pressões econômicas e humanitárias mais fortes do que os demais. Foi o mesmo motivo da reação lenta à crise de 2008.

Uwe Nerlich, analista da Geopolitical Intelligence Services, acredita que a França sairá fortalecida da disputa por estar realizando uma contenção sutil da Alemanha em meio aos demais países-membros, inclusive com aspirações militares.

Quando a SARS-CoV-2 chegou ao continente europeu, muitos estados-membros da União Europeia reagiram com medidas unilaterais que não foram bem vistas pelos demais membros do bloco. Inúmeros países fecharam fronteiras e limitaram voos; alguns impuseram leis que permitiam o confisco de mercadorias necessárias ao combate à pandemia – levando até mesmo a uma disputa por insumos hospitalares que ficou conhecida como “guerra das máscaras”. Em um contexto no qual a circulação de bens e mercadorias é livre entre parte dos países signatários, tais medidas adquiriram a imagem de fato grave e de “rompimento” com os valores de fundação do bloco. Os países que adotaram essas medidas, por outro lado, se defenderam afirmando que a resposta conjunta estava sendo muito lenta, e que ao adotá-las estavam protegendo os demais. Em resumo, trata-se da velha disputa entre nacionalismo e soberania territorial, por um lado, e cosmopolitismo, abertura de fronteiras e coesão política, de outro. Alguns países, como a Hungria, já atiraram pela janela qualquer ambição de continuar pertencendo ao bloco, dando preferência a modelos autoritários de governo.

O cenário ainda é incerto, mas pode-se fazer algumas conjecturas para o futuro:

1) A União Europeia não vai ruir de imediato devido à profunda interdependência entre seus membros, mas grupos eurocéticos – assim são chamados aqueles que manifestam desagrado com a existência do bloco – devem se fortalecer, ao menos no curto prazo.

2) O fortalecimento de grupos eurocéticos deve beneficiar as aspirações eleitorais de candidatos e partidos que são críticos ao projeto europeu, como o FN (França), o FPÖ e o BZÖ (Áustria), a AfD (Alemanha) e o M5S (Itália). Populistas como Le Pen, Salvini e Orbán se beneficiam diretamente.

3) Irá aumentar o sentimento de insatisfação da população dos países do sul – como Espanha, Itália, Portugal e Grécia – com os países do norte, que já são vistos pelas populações austrais como imperialistas e insensíveis às necessidades de outros povos.

4) Macron (presidente da França) e Merkel (chanceler da Alemanha) têm uma janela de oportunidade e podem aproveitar a situação para se consolidarem como fiadores do projeto europeu, desde que sejam capazes de pacificar o cenário interno em seus países e mitigar a desconfiança dos demais líderes do continente – ambas as tarefas têm se mostrado difíceis.

5) Países que pleiteiam a admissão no bloco irão se mostrar mais reticentes nas negociações futuras, e caso a União Europeia não se mostre capaz de enfrentar os novos desafios que se impõem, estes países podem até mesmo retirar suas candidaturas.

6) China e Rússia, que souberam capitalizar o momento geopolítico enviando auxílio a alguns dos países mais afetados (em especial a Itália) e conduzindo sua política externa de forma respeitosa, podem esperar um ganho de soft power relativo após o fim da pandemia.

7) A interdependência produtiva e comercial começará a ser cada vez mais questionada devido à falta de fábricas de insumos hospitalares de alguns países europeus em meio à crise, que se viram obrigados a recorrer a importações cuja operacionalização foi problemática; isto deve levar, no futuro, a longas rodadas de negociação sobre as regras internas do bloco dos pontos de vista fiscal e produtivo.

8) A política migratória provavelmente será endurecida, não apenas devido à crise econômica próxima, mas também devido à desconfiança geral das populações – e dos eleitores – em relação a imigrantes, que podem ser vistos como disseminadores de doenças.

Tudo isso em meio a um cenário em que o centro das relações geopolíticas se desloca do Atlântico (EUA-União Europeia) para o Pacífico (China e Leste Asiático-EUA).

Em resumo, a União Europeia provavelmente não irá a óbito amanhã. Mas passará algum tempo respirando com a ajuda de aparelhos.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

David G. Borges. Análise: A União Europeia irá sobreviver ao coronavírus?. Fora!. Acessado em 10 de abril de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/04/10/analise-a-uniao-europeia-ira-sobreviver-ao-coronavirus/>.

APA:

David G. Borges. (10 de abril de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/04/10/analise-a-uniao-europeia-ira-sobreviver-ao-coronavirus/.

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