As calamidades de uma época: a pandemia de 1918 e seus impactos no mundo e no Brasil

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Arte: Marcio Vaccari.

Em época em que muito se fala de pandemia, especialmente pela situação presente, isso é, pelo vírus covid-19, procuraremos nesse texto debater sobre outra epidemia mundial. Essa aconteceu aproximadamente 100 anos atrás, ou seja, analisaremos a famigerada “gripe espanhola”.

De antemão é pertinente, antes de continuarmos com o texto, fazermos uma pequena observação – a saber, considero importante não chamarmos a pandemia de 1918 de “espanhola”.

Em primeiro lugar, ainda que seja algo discutível, há relativo consenso de que não foi na Espanha a região onde ocorreram os primeiros casos da doença. Alguns especialistas apontam que ela se originou na França; no entanto, a maioria dos historiadores apontam que o paciente zero se encontrava nos Estados Unidos, nos campos de treinamento militares localizados no Kansas e no Texas. Essas duas bases, em fase posterior, enviaram soldados – provavelmente infectados – para se juntarem às tropas aliadas na Primeira Guerra Mundial. Ela foi ocasionada por uma variação do vírus Influenza A, do subtipo H1N1.

Em síntese, não é possível com absoluta certeza apontar sua origem geográfica. No entanto, sabemos que o primeiro caso notado aconteceu nos Estados Unidos, primeiramente no Texas e, por volta de uma semana depois, em Nova Iorque. Ambos os casos ocorridos em março de 1918. A doença se instalou na Europa em abril do mesmo ano, quando atingiu as tropas dos aliados franceses e britânicos. Em maio ela se alastrou para a Grécia, Espanha e Portugal. Em junho chegou na Dinamarca e na Noruega, e, por fim, em agosto, na Holanda e na Suécia. Aqui termina o primeiro afluxo da gripe, que foi avaliado como mais brando do que os seguintes, uma vez que causou comparativamente poucos óbitos apesar de ser muito contagiosa.

No entanto, essa foi apenas a primeira onda. Afinal, vale lembrar que a pandemia de 1918, assim como a Covid-19, que ainda está na fase de contágio, consumou milhões de mortes entre 1918-1919 – especialmente entre as camadas jovens da população mundial. Nesse ponto ela se diferencia do Covid-19, que tem causado mais mortes entre os idosos.

Ela foi denominada de “gripe espanhola” pois a maior parte da imprensa europeia, com o suposto objetivo de evitar o desânimo tanto nos soldados como em suas populações, censurou ou subnoticiou a divulgação de notícias ligadas a essa pandemia. Vale lembrar que a grande imprensa é um aparelho de dominação ideológica a serviço do grande capital. Faço essa observação para lembrar que a Primeria Guerra, como a maioria delas – independente da escala – teve como principal objetivo a busca desenfreada por colônias. Ou seja, não seria interessante para as burguesias nacionais, que controlam também o Estado, verem o conflito interrompido por motivos pandêmicos. Aqui podemos fazer um pequeno paralelo, guardada as devidas proporções, com as medidas do governo chinês, que também optou por não divulgar no início os dados da crise patológica.

A exceção foi a imprensa espanhola, ou seja, na Espanha circulavam, de forma “independente”, “autônoma” e numerosa, informações sobre a doença. Esse foi o motivo pelo qual se atribuiu à Espanha a origem da doença – cabe reiterar, de forma errônea.

Temos que considerar que é uma tarefa muito difícil identificar quando e onde uma pandemia se inicia e, por extensão, também é complicado apontar como e porquê ela se finda. Em segundo lugar, atribuir “sobrenomes” ou qualquer outro termo pejorativo apenas favorece a discriminação, e serve como um excelente pretexto para a implantação de políticas protecionistas e xenofóbicas. Assim o foi com a “gripe espanhola”, assim o é com a “gripe chinesa”, “comuna vírus” e etc.

E, por fim, não podemos esquecer que a pandemia de 1918 recebeu diversos nomes derivados das díspares impressões, juízos e concepções que a patologia causou nas inúmeras localidades em que ela incidiu. Por exemplo, estadunidenses a designavam de “febre dos três dias” ou “morte púrpura”; na França ela ficou conhecida como “bronquite purulenta”; os italianos a denominaram de “’febre das moscas de areia”, os espanhóis a apelidaram de “La Dansarina”; em Portugal ficou conhecida como a “pneumônica”. Assim, batizar a enfermidade com base na possível região de origem ou nas formas de contágio pode causar transtornos e diversas implicações.

Mas retornemos aos dados da pandemia de 1918. Em agosto ocorreu o início do segundo “surto” da gripe, que alcançou seu pico durante o período de setembro a novembro, ou seja, no decorrer do outono do hemisfério norte. A segunda onda foi bem mais intensa do que a primeira, pois a enfermidade se alastrou para além do continente europeu e dos Estados Unidos, chegando à Índia, Japão, China, África e Américas Central e do Sul. Em muitos países foi responsável por uma elevada quantidade de óbitos. A terceira fase do contágio e, felizmente, a última, estendeu-se de fevereiro a maio de 1919.

Estima-se que a pandemia afetou, de maneira direta ou indireta, aproximadamente de 50% da população mundial. Calcula-se que ela levou a óbito entre 20 e 40 milhões de pessoas. Estamos falando de números maiores do que a própria Primeira Guerra Mundial, na qual estima-se que houve por volta de 15 milhões de vítimas. Esses dados fazem com que alguns especialistas confiram o título do mais severo embate epidêmico da história à pandemia de 1918.

A gripe espanhola no Brasil

O povo brasileiro acompanhou o desenvolvimento da doença e da pandemia, em um primeiro momento, à distância – por meio da imprensa. Nessa fase, a população local não externava maiores inquietações com a patologia. Eles acreditavam que tal enfermidade não se difundiria no Brasil, com base exclusivamente no fator geográfico, ou seja, na distância que separa o território brasileiro da Europa.

Acho que vale fazer um pequeno relato, baseado nas narrativas das autoridades sanitárias brasileiras, para termos uma melhor dimensão do que estamos tratando. Elas consideraram, em primeiro lugar, que a gripe de 1918 era coisa dos “outros” (mexicanos, estadunidenses e, em seguida, dos europeus). Posteriormente, divulgaram que se a patologia chegasse no Brasil existiria assistência médica e tratamento para toda a população.

E mais: ainda afirmaram que a “gripe A” não era muito diferente de uma gripe comum. Acreditem, qualquer semelhança com o discurso do atual presidente do Brasil é mera semelhança. Como diria Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa” [e, nesse caso, como tragédia também].

A pandemia chegou no país em setembro de 1918, contradizendo as estimativas mais otimistas. Foram duas prováveis fontes de contágio. A primeira delas foi trazida pelas tropas navais brasileiras que participaram da Guerra, patrulhando o Atlântico Sul, ao lado dos Aliados. Vale lembrar que uma parte dos marinheiros morreram antes do retorno ao país. A segunda via de infecção é creditada a navios que ancoraram nos portos da região Nordeste; entre eles podemos citar a embarcação Demerara, proveniente da Inglaterra, que atracou em Recife e Salvador em setembro.

Em questão de semanas a enfermidade se propagou para várias cidades nordestinas e ao final de outubro de 1918 já tinha alcançado a maioria dos grandes centros urbanos brasileiros, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo. Em novembro de 1918 a pandemia chegava à região amazônica. Esse novo cenário, em que a doença se espalhou por quase todos os lugares, forçou uma nova alteração nas narrativas das autoridades: passaram a defender que somente as ocorrências mais sérias deveriam ser alvo de hospitalização.

Sua rápida difusão e contágio gerou uma fuga das grandes cidades. Como os médicos não conheciam os procedimentos terapêuticos para impedir, de forma efetiva, a infecção pela moléstia, o governo pediu aos cidadãos que evitassem as aglomerações. Vale lembrar que as epidemias que alcançaram tais dimensões, como a atual (Covid-19) e a de 1918, possuem uma natureza inadministrável. O que isso significa? Que a ciência, especificamente a medicina, por mais avançada que seja, não possui os conhecimentos e os meios necessários para combater com eficiência os desafios provenientes da pandemia.

É exatamente por isso que as narrativas oficiais sobre esses eventos se alteram no decurso dos acontecimentos e, por conseguinte, acabam testemunhando as contradições que as autoridades governamentais se inclinam ou não a assumirem. Como exemplo, basta pensarmos no “embate” entre o atual ministro da saúde no Brasil, Luiz Henrique Mandetta, defensor do isolamento horizontal, e o presidente Jair Messias Bolsonaro, que tem qualificado o vírus como uma simples “gripezinha”.

Em tempo: tem ocorrido uma narrativa, inclusive de parte da esquerda brasileira, atribuindo ao ministro da saúde o papel de paladino da ciência. Ainda que pesem as medidas científicas e o discurso prudente adotado frente à pandemia, não podemos esquecer que ele é o responsável por diversas medidas contrárias à assistência médica aos mais fragilizados (fim do programa “Mais Médicos”; fim de políticas para soropositivos; fim da “Farmácia Popular”; corte de verbas do SUS; volta ao uso de manicômios, etc).

No Brasil, no decorrer do surto pandêmico, foram registrados aproximadamente 35 mil óbitos. A cidade do Rio de Janeiro, por ser naquela época a maior cidade do país, teve a maior quantidade de falecimentos. Estima-se que em apenas dois meses morreram quase 13 mil pessoas. Em termos comparativos, estamos lidando com cerca de 1/3 do total apontado no país. Se hoje é notório que o número de vítimas do Covid-19 é muito maior que o registrado, podemos facilmente deduzir que os números de 1918-19 estão muito longe da realidade.

O pico da pandemia no Brasil ocorreu em meados de outubro. Nesse mês a Diretoria Geral de Saúde Pública reconheceu a impossibilidade de controlar a gripe. Nesse cenário as cidades estavam paradas: escolas e indústrias, por exemplo, cessaram suas atividades. Houve crise de abastecimento de comida e de medicamentos, bem como de leitos hospitalares e até de urnas funerárias.

Entre os óbitos “famosos” do grupo hegemônico citamos o presidente eleito, Rodrigues Alves, que não conseguiu tomar posse para um segundo mandato na presidência (com um intervalo de 12 anos desde o primeiro) pois adoeceu perto da data da cerimônia (em novembro de 1918), vindo a morrer em janeiro de 1919. Aqui cabe uma última ressalva: ainda que a doença tenha efetivamente contagiado toda as classes sociais, ela não possuía efetivamente caráter “democrático”; afinal, quando analisamos com atenção nota-se que a maior parte das vítimas eram provenientes da massa popular, bem como daqueles grupos denominados pelo governo de “indigentes”.

Coincidência a parte, os especialistas de hoje também apontam que o Covid-19 fará inúmeras mortes aqui no Brasil entre pessoas das classes populares. Isso evidencia muitos problemas – entre eles a persistência da falta de vontade política em transformar a realidade social dos mais pobres.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

João Paulo Charrone. As calamidades de uma época: a pandemia de 1918 e seus impactos no mundo e no Brasil. Fora!. Acessado em 10 de abril de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/04/10/as-calamidades-de-uma-epoca-a-pandemia-de-1918-e-seus-impactos-no-mundo-e-no-brasil/>.

APA:

João Paulo Charrone. (10 de abril de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/04/10/as-calamidades-de-uma-epoca-a-pandemia-de-1918-e-seus-impactos-no-mundo-e-no-brasil/.

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