Por quê os nazistas admiravam a legislação dos EUA para os povos indígenas?

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Arte: Marcio Vaccari.

O imaginário popular geralmente separa de maneira radical o regime liberal dos EUA de regimes totalitários como o da Alemanha nazista. No entanto, como iremos mostrar, há muito mais semelhanças entre ambos os regimes do que os defensores da democracia liberal gostariam de admitir. Pode-se mesmo dizer que os EUA foram precursores de algo que os nazistas alemães deram continuidade, mas para compreender isso é preciso levar em conta as relações estabelecidas pelo estado norteamericano e os povos indígenas.

O apetite do público norteamericano por livros, filmes documentários e shows de TV com a temática nazista parece ser insaciável. Em parte, isso se dá porque as histórias da II Guerra trazem a memória de um tempo no qual os EUA eram uma superpotência de “coração bom”, a salvar uma Europa arrasada pelo totalitarismo. Porém, se olharmos de perto, há mais continuidades do que rupturas entre os EUA e a própria Alemanha nazista, como, por exemplo, a importação de cientistas alemães no pós-guerra, o que deu aos primeiros uma tecnologia de destruição em massa talvez nunca imaginada por Hitler. Mas, antes disso, os nazistas já admiravam muitos aspectos da cultura norteamericana: o culto ao esporte, a produção de valores por Hollywood, a mitologia da fronteira, entre outras. O próprio Hitler, em sua juventude, costumava devorar livros de western do popular escritor alemão Karl May. Não é por acaso que, anos mais tarde, quando obras eugenistas como The Passing of The Great Race, de Madison Grant, passaram a habitar sua cabeceira, ele irá tomar os EUA como o grande exemplo de cidadania racial, onde certas “raças” estariam excluídas da sociedade pela legislação e por políticas estatais. A discussão sobre isso é geralmente evitada porque os crimes do III Reich entraram para a história como uma espécie de radicalização absoluta do mal, tornando-se um tabu. Mas o ódio genocida que surgiu na Alemanha hitlerista já tinha sido visto antes e continua sendo visto até hoje.

Pode ser desconcertante para muitos, mas nos anos 1930 acadêmicos, advogados e oficiais nazistas, ao pensarem as políticas contra o povo judeu, foram muito influenciados pela legislação estadunidense. Eles tinham bons motivos para isso: a escravidão de africanos estava escrita na constituição do país, e o próprio Thomas Jefferson havia defendido a completa eliminação da população indígena norteamericana, algo que se tornou parte integrante da legislação do país. As leis federais que discriminavam os povos indígenas interessavam particularmente a esses especialistas nazistas, e o próprio Hitler, em seu conhecido Mein Kampf, já discutia essas leis e afirmava que os EUA eram um modelo racial a ser seguido pela Europa. Em um discurso em 1928 ele põe em relevo a maneira pela qual os EUA reduziram milhões de “peles-vermelhas” a apenas alguns milhares, que agora eram mantidos sob custódia com intensa vigilância numa “gaiola” (isto é, nas reservas).

Hitler estudou Bosque Redondo, um campo de concentração onde mais de 8 mil Navajo (entre homens, mulheres, crianças e idosos) foram mandados para trabalhar após a Longa Marcha (Long Walk) em 1864, com especial interesse no declínio populacional dos indígenas por causa de doenças e fome quando alocados em reservas e campos de trabalho forçado. Por isso os paralelos entre as práticas dos EUA para com os povos indígenas e as práticas do estado alemão em relação ao povo judeu muitas vezes podem parecer óbvias; como a própria Longa Marcha Navajo e sua conclusão em campos de trabalho forçados em comparação com as inúmeras levas de judeus caminhando até os campos de concentração na Alemanha nazista. A destruição de arte, música e livros judeus, e os enterros em massa, evocam o massacre de Wounded Knee, em 1890, onde gerações de pessoas e seu conhecimentos também foram enterradas em grandes túmulos coletivos.

A noção alemã de “espaço vital” (Lebensraum) claramente evoca o Destino Manifesto (doutrina do século XIX que dizia que os colonizadores norteamericanos deviam se expandir pela América do Norte pois eram um povo eleito por Deus para “civilizar” o continente), que levou a ações militares, massacres e políticas oficiais para remover indígenas do caminho da expansão norteamericana. O Destino Manifesto buscava exterminar os povos indígenas, confiná-los em reservas e ainda confiscar muitas destas mesmas reservas a fim de acabar com o status políticos destes povos. Isto é: sem terras e sem sustento essas pessoas finalmente se veriam “integradas” na sociedade capitalista norteamericana.

Advogados e juristas alemães, ao se debruçarem sobre o material norteamericano, estavam muito interessados no modo pelo qual os EUA conseguiram discriminar indígenas ao longo de séculos com base em conceitos como “raça” ou “sangue”. Mas não estamos falando tão somente de uma admiração ou uma inspiração dos nazistas no exemplo norteamericano: a legislação dos EUA para os povos indígenas foi profundamente estudada pelos acadêmicos alemães que criaram as chamadas leis de Nuremberg em 1935, que proibiam, por exemplo, relações sexuais e casamento entre judeus e alemães (como os nazistas os definiam), ameaçando os violadores da lei com severas punições.

Heinrich Krieger, um advogado alemão que estudou nos EUA entre 1933 e 1934, foi um ator crucial na análise da legislação norteamericana no âmbito da elaboração das leis de Nuremberg. Krieger chegou a publicar um livro, em 1936, com o título Race and law in the United States, mas antes disso ele havia publicado um artigo revisando especificamente a legislação estadunidense para os povos indígenas. Neste artigo discutia-se o tratamento discriminatório dado pelos EUA aos indígenas em uma miríade de leis e políticas estaduais e federais. A conclusão de Krieger é que, justamente, se tratava de uma “lei racial”, isto é, os indígenas eram tratados de maneira diferente pelo estado norteamericano por causa de uma alegada diferenciação racial em relação aos brancos. Para ele a própria natureza dos povos “tribais” é a de um grupo racial colocado sob o poderio de um estado. Assim, como os EUA haviam sempre discriminado os povos indígenas por uma questão racial, ficava justificado procedimento semelhante do estado Alemão em relação aos judeus.

Para David E. Stannard, autor de American Holocaust, o genocídio contra as populações nativas americanas foi possivelmente o maior da história humana. Fala-se em uma redução populacional da ordem de 95 a 99%. Este genocídio teve múltiplas faces, desde os assaltos dos espanhóis aos povos Arawak de Hispaniola em 1490 até massacres como o de Wounded Knee, passando pela disseminação de doenças infecciosas, trabalho forçado, escravização e assim por diante. Stannard advoga que o fim da Idade Média deixou na Europa um legado cristão cujas atitudes em relação à sexo, raça e guerras santas estiveram por trás de boa parte  das perseguições e massacres perpetrados pelos colonizadores contra os povos nativos das Américas. Avançando um pouco mais no mesmo argumento, ele afirma se tratar de um legado cultural comum  àqueles que levaram a cabo o Holocausto Americano e aos arquitetos do Holocausto Nazista.   

Em junho de 2016 a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou a H. Con. Res. 129, proposta por Ileana Ros-Lehtinen, um “pedaço” de lei que se referia ao Comitê de Relações Exteriores e que recomendava que a Alemanha garantisse que os sobreviventes do holocausto tivessem seus cuidados médicos e de bem-estar financiados pelo governo. De acordo com o texto da proposta a intenção era assegurar que todas as vítimas do holocausto vivam com conforto, dignidade e segurança os anos que lhes restam. É, certamente, uma preocupação admirável, mas coloca também a questão: quando os EUA irão fazer o mesmo em relação às vitimas do seu próprio holocausto, isto é, os povos indígenas norteamericanos?

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ABNT:

Vicente Cretton Pereira. Por quê os nazistas admiravam a legislação dos EUA para os povos indígenas?. Fora!. Acessado em 7 de julho de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/07/07/por-que-os-nazistas-admiravam-a-legislacao-dos-eua-para-os-povos-indigenas/>.

APA:

Vicente Cretton Pereira. (7 de julho de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/07/07/por-que-os-nazistas-admiravam-a-legislacao-dos-eua-para-os-povos-indigenas/.

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