Visões sobre a pandemia: o futuro já é hoje

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Arte: Marcio Vaccari.

Muitos analistas concordam que a pandemia que nos assola a nível mundial anuncia (a necessidade de) um fim para o atual sistema de produção no qual a maioria dos países industrializados estão inseridos, e que alguns chamam de neoliberalismo ou simplesmente capitalismo. Mas o que virá depois? Como estará organizado? O que podemos esperar deste novo sistema mundial? Vejamos o que três especialistas têm pensado sobre isso, a partir de textos seus recentemente publicados: Slavoj Žižek, Bruno Latour e Eliane Brum.

O famoso filósofo Slavoj Žižek (publicado por Outras Palavras em 03/03/2020) talvez tenha sido um dos primeiros a mencionar o que seria, segundo ele, o potencial subversivo do novo coronavírus, que contém em si o prenúncio do fim do capitalismo e a necessidade de uma nova ordem mundial, uma sociedade alternativa que se atualiza nas formas de solidariedade e cooperação global. A resposta de Žižek à crise global é uma reorganização da economia a nível mundial, não mais à mercê dos mecanismos de mercado, isto é, uma forma de organização (“é óbvio que não estamos falando de comunismo às antigas”, ele diz) que consiga regular e controlar a economia como um todo, limitando a soberania dos estados-nação quando necessário.

Outra reflexão que se espalhou pelas redes sociais nas últimas semanas foi a do não menos conhecido antropólogo Bruno Latour (Imaginar os gestos-barreira contra o retorno da produção anterior à crise, publicado por Ctxt em 05/03/2020; versão em português aqui) no qual, apesar de um interessante questionário para auxiliar a autodescrição do leitor ao final, encontramos ecos do velho individualismo liberal voltado contra o modo de produção inspirado por ele mesmo: “o que o vírus obtém com a humilde cuspidela de boca em boca – a suspensão da economia mundial -, começaremos a imaginar através de pequenos gestos insignificantes, (…), a suspensão do sistema de produção”. A menção a Pierre Charbonnier e à ideia de um socialismo que discuta a produção em si mesma não muda o fato de que Latour parece propor uma versão pouco mais elaborada do “seja você mesmo a mudança que você quer ver no mundo”, localizando o fim do capitalismo numa soma de gestos individuais de parada ou de resistência à produção desenfreada.

Eliane Brum (O futuro pós-coronavírus já está em disputa, publicado por El País em 08/04/2020) talvez seja a autora cujo texto seja o mais combativo dos até agora citados e certamente é o mais interessante. Ele inclui uma extensa crítica ao neoliberalismo e ao acúmulo de riquezas por uma minoria da população mundial. Brum é bastante clara, a ponto de afirmar que nosso futuro depende de enterrarmos o sistema capitalista que exauriu o planeta nos trazendo até o tempo das pandemias. Contudo, “para isso também não serve o comunismo que explorou, destruiu vidas, corroeu a natureza e oprimiu os corpos. Precisamos encontrar outros caminhos”, afirma ela, sem especificar de que comunismo se trata[1]. Por fim, em elogio a Latour (já citado), a autora transcreve o questionário para autodescrição e em seguida elabora um chamado (“vamos?“) a partir da ideia de Ailton Krenak de adiar o fim do mundo. Aqui não é nem um socialismo planetário e nem um individualismo minimalista que aparece como proposta, mas um modo de existência, digamos assim, indígena. A cosmologia de Krenak e as cosmologias dos povos indígenas em geral orientam de fato muitos modos de existência paralelos àquele que é característico das sociedades industriais, o que não quer dizer que sejam as únicas a fazer isso.

Abdullah Ocalan e o partido dos trabalhadores curdos (PKK), por exemplo, lançaram as bases de um confederalismo democrático (em grande parte inspirado nas ideias de Murray Bookchin, anarquista norte-americano) por meio do qual o povo curdo organiza a região autônoma de Rojava, através de assembleias populares e conselhos, além de, até mesmo, um exército feminista, que realizou grande parte das operações de combate às forças do Estado Islâmico na região[2]. Temos também, em Chiapas, no sul do México, a conhecida experiência dos povos indígenas maya na criação de municípios autônomos, no que se convencionou chamar de neozapatismo, também organizado a partir de assembleias populares e conselhos de base. Há também a estratégia de El Alto, cidade boliviana vizinha à capital, La Paz, que usa instituições autônomas (nesse caso as chamadas juntas vecinales) como base para ganhar um papel no governo e ao mesmo tempo mantêm-nas como uma alternativa democrática completamente separada do governo[3]. Poderíamos ainda citar os sadristas (movimento populista islâmico com uma base de massa trabalhadora que se revelou extremamente bem sucedido em criar zonas de autogoverno nas cidades e vilas iraquianas, mesmo durante os anos de ocupação militar dos Estados Unidos), ou as ocupações de fábricas por trabalhadores argentinos durante a crise do início dos anos 2000, ou ainda outras experiências igualitárias, como as escolas não-hierárquicas (como a Escuela Moderna na Espanha ou o Movimento Free School nos Estados Unidos), os sindicatos radicais (CGT, na França; CNT, na Espanha; IWW, na América do Norte) e uma infinidade de comunas, largamente orientadas por princípios (ou cosmologias, ou ontologias) anarquistas ou comunistas, completamente alheios ao capitalismo ou ao liberalismo.

Assim, o primeiro parêntesis provocativo que gostaria de colocar após a leitura dos textos citados acima é que neles aparentemente apenas a pandemia nos obrigará a pensar no fim do capitalismo, quando na verdade já temos inúmeras tentativas de construir um novo regime ou uma nova forma de existência que seja paralela ou resistente ao sistema de produção capitalista. E isso mesmo dentro das sociedades industrializadas, não sendo algo somente relativo às sociedades que historicamente nada têm a ver com o capitalismo, como as sociedades indígenas do mundo todo. Analistas que não levam isso em conta passam a impressão de que nunca nada foi tentado como alternativa ao capitalismo, quando de repente nos sobrevêm um vírus “subversivo”.

O segundo parêntesis, à guisa de conclusão, refere-se à insistente negação do comunismo, que vem na maioria das vezes atrelada ou a uma concepção errônea do termo, isto é, fazendo-o equivaler ao regime autoritário de Stálin na URSS, ou então, de maneira simplificada, como ausência de um regime de propriedade privada. Comunismo, em sua definição original (dada pelos comunistas franceses, como Louis Blanc), se resumia no seguinte princípio: “de cada um segundo suas capacidades e a cada um segundo suas necessidades”. Segundo esta máxima fica evidente que comunismo é a base de todas as relações sociais amistosas, ou seja, a maioria das pessoas age para com as demais considerando que se a necessidade for grande o suficiente (por exemplo: salvar uma pessoa se afogando) ou o pedido for simples suficiente (por exemplo: fogo para acender um cigarro ou instruções para se chegar a um endereço), este será o padrão. Caminhamos sobre o terreno do que David Graeber chama de “comunismo de base”, um princípio de cooperação sobre o qual todas as sociedades humanas estão apoiadas – pois, afinal de contas, ninguém responderá à solicitação prosaica de um amigo “me passe o fogo?” acionando uma lógica de mercado de “o que eu ganho com isso?”. Sendo assim, acompanhamos a proposta de Graeber quando este diz que o capitalismo é apenas uma forma ruim de organizar tal princípio de ajuda mútua, de modo que o que temos que fazer é recuperar o comunismo, ou buscar formas de melhor organizar este comunismo de base. Para tanto, devemos levar em conta que ninguém será comunista 100% do tempo, já que sempre existirão várias relações não-amistosas em nossas vidas (sendo assim, não haverá sociedade completamente comunista) – mas ao mesmo tempo sabendo que o comunismo já está aqui, e já orienta a maior parte de nossas relações diárias, não sendo necessário esperar o fim da pandemia para percebê-lo.


[1] Distinção de fundamental importância já que, em tempos de pandemia, enquanto Estados Unidos compra loucamente equipamentos de proteção e respiradores da China, impedindo que outros países tenham acesso aos mesmos, Cuba envia médicos para vários lugares do mundo em auxílio aos países que mais necessitam.

[2] Cf A revolução ignorada:liberação da mulher, democracia direta e pluralismo radical no oriente médio, Autonomia Literária, São Paulo, 2016.

[3] Cf Graeber, David. Um projeto de democracia: uma história, uma crise, um movimento. Paz e Terra, São Paulo/Rio de Janeiro, 2015.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Vicente Cretton Pereira. Visões sobre a pandemia: o futuro já é hoje. Fora!. Acessado em 13 de abril de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/04/13/visoes-sobre-a-pandemia-o-futuro-ja-e-hoje/>.

APA:

Vicente Cretton Pereira. (13 de abril de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/04/13/visoes-sobre-a-pandemia-o-futuro-ja-e-hoje/.

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