Cuba e Vietnã na pandemia: o que países pobres e socialistas fizeram para combater o Covid-19

Tempo de leitura: 11 minutos
Arte: Marcio Vaccari.

Em artigo anterior, publicado nesta mesma mídia[1], tratamos de algumas iniciativas populares de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. Neste iremos abordar as estratégias de países pobres e socialistas (ou “em transição socialista”, como também se diz): Cuba e Vietnã. Não obstante, nosso objetivo está longe de equacionar ideologia política com eficácia no combate à Covid-19, já que, como se sabe, países tão capitalistas quanto Suíça, Noruega ou Nova Zelândia também vêm tendo sucesso em suas estratégias. O ponto principal aqui é pôr em relevo ações simples e práticas que governos efetivamente preocupados em salvar a população de seus países poderiam adotar.  

Em Cuba, a estratégia de rastrear e isolar os possíveis transmissores da doença, mesmo que assintomáticos, foi um dos principais fatores responsáveis pelo sucesso da ilha no enfrentamento à pandemia[2]. Possíveis doentes foram buscados de casa em casa pelos profissionais de saúde cubanos, o que fez com que o país alcançasse o pico de transmissão antes do previsto. Já em abril praticamente todos os assintomáticos se encontravam em isolamento em algum centro de saúde, mesmo que simplesmente por terem tido contato com algum caso positivo. “Se eu detecto um paciente confirmado para a Covid-19, busco a última pessoa que possa ter tido contato com ele nos últimos 14 dias e que possa ter se infectado”, afirmou o diretor de Epidemiologia do Ministério da Saúde de Cuba (Minsap), Francisco Durán, ao site G1. Cuba testa todos os contatos de cada caso confirmado e mesmo quando o resultado é negativo a vigilância se mantém atenta ao aparecimento de sintomas. Aqueles que apresentam sintomas imediatamente recebem tratamento “como se tivessem” Covid-19. Além de utilizar plasma de pacientes já recuperados, cloroquina e azitromicina (conforme cada caso), o arsenal farmacêutico de que dispõe o sistema de saúde cubano inclui ainda o antiviral Interferon Alfa 2B, que ajuda a reforçar as defesas do corpo humano.

Desde março milhares de estudantes de medicina cubanos vasculham todos os cantos do país em busca de casos de Covid-19, questionando a população acerca de sintomas respiratórios, tosse seca ou febre. Ao detectarem suspeitos, relatam imediatamente às unidades centrais de atendimento. A busca de casa em casa é considerada pelos gestores de saúde da ilha como uma garantia de sucesso, e a este método atribuem as poucas mortes (84 até agora), pois a maioria dos doentes são identificados e tratados a tempo. Chegar ou não a um “estágio epidêmico vai depender exclusivamente de quantos casos conseguiremos diagnosticar e isolar, identificar os contatos, mas mais do que tudo da capacidade de cooperação dos cidadãos”, apontou o ministro de saúde cubano, José Portal, ao site G1.

No dia 11 de junho Cuba registrou nova morte pela doença, após doze dias sem mortes – de um homem de 80 anos que sofria com outras doenças crônicas. Ao todo Cuba teve, até o momento, 2.248 casos do novo coronavírus, tendo realizado 127.042 exames PCR (a maioria dos exames são provenientes da China). Os novos casos têm mantido a tendência de menos de dez por dia, de modo que o governo considera a epidemia controlada na ilha[3].

O caso do Vietnã chama ainda mais a atenção, já que o país está localizado próximo à área de onde se espalhou o novo coronavírus, no sudeste asiático. No entanto, não apresenta nenhuma morte por Covid-19 até o momento e conta com somente 334 casos positivos[4]. Como, então, um país com 95 milhões de habitantes, alta densidade populacional, menos de um terço da renda per capita do Brasil, um sistema de saúde precário e 1,4 mil quilômetros de fronteira com a China, origem do surto, conseguiu, aparentemente, vencer o vírus? Segundo o site da BBC Brasil[5], a resposta está na combinação dos seguintes fatores: testagem agressiva, quarentena rigorosa e rastreamento de contatos dos doentes. O país também recorreu a uma ampla campanha de conscientização da população, com ajuda de tecnologia e artistas populares.

O país agiu rápido: ainda em janeiro, quando os primeiros casos apareceram, a Vietnam Airlines interrompeu todos os voos para a China, Taiwan e Hong Kong. Logo depois a fronteira com a China foi fechada. Nas semanas seguintes o país implementou medidas como fechamento das escolas, cancelamento da totalidade dos voos internacionais e obrigatoriedade do uso de máscaras pela população. Aglomerações com mais de trinta pessoas passaram a ser proibidas, o que impediu a realização de vários festivais, cerimônias religiosas e eventos esportivos. No início de abril o Vietnã iniciou o confinamento da população, antes de muitos de seus vizinhos.

Como a infraestrutura de saúde pública do país é precária, o governo concentrou esforços na realização de testes em massa e rastreamento agressivo de contatos de pessoas que tivessem testado positivo para Covid-19, repetindo tática utilizada há mais de uma década no combate a uma epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla em inglês); porém, em escala muito maior: até 30 de abril o país havia realizado 261 mil testes e isolado dezenas de milhares de pessoas. Testando 900 pessoas para cada caso confirmado, em média, o Vietnã teve a maior taxa de testes por caso confirmado do mundo e chegou mesmo a fabricar seu próprio kit de teste, exportando parte deles para a Europa e os Estados Unidos.

A testagem e o rastreamento de contatos, segundo a BBC, são baseados em um princípio de quatro níveis anunciado pelo Ministério da Saúde vietnamita: nível 1, pacientes de Covid-19 confirmados e seus contatos diretos (isolamento e tratamento em hospitais); nível 2, contatos próximos com o nível 1 (isolamento em estruturas montadas pelo governo); nível 3, contatos próximos com o nível 2 (auto-isolamento em casa); nível 4, lockdown do bairro/vilarejo/ cidade onde o paciente mora. Para localizar e isolar os novos casos o histórico dos pacientes confirmados com Covid-19 era lançado nas redes sociais e nos jornais locais, de modo a buscar pessoas que pudessem ter tido contato com eles. Também foi lançado um aplicativo para que as pessoas alertassem as autoridades sobre suspeitas de infecções em suas áreas. Além disso, todas as pessoas que entravam no país eram obrigadas a apresentar um atestado de saúde, com declarações falsas sendo passíveis de multa ou mesmo prisão.

O Vietnã é um estado com décadas de experiência em mobilizar sua população para o enfrentamento de guerras e surtos de doenças. E foi assim que a epidemia de Covid-19 foi definida desde o início: uma guerra. Médicos e enfermeiros eram chamados de “soldados”, o Comitê Nacional de Prevenção e Controle de Covid-19 foi chamado de “quartel-general”. Não só a linguagem da guerra foi revivida, mas os militares tiveram papel fundamental no enfrentamento ao surto: as forças armadas ficaram responsáveis pela logística da alimentação, do transporte e da acomodação das milhares de pessoas em quarentena.

Praticamente todos os setores da economia do país se voltaram para o combate à pandemia, incluindo aviação, saúde e produção de alimentos, enquanto mensagens de texto e transmissões televisivas incentivavam a população a doar para os fundos de prevenção à doença. O governo contratou cantores pop famosos para produzir uma música educativa sobre o vírus, artistas para criar pôsteres, e também usou figuras jovens e influentes para levantar os ânimos daqueles que tiveram que se isolar.    

No início de abril o Vietnã anunciou um estímulo de 2,5 bilhões de dólares para a população mais pobre, que passou a receber um auxílio de 76 dólares por semana. “Caixas eletrônicos de arroz” e “lojas zero Dong[6]” foram criados nas principais cidades para ajudar os mais afetados pela pandemia. Mas, apesar da previsão de baixa na taxa de crescimento em relação ao ano passado, os setores de manufatura, serviços e varejo já estão em retomada. Segundo a economista vietnamita Nguyen Van Trang, o país conta com a resiliência de grande parte da população, que sobreviveu à guerra, e podem se recuperar rapidamente. Mesmo com prognósticos sociais e econômicos não muito favoráveis (como na maioria dos países do mundo), o Vietnã parece, de fato, ter vencido o coronavírus, principalmente se comparado com alguns de seus vizinhos[7]: Cingapura tem 40.818 casos e 26 mortes, e Indonésia tem 39.294 casos e 2.198 mortes[8], por exemplo.

Aparentemente, tanto Cuba quanto Vietnã compartilham de uma preocupação com o cuidado em relação ao povo. Por outro lado, a população destes países parece disposta a cooperar com as políticas propostas pelos seus governos, principalmente quando se trata de resolver um problema ou vencer um desafio em comum (vide, por exemplo, o modo como o povo cubano se organiza anualmente para enfrentar a passagem dos furacões, comuns no Caribe em certa época do ano). Finalmente, vale notar que quando tratamos de situações emergenciais como calamidades ou epidemias, mais vale um governo organizado que planeja e projeta vários aspectos econômicos e sociais do que um outro que se exime disso em nome do “mercado”, o que em última instância apenas favorece os grandes conglomerados internacionais.


[1] https://fora.global/2020/05/21/analise-organizacao-popular-frente-a-pandemia/ acesso em 15 de junho de 2020.

[2] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/04/30/covid-19-sucesso-de-cuba-durante-pandemia-vem-do-controle-de-assintomaticos.ghtml acesso em 15 de junho de 2020.

[3] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2020/06/11/apos-11-dias-cuba-volta-a-registrar-morte-por-covid-19.htm acesso em 15 de junho de 2020.

[4] https://www.worldometers.info/coronavirus/country/viet-nam/ acesso em 15 de junho de 2020.

[5] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52584143 acesso em 15 de junho de 2020.

[6] Dong é a moeda vietnamita.

[7] O Vietnã só não se saiu tão bem quando comparado à Coréia do Norte que não possui casos de covid-19 (https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/05/03/sem-casos-confirmados-situacao-da-covid-19-na-coreia-do-norte-e-incerta.ghtml). Aqui o leitor encontra mais detalhes sobre as estratégias adotadas pelo país: https://cepsongunbr.com/2020/03/17/coreia-do-norte-nao-tem-nenhum-caso-de-coronavirus/ (acesso em 15 de junho de 2020).

[8] https://www.worldometers.info/coronavirus/#countries acesso em 15 de junho de 2020.

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Vicente Cretton Pereira. Cuba e Vietnã na pandemia: o que países pobres e socialistas fizeram para combater o Covid-19. Fora!. Acessado em 25 de junho de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/06/25/cuba-e-vietna-na-pandemia-o-que-paises-pobres-e-socialistas-fizeram-para-combater-o-covid-19/>.

APA:

Vicente Cretton Pereira. (25 de junho de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/06/25/cuba-e-vietna-na-pandemia-o-que-paises-pobres-e-socialistas-fizeram-para-combater-o-covid-19/.

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