O Brasil na encruzilhada: crise com Pequim ou alinhamento com Washington

Tempo de leitura: 8 minutos

Por Raphael Tsavkko Garcia – jornalista, bacharel em relações internacionais e doutor em direitos humanos pela Universidad de Deusto, Espanha.


Antes de assumir o cargo de chanceler do Brasil, Ernesto Araújo era apenas um obscuro diplomata no Ministério das Relações Exteriores.

No entanto, já era conhecido pela extrema-direita brasileira por manter um blog em que defendia o presidente americano Donald Trump e por suas teorias de conspiração – que ele continua promovendo, mas com um alcance infinitamente maior e mais capacidade de causar danos à política externa do país.

Para se tornar chanceler, o Ministério das Relações Exteriores teve que acelerar a promoção de Araújo de ministro de segunda classe para ministro de primeira classe, apesar de nunca ter chefiado uma missão diplomática no exterior antes de se tornar ministro das Relações Exteriores. E sua atuação é prova de sua incapacidade política e diplomática, que resultou na perda de espaço do Brasil no cenário internacional após anos de construção de uma política externa proativa que buscava influenciar em questões de grande relevância global.

Na mesma linha, o presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro, também buscou a mesma agenda com o objetivo de desfazer as políticas dos governos anteriores, ao mesmo tempo em que buscou um alinhamento praticamente automático e sem precedentes com Washington em uma série de grandes questões. Além disso, ele apoia fortemente a formação de uma aliança internacional entre a extrema-direita global, incluindo os EUA, Hungria, Polônia e Israel – cujos benefícios econômicos para o país permanecem duvidosos até hoje.

Em seus primeiros meses como presidente, Bolsonaro decidiu alterar a posição tradicional do Brasil de buscar uma solução negociada para o conflito israelense-palestino para um apoio incondicional a Israel. Como parte de sua visita a Israel, ele até anunciou a mudança da embaixada brasileira em Jerusalém – ainda que tenha se contentado apenas com uma representação comercial.

Com os chamados valores cristãos no centro de sua lógica de política externa, o Brasil sofreu inúmeros reveses com consideráveis ramificações políticas e econômicas. Por exemplo, o Brasil, num movimento sem precedentes, se colocou ao lado de países conhecidos por seus duvidosos registros de direitos humanos nas votações do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre questões de diversidade, gênero e direitos reprodutivos.

Em fevereiro do ano passado, o Brasil embarcou em uma tentativa frustrada de enviar ajuda humanitária à Venezuela, num esforço para desestabilizar o regime de Nicolás Maduro e ao mesmo tempo agradar a Washington, o que acabou levando a tensões mais amplas na região.

Um mês depois, durante uma visita a Washington, Bolsonaro anunciou que iria desistir de seu status de país em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio em troca da entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No início deste ano, os EUA também manifestaram seu apoio oficial à adesão do Brasil à organização, mas ainda não se sabe quando o processo terá início ou quanto tempo levará.

Apesar do apoio dos EUA, o Brasil ainda terá de convencer o chefe do grupo de trabalho anticorrupção da OCDE, Drago Kos, que disse que o Brasil terá que explicar as razões por trás da renúncia do então Ministro da Justiça Sergio Moro – uma condição prévia para a aceitação do país dentro da instituição. Vale ressaltar que o presidente Bolsonaro é acusado de interferência ilegal no trabalho da Polícia Federal que levou à renúncia de Moro.

Claramente, é bastante difícil entender como a relação especial do Brasil com os Estados Unidos tem realmente servido aos interesses nacionais. Da ameaça de aumento das tarifas do aço à possível imposição de restrições aos voos provenientes do Brasil (efetivamente implementada esta semana), os EUA têm demonstrado que viram as costas ao Brasil em momentos críticos. Embora a política externa brasileira de extrema-direita e seu alinhamento incondicional com os EUA não tenha trazido nenhum resultado positivo para o país, ela certamente levou a confrontos desnecessários com a China – e que podem custar caro.

Não é novidade que Bolsonaro adotou postura anti-China e usou de retórica dura contra o país antes de ser eleito. Entretanto, ao se tornar presidente se viu forçado a adotar uma linguagem mais diplomática em relação à China. No entanto, seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, assim como alguns de seus ministros de governo, decidiram seguir em rota de colisão com Pequim.

Em março, Eduardo Bolsonaro culpou a China, no Twitter, pela pandemia da COVID-19, à qual o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, respondeu prontamente, abrindo uma grave crise diplomática entre os dois países. A reação do ministro das Relações Exteriores foi de emitir uma declaração, esclarecendo que os comentários do filho do presidente não refletiam a posição do governo brasileiro. Embora a declaração ainda terminasse com a acusação ao embaixador chinês de sua “reação desproporcional”, que “feriu a boa prática diplomática”.

Duas semanas depois, o Ministro da Educação Abraham Weintraub escreveu no Twitter que a pandemia serviria ao desejo da China de “dominar o mundo”. Em seu tweet, que mais tarde foi apagado, Weintraub também ridicularizou o sotaque chinês, o que escandalizou muitos que consideraram seu comentário racista. O Supremo Tribunal Federal também abriu uma investigação contra o ministro, que achou ainda uma boa ideia chantagear a China dizendo que só pediria desculpas ao país se os chineses concordassem em vender respiradores para o Brasil. Ironicamente, foram os Estados Unidos que confiscaram uma carga de 600 respiradores que haviam partido da China para o Brasil e que só deveriam transitar via Miami.

A postura brasileira, representada pelos discursos de ministros e políticos, coloca em risco as relações comerciais do Brasil com um de seus maiores parceiros comerciais. Recentemente, a China anunciou que iria aumentar sua compra de produtos agrícolas norte-americanos, alegando que a cadeia de suprimentos brasileira não está segura devido à pandemia.

E a promessa logo se tornou realidade, em 12 de maio a China anunciou a compra de um milhão de toneladas de soja dos EUA em detrimento do produto brasileiro.

O setor agrícola, um dos pilares de apoio de Bolsonaro, já mostra insatisfação com a política externa brasileira — uma parte considerável do setor é muito dependente da China. Já enfraquecido após as acusações feitas por Moro, Bolsonaro não pode se dar ao luxo de perder o apoio deste setor. Na verdade, a situação pode se agravar ainda mais quando a China decidir transformar suas críticas diplomáticas em ações mais concretas e retaliações comerciais contra o Brasil.

Em meio a uma grande crise econômica e política, o Brasil não pode se dar ao luxo de alienar um de seus principais parceiros econômicos. Na ordem mundial pós-COVID-19, o Brasil precisa redefinir sua política externa com base em interesses nacionais e não em ideologia se quiser trazer crescimento econômico e recuperar sua legitimidade e influência na arena internacional.


Publicado originalmente, em inglês, pelo Institute for Peace and Diplomacy. Publicado no Medium do autor, e reproduzido aqui sob permissão do mesmo.

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ABNT:

Redação do Fora!. O Brasil na encruzilhada: crise com Pequim ou alinhamento com Washington. Fora!. Acessado em 12 de junho de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/06/12/o-brasil-na-encruzilhada-crise-com-pequim-ou-alinhamento-com-washington/>.

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Redação do Fora!. (12 de junho de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/06/12/o-brasil-na-encruzilhada-crise-com-pequim-ou-alinhamento-com-washington/.

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