Análise: os reais inimigos de Bolsonaro

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Arte: Marcio Vaccari.

Vamos deixar uma coisa clara: os inimigos dos bolsonaristas não são a “esquerda”, são os desenvolvimentistas. Gente como Ciro, Lula, Marina e Dilma.

Os bolsonaristas estão se lixando para gente como Boulos, bem como para o PSOL, o PSTU, o PCO, a ala mais antiga do PCB, o MPL, a federação anarquista gaúcha (ou a do Rio) e similares. Chamar tudo o que aparece de “esquerda” é apenas tática de propaganda da cúpula deles para manter a base mobilizada – a base deles não capta nuances de posicionamentos políticos e nem é interessante que aprenda sobre isso.

O leitor pode se perguntar: “Mas… Ciro, Lula, Dilma e Marina não são de esquerda?”. Caro leitor: se você coloca um herdeiro do coronelismo que se alia a ruralistas, um sujeito que bate no peito para dizer que os bancos nunca lucraram tanto quanto em seu governo (e elogia Bush em entrevistas), uma criatura que coloca neoliberais no Ministério da Fazenda e no comando do BACEN e uma outra que acredita em “desenvolvimento sustentável” no mesmo barco que anticapitalistas, retroceda duas casas – foi tão enganado(a) pelos rótulos quanto os bolsonaristas. Diga-se de passagem, perto de alguém tão radical quanto Bolsonaro e seus asseclas qualquer um pode ser considerado de esquerda, mesmo que não seja anticapitalista. É com base nessa homogeneização indevida que a comunicação política bolsonarista funciona.

Ser desenvolvimentista é uma posição legítima do campo político, não é necessário se travestir de esquerda – entendida, aqui, como anticapitalismo – para ganhar credibilidade ou aliviar uma consciência moral carregada de culpa. O que Lula, Marina, Dilma e Ciro pregam é keynesianismo – em diferentes proporções. Eles não recusam a dinâmica do capital; querem mitigar alguns de seus problemas.

Voltando ao assunto: o objetivo do governo Bolsonaro é estabelecer uma economia laissez-faire – também conhecida como “neoliberal” ou da “escola de Chicago”, intimamente relacionada à “escola austríaca”. Quem inspira o governo, indiretamente, são as ideias sobre livre-mercado de Hayek e Friedman – que Olavo de Carvalho também prega. E é por isso que a juventude da “nova” direita brasileira (que não tem nada de nova) fala tanto em Mises. O próprio Paulo Guedes, “posto Ipiranga”, é um “Chicago Boy” – estudou economia na Universidade de Chicago.

Acontece que a Escola Econômica de Chicago sempre pregou que um mercado totalmente desregulamentado é a única forma racional de lidar com a economia, que funciona, na cabeça deles, com regularidades equivalentes às que regem fenômenos naturais. Fenômenos como desemprego, inflação, câmbio desvalorizado e similares são, para os “Chicago Boys”, consequência de um mercado com presença indevida do estado. As “leis naturais” que regem o mercado tenderiam naturalmente a um equilíbrio que gera prosperidade e estabilidade – falácia naturalista inspirada pela ecologia (a ciência da ecologia, não o que o senso comum entende por ecologia). Daí a ânsia em privatizar tudo e em defender “estado mínimo”, bem como em “estimular a iniciativa privada”.

Os “Chicago Boys” fizeram seu primeiro experimento no Chile de Pinochet, como uma contrarrevolução para extirpar o desenvolvimentismo da CEPAL que era moda no Cone Sul. Deu errado e o país afundou na miséria, até que o próprio Pinochet jogou fora o programa deles e começou algumas reformas “estatizantes” em meados da década de 80. Tentaram o mesmo na Argentina e no Uruguai, e também no Brasil – que não foi tão longe quanto os vizinhos na adoção do programa neoliberal durante a ditadura, mas foi bem longe depois da redemocratização. E isso tem de ficar claro: nos quatro países, foi necessário instaurar ditaduras para o neoliberalismo entrar, em maior ou menor grau, no programa político.

Isso foi chamado de “doutrina do choque” pela jornalista canadense Naomi Klein. O programa neoliberal de “reformas” só tem como ser aplicado após choques profundos – guerras civis, ditaduras, invasão estrangeira, desastres naturais – que permitem que qualquer resistência a elas seja pequena e desorganizada. A estratégia dos EUA para destruição e posterior reconstrução do Iraque é mais um exemplo; os laboratórios do neoliberalismo exigem que um país se torne uma folha em branco, ou algo próximo disso, antes que os experimentos econômicos sejam colocados em ação. Por isso o Iraque foi “bombardeado de volta para a idade da pedra”, para citar frase de uma importante figura pública estadunidense.

Nos quatro países sul-americanos citados acima, não foi a “esquerda” o primeiro alvo dos regimes ditatoriais instaurados. Foram os desenvolvimentistas e republicanos. A esquerda propriamente dita só virou alvo em fases posteriores de endurecimento desses regimes; e, mesmo depois de eliminada, ainda foi usada para gerar paranoia social e justificar o prolongamento desses mesmos regimes através de propaganda. Se juntássemos toda a esquerda (genuinamente anticapitalista) que existia no Brasil entre 64 e 68 não encheríamos um avião comercial – como hoje também não. Suas hostes cresceram, ironicamente, depois do endurecimento da ditadura. É por isso que a falsa esquerda universitária brasileira de hoje – que são apenas liberais com consciência moral pesada que praticam auto-heroicização através de um discurso pseudo-militante – se surpreende com o que defendem atualmente figuras como Fernando Gabeira, Miriam Leitão e Aloysio Nunes, que foram parte da resistência contra a ditadura militar em suas juventudes.

Quanto à intersecção entre o bolsonarismo e o fundamentalismo religioso, parece ser uma repetição do que aconteceu na Indonésia na década de 60 – em que fanáticos religiosos foram transformados em milícias civis para caçar opositores à ditadura que estava se instaurando.

Tem que ficar bem claro que todos os desastres e absurdos que esse governo provoca dia após dia são uma forma de combater o keynesianismo e o desenvolvimentismo, e que seus alvos preferenciais são os atores políticos que jogam pelas regras do jogo – e não a “esquerda” sobre a qual tanto falam. Os anticapitalistas de verdade, em sua maioria, recusam as regras atuais do jogo político – e os bolsonaristas não estão nem um pouco preocupados com eles. Essa “esquerda” genérica da qual os bolsonaristas tanto falam só existe enquanto termo usado em propaganda para atiçar o imaginário dos convertidos. A política de terra arrasada que fazem se destina a criar um campo fértil para semear as “reformas dolorosas” da “liberalização da economia” que, na visão deles, é necessária para “salvar o país” de um suposto “estado inchado”; é exatamente por isso que, quando se pergunta para um bolsonarista se ele sabe o que é “comunismo”, ele responde que é a mesma coisa que “estado inchado” – mostrando que caiu na falsa equivalência entre “esquerda” e “estado grande” criada pela propaganda do atual regime. Enquanto isso não ficar claro, quem se opõe a esse governo vai continuar errando a análise sobre ele e, como consequência, errando na escolha das táticas a serem usadas.

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ABNT:

David G. Borges. Análise: os reais inimigos de Bolsonaro. Fora!. Acessado em 11 de maio de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/05/11/analise-os-reais-inimigos-de-bolsonaro/>.

APA:

David G. Borges. (11 de maio de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/05/11/analise-os-reais-inimigos-de-bolsonaro/.

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