Análise: demissão de Mandetta em meio à pandemia pode ser o atestado de óbito do combate efetivo ao coronavírus

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Elaborado pela Fiocruz e Brasil.io, este mapa indica o alcance do coronavírus no país em 15 de abril

O oncologista Nelson Teich assume o lugar de Luiz Henrique Mandetta, mas o que poderá realmente fazer?

Em um anúncio no Twitter, Luiz Henrique Mandetta comunicou sua demissão após uma reunião com o presidente Jair Bolsonaro. Não se trata de uma conclusão inesperada para o drama que se arrasta há semanas, acompanhado com afinco por milhões de brasileiros.

Nas redes sociais, o Ministério da Saúde deixou um presente de despedida: a informação de que atualmente há 30.425 casos confirmados de Covid-19 no Brasil, e 1.924 óbitos. Em 13 de abril, há meros três dias, eram 23.430 confirmações da doença e 1.328 o número de mortos.

Os dados disponíveis inclinam a concluir que foi uma decisão absolutamente temerária, para não falar perigosa. O impacto disto pode converter o país, em poucos dias ou semanas, em um cenário de filme-catástrofe, em virtude do potencial de elevar consideravelmente o número de contaminados.

É como mudar o piloto de avião durante a queda, com o agravante de que o novo comandante da aeronave, Nelson Teich, tem experiência com Cessna 172 de 4 ocupantes e agora precisa lidar com um Airbus A380 com centenas de passageiros.

Após a manifestação de Mandetta sobre a dispensa, Bolsonaro fez um pronunciamento para apresentar o novo ocupante da cadeira ministerial. O presidente, com ar abatido, disse que a demissão do agora ex-ministro foi consensual. O que até deve ser verdade. Mas o tom cansado, as pausas, e o esforço em ponderar as palavras revelam que o vitorioso no embate foi o funcionário demitido.

Fora da realidade paralela bolsonarista, Mandetta foi bastante elogiado pela gestão técnica e cientificamente embasada da crise pandêmica. Muitos esqueceram que além de não ser exatamente um santo, sua passagem pelo ministério, até a chegada do coronavírus no país, estava em perfeita harmonia com o projeto político presidencial que enfraqueceu o já combalido Sistema Único de Saúde.

Em termos de conteúdo, não houve novidades: Bolsonaro comentou sobre as ações tomadas pelo governo federal para combater o coronavírus. Também alertou que o caixa da União não suportará bancar a conta por muito tempo. Defendeu uma flexibilização gradual das atividades econômicas. Atacou governadores e prefeitos, comparando as atividades em nível estadual e municipal de enfrentamento à pandemia com uma declaração de Estado de Sítio. Frisou que tal medida é prerrogativa do presidente da república e do Congresso Nacional, mas fez questão de ressaltar que jamais usaria a força para suprimir o “direito constitucional de ir e vir”.

Quando o recém-chegado Teich tomou a palavra, explicou sua forma de enxergar o problema: defendeu que para lidar com a pandemia o melhor remédio é ter acesso ao maior número possível de informações confiáveis. Que isso evitaria a tomada decisões intempestivas baseadas na emoção. Deixou claro que não há oposição entre salvar vidas e salvar a economia, permitindo antever seu plano de realizar uma articulação entre instituições de saúde públicas e privadas.

O novo ministro também ressaltou que sem os dados necessários para se compreender efetivamente a doença e suas consequências, “testes” devem ser feitos para realmente conhecê-la. Não são testes somente no sentido de investigar a totalidade de pessoas contaminadas (medida inviável nas condições atuais). Isto significa, principalmente, experimentar outras políticas para tentar achar soluções que equilibrem saúde e economia.

É evidente que Nelson Teich encontra-se em uma posição pouco invejável. Seu histórico profissional leva a crer que se trata de um médico cuja prática é pautada por dados científicos. Continuando tal postura na nova ocupação, no que diferiria da forma de Mandetta conduzir a gestão ministerial durante a pandemia? Todos os dados disponíveis recomendam que no momento atual, o discurso de presidente não pode ser seguido. Como ele evitará os mesmos atritos de seu predecessor com a chefia?

Teich, ao contrário de Mandetta, não possui experiência política ou de gestão com a coisa pública. Contudo, o discurso de que “não há dados suficientes” é conveniente. Não contraria o ego presidencial, frágil e infantil. Afinal, se não há dados, é preciso “testar”. Outras possibilidades serão propostas. Serão ações diferentes das que foram colocadas em prática pela gestão anterior? Bem, se fosse para as coisas permanecerem as mesmas, a demissão não seria necessária.

Isto significa que deve haver alguma concordância de Teich com a visão de mundo de Bolsonaro. Pois testar implica em assumir riscos. E se mais pessoas morrerem por isso? Oras, o próprio mandatário da nação disse no pronunciamento sua preferência por errar tentando o acerto do que nada fazer. Implícita aí está a disposição em sacrificar parte da população, que de outra forma poderia continuar vivendo. E se assim o país retorna aos trilhos da normalidade o mais rápido possível, qual o problema?

De qualquer forma, a fatura será cobrada. Não se sabe exatamente em qual colo cairá, mas não será no de Mandetta: este sai de campo com popularidade substancialmente mais elevada do que a do próprio presidente. Bolsonaro tentará empurrá-la aos governadores e prefeitos, que ao recebê-la, a devolverão ao mandatário da nação.

De fato, o presidente é quem se opõe ao bom senso e à ciência, sabotando constantemente a gestão da crise pandêmica baseada em evidências realmente científicas e empíricas. O mais provável é que quando acabar a tragédia viral, sobre para Nelson Teich pagá-la. Isto é, se ele realmente aceitar o papel que Mandetta foi sábio o bastante para recusar.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Attila Piovesan. Análise: demissão de Mandetta em meio à pandemia pode ser o atestado de óbito do combate efetivo ao coronavírus. Fora!. Acessado em 16 de abril de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/04/16/analise-demissao-de-mandetta-em-meio-a-pandemia-pode-ser-o-atestado-de-obito-do-combate-efetivo-ao-coronavirus/>.

APA:

Attila Piovesan. (16 de abril de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/04/16/analise-demissao-de-mandetta-em-meio-a-pandemia-pode-ser-o-atestado-de-obito-do-combate-efetivo-ao-coronavirus/.

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