O genocídio armênio no Império Otomano

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Arte: Marcio Vaccari.

O termo genocídio foi colocado em circulação em 1944 pelo advogado polonês e descendente de judeus, o professor Rafael Lemkin. A família de Lemkin foi uma das vítimas do holocausto, e com esse termo ele descreveu a política sistemática de assassinato e violência dos nazistas, além do genocídio armênio de 1915 e as atrocidades cometidas contra este povo pelo Império Otomano.

Em 9 de dezembro de 1948 a Organização das Nações Unidas adotou a “Convenção para a prevenção e repressão do crime de genocídio”, documento que estipula o genocídio como crime internacional, no qual os signatários se comprometem a prevenir e punir os perpetradores de genocídio.

O que é o genocídio armênio?

Chama-se genocídio armênio os massacres da população armênia cometidos pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial.

Os massacres foram realizados pelo governo dos Jovens Turcos em várias partes do Império Otomano.

A data de 24 de abril de 1915 é comumente considerada o Dia da Memória das vítimas do genocídio, quando 600 intelectuais armênios foram presos em Constantinopla (atuaal Istambul).

O morticínio foi efetivado em várias etapas: desarmamento dos soldados armênios, evacuação seletiva das áreas de fronteiras, deportação em massa e assassinato. Alguns historiadores incluem os massacres hamidianos dos anos 1890, matanças em Esmirna e as ações das tropas turcas no Cáucaso em 1918.

Os principais organizadores do genocídio foram Memet Talaat, Ahmed Jemal e Ismail Enver, além de Behaeddin Shakir, líder da Organização Especial. Simultaneamente ao genocídio armênio, massacres de assírios e gregos pônticos também ocorreram no Império Otomano. A maior parte da diáspora armênia se origina com aqueles que foram deportados pelos otomanos e sobreviveram ao genocídio.

A primeira resposta internacional a estes acontecimentos foi em 1915, quando uma declaração conjunta da França, Rússia e Reino Unido, em 24 de de maio, descreveu a violência contra o povo armênio como um “crime contra a humanidade e a civilização”, responsabilizando o governo turco.

Por que aconteceu o genocídio armênio?

Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, o governo dos Jovens Turcos tentou preservar o que restava do Império Otomano, adotando a política do panturquismo, a criação de um vasto império turco que alcançaria a China, incluindo o Cáucaso e a Ásia Central. O plano exigia a “turquificação” de todas as minorias nacionais. A população armênia era vista como um grande obstáculo para a implementação deste programa.

Talvez o genocídio tenha sido planejado em 1911-12, mas os Jovens Turcos viram uma oportunidade para executá-lo com a irrupção da Primeira Guerra.

Qual o número de vítimas?

Às vésperas da guerra, mais de dois milhões de armênios viviam no Império Otomano. Cerca de 1,5 milhão de armênios foram mortos entre 1915 e 1923. Os demais foram convertidos à força ao Islã ou buscaram refúgio em várias partes do mundo. O mecanismo do genocídio é o extermínio organizado de um grupo de pessoas, sendo o objetivo principal o fim de sua existência coletiva. Assim, a realização do genocídio exige programação centralizada e mecanismos internos de implementação, configurando-o como crime de Estado, pois apenas um Estado detém todos os recursos que podem ser utilizados para efetivar esta política.

Vamos tentar compreender mais detalhadamente as fases supracitadas do genocídio.

A primeira fase do extermínio da população armênia começou em 1915, com as prisões de 24 de abril (principalmente em Constantinopla, a capital do Império Otomano) e a aniquilação subsequente de centenas de intelectuais armênios. Como mencionado, posteriormente os armênios de todo o mundo elegeram 24/04 como o dia para lembrar das vítimas.

A segunda fase foi o recrutamento de cerca de 60 mil armênios no exército turco, que posteriormente foram desarmados e assassinados por seus companheiros de armas turcos.

A terceira fase do genocídio se marcou pelo massacre e deportação de mulheres, crianças e idosos para o deserto sírio. Centenas de milhares de pessoas foram mortas por soldados, policiais e gangues turcas durante a deportação. Muitos morreram de fome e doenças. Milhares de mulheres e crianças foram abusados, e dezenas de milhares de armênios foram convertidos à força ao islamismo.

Por fim, a última fase do genocídio armênio é a negação absoluta das deportações e extermínios em massa da nação armênia em seu próprio território, feitos pelo governo turco. Apesar do processo contínuo de reconhecimento internacional do genocídio, a Turquia luta contra esta admissão de todas as formas possíveis, incluindo falsificação histórica, várias medidas de propaganda e lobby, dentre outras.

Reconhecimento do genocídio armênio

Em 25 de novembro de 1988 o Conselho Supremo da então República Socialista Soviética da Armênia adotou a Lei da Condenação do Genocídio Armênio de 1915 no Império Otomano, sentenciando o genocídio na Armênia Ocidental e Turquia como um crime contra a humanidade. A declaração de independência da Armênia em relação à União Soviética, adotada pelo Conselho Supremo em 23 de agosto de 1990, afirma que “A República da Armênia apoia o reconhecimento internacional do genocídio armênio na Turquia Otomana em 1915 e na Armênia Ocidental”.

Apesar de muitos países reconhecerem o genocídio, a República Armênia continua empenhada em manter a política de responsabilização e devota todos os esforços para confrontar a Turquia com seu passado. Um dos rumos da política externa da Armênia é a restauração da justiça histórica, para obrigar a Turquia a admitir seus crimes. Apenas pelo reconhecimento e condenação do genocídio é possível prevenir a ocorrência de tais atrocidades do mundo mais uma vez. Nós lembramos e exigimos!

Texto escrito originalmente em inglês por Anik Margaryan, com exclusividade para o Fora!. Traduzido por Attila Piovesan.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Anik Margaryan. O genocídio armênio no Império Otomano. Fora!. Acessado em 24 de abril de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/04/24/o-genocidio-armenio-no-imperio-otomano/>.

APA:

Anik Margaryan. (24 de abril de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/04/24/o-genocidio-armenio-no-imperio-otomano/.

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