Análise: tudo sobre a Silvercorp, empresa que enviou mercenários para derrubar Maduro

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Arte: Marcio Vaccari.

Na madrugada do dia 3 de maio outra crise se anunciava nas já tênues relações entre EUA e Venezuela. Foi naquele momento que a chamada Operação Gideão foi desmontada pelas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas e pelas Forças de Ações Especiais da Polícia Nacional Bolivariana na cidade de La Guaira, no estado venezuelano de Vargas.

Tratava-se de uma tentativa de infiltração de mercenários no território do país. A ação resultou em oito mortos e, até o momento, trinta e um capturados segundo alguns veículos de imprensa. O governo de Nicolás Maduro não hesitou em responsabilizar novamente os Estados Unidos, acusando-os de tomarem parte em uma tentativa de golpe de Estado que seria o objetivo dos mercenários.

O que poderia ser somente outra bravata do regime de Maduro tomou contornos sérios à medida que foi sendo revelada a identidade dos mercenários. Pois, além de dissidentes venezuelanos, foram capturados dois norte-americanos no grupo: Airan Berry e Luke Denman. Pouco tempo depois de anunciada a identidade dos capturados, um ex-boina verde de nome Jordan Goudreau reclamou a autoria da tentativa de invasão.

Goudreau, que é proprietário de uma empresa de segurança baseada na Flórida, chamada Silvercorp USA, assumiu que os dois americanos capturados são seus funcionários: “eles trabalham para mim, são meus rapazes”, disse em entrevista ao canal de TV norte-americano CNBC.

Goudreau não se limitou a assumir a autoria do incidente. Em entrevista ao site da rede jornalística Bloomberg, Goudreau ecoou as acusações do governo de Maduro de que o objetivo da operação seria implementar o caos social e político, e com isso tornar propícia a mudança de regime. “A missão principal seria libertar a Venezuela e capturar Maduro, mas a missão em Caracas falhou”, declarou ao telefone. “A missão secundária seria desencadear focos de insurgência contra Maduro. Eles já estão acampados, estão recrutando e nós vamos começar a atacar alvos táticos”, afirmou – ressaltando assim que a operação continua.

Mas o mais importante dessa entrevista foi ter confirmado seu envolvimento com a oposição venezuelana. Revelou o que seria uma gravação entre ele e alguém que parece ser o líder oposicionista Juan Guaidó. A exposição do áudio foi utilizada em uma tentativa de provar um envolvimento direto da Silvercorp com a oposição venezuelana. Uma conjuntura de circunstâncias que obrigou o governo de Donald Trump a se manifestar sobre o último imbróglio. Trump inclusive ironizou a acusação, afirmando que “se quisesse, faria em segredo” alguma ação de deposição e captura de Maduro.

Mas quem são Goudreau e a Silvercorp?

Imagem extraída de um vídeo promocional da Silvercorp.

De todas as peculiaridades que envolvem essa crise entre Venezuela e EUA, chama a atenção o fato de que aquilo que liga os dois países seja uma insignificante empresa de segurança privada que teria encarado uma oportunidade de arrecadar algum capital. Fundada em março de 2018 no estado norte-americano da Flórida, a Silvercorp afirma, em seu site, estar “operante em mais de 50 países” com fins de “construir um mundo seguro, enquanto almejamos o maior critério de confiança, qualidade e integridade”. Sua página institucional ainda ressalta que sua clientela seriam governos e agentes privados, e que seus objetivos são “providenciar liderança para crises, controle de riscos, complexos projetos de liderança e projetos de integração”. Embora se afirme hoje ser uma multinacional de segurança que oferece serviços obscuros, a Silvercorp aparentemente foi fundada com foco no mercado interno norte-americano. Em suas primeiras peças de propaganda, divulgadas por sua conta oficial do Instagram, a Silvercorp se utilizou de imagens de tiroteios em escolas para oferecer treinamento para policiais, professores e agentes de segurança, para que estes pudessem contra-atacar possíveis atiradores. O foco na segurança interna aparentemente deu resultado, pois teriam conseguido ser contratados para oferecer segurança à campanha de Donald Trump nos comícios de Charlotte, Carolina do Norte. Apesar disso, o governo Trump nega qualquer envolvimento com a Silvercorp e mesmo Goudreau afirma que não conseguiu estabelecer comunicação com Trump para comentar sobre seus planos para a Venezuela.

Certamente, dos serviços de segurança doméstica até o incidente na Venezuela, a Silvercorp acompanha as ambições de seu fundador e proprietário, Jordan Goudreau. Nascido no Canadá, Goudreau já tinha um histórico de passagem nas Forças Armadas Canadenses antes de se mudar para Washington D.C. e se alistar nas Forças Armadas dos Estados Unidos da América. Chegando a operar nos conflitos do Afeganistão e do Iraque, Goudreau chegou a alcançar o posto de sargento de primeira classe, e também obteve a cidadania estadunidense. Sua trajetória posterior à carreira militar é confusa e algo obscura. Sabe-se que teria trabalhado como segurança em Porto Rico no período de recuperação do furacão Maria. O empurrão para a fundação da Silvercorp veio com sua atuação ao ajudar a conter um tiroteio escolar em Parkland, onde 17 pessoas morreram.

Em sua vida pós-militar, chegou a ser investigado pelo o governo norte-americano por seu possível envolvimento com tráfico de armas. Suspeito de fazer parte de um esquema de escoamento de armamentos para grupos paramilitares de esquerda na Colômbia, como as FARC, Goudreau virou alvo de investigação do Drug Enforcement Administration, o DEA, órgão dos EUA responsável por lidar com o tráfico de drogas e armas. Esse episódio também poderia ser a chave do envolvimento da Silvercorp com a Venezuela, pois seria daí que Goudreau teria estabelecido contato com o outro nome-chave da Operação Gideão: o ex-general venezuelano Clíver Alcalá Cordones.

A Silvercorp e a oposição venezuelana

Jordan Goudreau anunciando nas redes sociais a “Operação Gideão”, ao lado de Javier Nieto Quintero, capitão reformado das forças armadas da Venezuela.

No que se sucedeu à admissão de responsabilidade de Goudreau contra as negações da oposição venezuelana, a conta do twitter de um jornal digital baseado em Miami, Factores del Poder, voltado aos dissidentes venezuelanos, publicou o que seria um acordo supostamente assinado por Guaidó e outros nomes da oposição, como o cientista político Juan José Rendón e o deputado Sergio Vergara, no qual estariam contratando os serviços da Silvercorp para a referida operação. O mesmo veículo também divulgou um vídeo onde Goudreau e Javier Nieto Quintero, ex-capitão das forças armadas da Venezuela, detalham os motivos, objetivos e o planejamento por trás da Operação Gideão. Tudo isso no calor do mesmo dia 3 de maio em que a operação foi frustrada.

No dia 6 de maio, membros da oposição venezuelana divulgaram ao jornal norte-americano Washington Post o que seria o verdadeiro contrato entre a oposição e a Silvercorp. Divulgado como forma de provar que o documento obtido pelo Factores del Poder seria uma falsificação, o documento do Washington Post apresenta a assinatura de boa parte do alto escalão da oposição venezuelana, mas não a de Guaidó. Com a divulgação desse documento, J.J. Rendón assumiu a responsabilidade por contratar os serviços da Silvercorp, chamando o documento de “um acordo preliminar que não chegou a ser efetivado”, mas confirmando que se tratava de sua assinatura.

Para além de possíveis plágios e exigências esquisitas da parte da Silvercorp – como uma cláusula que obrigava a presença da mídia para registrar as operações da organização em território venezuelano -, o documento detalha o procedimento de causar instabilidade no território da Venezuela, descrevendo os termos do acordo, mapeando as forças hostis aos seus objetivos e prevendo o sequestro de cidadãos venezuelanos para efetivar a operação.

Após a operação, o desenrolar dos acontecimentos deixou ainda mais pontas soltas que ainda precisam ser resolvidas. Como, por exemplo, a estranha publicidade que a Silvercorp fez para essa operação. A conta oficial da Silvercorp no Twitter divulgou a ação poucos minutos antes dela ser realizada; algo que pode comprometer qualquer conspiração sigilosa. Entram aí também as declarações de Goudreau, que em alguns momentos faz questão de revelar em detalhes a continuidade da operação, enquanto em outros ataca a oposição venezuelana por não cumprir com o acordo.

São esses pontos obscuros que levam a algumas conjecturas sobre as motivações da Silvercorp em ter se aventurado em um projeto fracassado de golpe de Estado. Uma bem provável seria de que Goudreau tentou “matar dois coelhos com uma cajadada só”, fechando um acordo milionário com a oposição venezuelana e, com a captura de Maduro, buscava também a recompensa oferecida pelo governo norte-americano pelo mandatário venezuelano. Mas recentemente a oposição venezuelana mudou o tom e considera que possa ter caído em uma armadilha do próprio governo de Maduro. Afinal, os serviços de inteligência venezuelanos pareciam já ter conhecimento prévio do plano. Soma-se a isso o caráter completamente amador da operação e o jeito ensaiado dos interrogatórios de Airan Berry e Luke Denman. Assim, tem crescido a hipótese de que o próprio regime de Maduro tentou persuadir dissidentes venezuelanos a encararem uma missão suicida, conforme aventado por Rendón na sexta-feira, dia 08 de maio: “houve uma operação falida, houve um empurrão a jovens valentes para que fossem a uma missão suicida. Donde eles (o governo Maduro) estavam esperando para montar um teatro, culpar o presidente (Guaidó), a nossa comissão, e os presidentes Duque e Trump”.

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ABNT:

Gabriel Caio Corrêa Borges. Análise: tudo sobre a Silvercorp, empresa que enviou mercenários para derrubar Maduro. Fora!. Acessado em 11 de maio de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/05/11/analise-tudo-sobre-a-silvercorp-empresa-que-enviou-mercenarios-para-derrubar-maduro/>.

APA:

Gabriel Caio Corrêa Borges. (11 de maio de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/05/11/analise-tudo-sobre-a-silvercorp-empresa-que-enviou-mercenarios-para-derrubar-maduro/.

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