Análise: organização popular frente à pandemia

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Arte: Marcio Vaccari.

Em artigo passado publicado por este mesmo veículo concluímos uma breve análise sobre alguns discursos pós-pandêmicos com a sugestão do antropólogo David Graeber de “recuperar o comunismo”, entendido como um regime de moralidade baseado no principio de ajuda mútua: de cada um de acordo com suas capacidades para cada um de acordo com suas necessidades, como dizia o lema dos velhos comunistas franceses. Neste texto a intenção é reunir casos concretos onde a organização popular e a ajuda mútua estão fazendo a diferença no enfrentamento ao coronavírus.

O primeiro exemplo a me chamar a atenção para este tema foi o da China, onde a organização popular faz parte do projeto estatal há décadas. O segredo da China para enfrentar com sucesso o coronavírus é um estado populista, pró-público e orientado pela ciência, aliado a uma sociedade bem organizada. Organização e cultura de disciplina foram a chave do sucesso do país durante a epidemia. Comitês de vizinhança, sobre os quais escreveu o professor Adnan Akfirat, ficavam responsáveis por medir a temperatura das pessoas e impedir a doença de se espalhar, sendo provavelmente a mais importante linha de defesa do país contra o vírus. Implementadas nos anos 1950 como unidades de governança do povo, os Comitês foram institucionalizados por sugestão do próprio Mao. Desde então suas responsabilidades incluem: instruir a vizinhança sobre a constituição, políticas e leis; ajudar a legitimar os direitos dos residentes; organizar eventos na comunidade; estabelecer a paz diante de pequenos desentendimentos; ajudar com a segurança pública; governar a higiene das áreas comuns; levar necessidades e sugestões dos cidadão até o governo, entre outras.

Como os Comitês têm sido há décadas a menor unidade de governança no país capaz de promover disciplina e ordem, toda essa experiência foi ativada quando a covid-19 emergiu, dando oportunidade às pessoas de atualizarem sua incrível capacidade de mobilização. Graças a isso 98% dos 11 milhões de habitantes de Wuhan passaram por triagem médica. Os voluntários dos Comitês também entregaram comida para aqueles que não podiam sair de casa e asseguraram que toda a população tivesse acesso a cuidados básicos de saúde e higiene. Com tais ações os comitês ajudaram de forma decisiva a manter o distanciamento social e, evitando que muitas pessoas de saíssem de casa, os comitês de vizinhança certamente contribuíram de maneira decisiva para barrar a proliferação do vírus na China.

No Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) orientou sua militância a respeitar o isolamento social desde o dia 13 de março de 2020, tendo como base os protocolos da Organização Mundial de Saúde. A exceção são as famílias de agricultores, que precisam continuar trabalhando para garantir a produção de alimentos tanto em suas próprias comunidades como nas grandes cidades. No Paraná dez mil famílias (distribuídas em 70 acampamentos do MST) doaram cinco toneladas de alimentos para famílias carentes dos municípios de Castro e Ponta Grossa. As doações integram uma ação coordenada, que envolve vinte cooperativas em todo o estado. No âmbito do Comitê Gaúcho de Emergência no Combate à Fome, o MST doou doze toneladas de arroz orgânico para famílias de baixa renda da periferia de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina álcool em gel está sendo produzido pelo movimento e sendo doado aos hospitais. Em Goiânia o MST distribuiu alimentos para trinta famílias na região noroeste da cidade, em uma iniciativa conjunta com Levante, Coletivo e Brigada do Congresso do Povo. Em Recife (PE) marmitas foram distribuídas pela Armazém do Campo, loja do MST que vende produtos orgânicos. No sertão pernambucano assentados do movimento distribuíram mais de três toneladas de frutas e verduras para famílias de bairros pobres dos municípios de Santa Maria de Boa Vista e Petrolina. Ainda nesse estado, o Armazém do Campo Caruaru distribui diariamente 150 refeições (marmitas) para famílias do município. Na Paraíba o MST, em parceria, com o Ministério Público Federal, organizou uma campanha de solidariedade chamada Leite Fraterno, para fornecimento de leite para a população em situação de vulnerabilidade no estado.

No âmbito nacional foi lançada, em parceria com outras entidades, as campanhas “Vamos precisar de todo mundo” e “Periferia viva”. Ainda, em relação à saúde, médicos do MST formados em Cuba estão de plantão em cada estado brasileiro para atender a população. “Estamos em contato com as secretarias municipais e as secretarias estaduais de saúde, e com os hemocentros de cada estado. É assim que estamos pensando as melhores estratégias para que nossa base não saia de onde está, evite aglomerações e a propagação do coronavírus, mas que também, neste momento, possamos ser solidários com quem mais necessita, tendo em vista que os bancos de sangue estão com um déficit muito grande em nível nacional”, explica Edinaldo Novaes, da direção nacional do setor de saúde do movimento.

Ainda no Brasil, logo no início da pandemia, uma das maiores favelas de São Paulo, Paraisópolis, contratou, via União dos Moradores, ambulâncias, médicos e enfermeiros. Mais recentemente, 240 moradores foram capacitados para atuarem como socorristas em 60 bases de emergência na comunidade, uma para cada microrregião do local. A União dos Moradores também contratou 12 bombeiros para atuar nestas bases junto aos socorristas. As ações foram possíveis graças a uma campanha de financiamento coletivo feita pela organização dos moradores pela internet.

No Rio de Janeiro as iniciativas de moradores de favelas e organizações comunitárias vão desde carros com alto-falantes tocando funk com letras sobre prevenção à covid-19, até mapeamento dos territórios para identificar casas e regiões com mais risco. Os grupos estão coletando doações para compra de itens de higiene e cobrando o Estado para que sejam resolvidos problemas de falta d’água. Na Rocinha, placas na porta com os dizeres “aqui tem idoso” foram colocadas, para facilitar a distribuição de materiais de higiene e alimentos, e também estimular os jovens a oferecerem ajuda. O coletivo A Rocinha enviou por WhatsApp um questionário para entender quais são as principais demandas da população e onde elas estão. As organizações comunitárias, em geral, também têm feito propostas concretas às autoridades, sugerindo a liberação de cestas básicas e kits de higiene, distribuição de água, contratação de agentes comunitários de saúde e catalogando lugares para enviar pessoas doentes, como hotéis. Há também sugestões de medidas econômicas para garantir moradia e abastecimento de água e energia aos que podem vir a ficar sem recursos para pagar contas.

No México, em um comunicado, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) declarou alerta vermelho em suas cidades, comunidades, bairros e em todas as instâncias organizativas zapatistas. Os zapatistas pararam as atividades nos seus caracoles e municípios autônomos levando em conta a falta de informações e a ausência de um plano real para enfrentar a ameaça da pandemia. Também colocaram postos de controle e de higienização na entrada das comunidades e adotaram uma quarentena preventiva para aqueles que retornam das cidades a seus povoados. Medidas de higiene e sanitárias, com bases científicas, são transmitidas por rádio para todas as comunidades, cidades e bairros zapatistas. O movimento zapatista também pede que as lutas contra o feminicídio, pela defesa do território e da Mãe Terra, pelos desaparecidos, assassinados, presos e pela humanidade não sejam esquecidas. O texto termina dizendo: “Chamamos a não perder contato humano, mas mudar temporariamente as formas de nos entendermos como companheiras e companheiros, irmãs e irmãos”.

Em El Alto, na Bolívia, a associação de médicos tradicionais Inca Roca instalou dez cabines artesanais para nebulização com eucalipto, wira wira e camomila. A população da cidade, composta basicamente de migrantes aymará, confia nas propriedades benéficas destas plantas — antibacterianas, expectorantes, febrífugas e sudoríficas — que, segundo os médicos tradicionais, ajudam a criar tecido imunológico contra o coronavírus. As plantas são velhas conhecidas dos indígenas bolivianos, que utilizam-nas quando estão resfriados, e mesmo a farmácia nacional as inclui em sua posologia como, por exemplo, em antitússicos. Em Oruro, também na Bolívia, cabines desinfetantes em grande escala foram construídas.

Obviamente uma pesquisa mais demorada nos revelaria mais casos, como as variadas campanhas de arrecadamento e doação que não param de viralizar nas redes sociais, o fechamento de aldeias e reservas indígenas pelos próprios moradores, o feitio e a distribuição de máscaras por costureiras idosas, e assim por diante. Diante de tudo isso, podemos concluir que de fato grande parte das pessoas, quando apresentadas cruamente à necessidade dos outros, se inclina a solidarizar-se e ajudar, sem fazer cálculos. O comunismo seria assim a argamassa do edifício social, isto é, relações baseadas na ajuda mútua, na solidariedade e cooperação – e isso, em qualquer sociedade. O capitalismo, por sua vez, é tão somente um modo desastroso de administrá-lo, como afirma David Graeber em Anarquismo no século 21 e outros ensaios. O período pandêmico está mostrando de maneira urgente que precisamos achar um modo melhor, um que não nos deixe, a todos, tão sistematicamente em pé de guerra. Um modo mais democrático.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Vicente Cretton Pereira. Análise: organização popular frente à pandemia. Fora!. Acessado em 21 de maio de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/05/21/analise-organizacao-popular-frente-a-pandemia/>.

APA:

Vicente Cretton Pereira. (21 de maio de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/05/21/analise-organizacao-popular-frente-a-pandemia/.

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