Governo russo é acusado de envenenar mais um opositor de Putin

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O hospital alemão onde Alexey Navalny está em tratamento disse que ele está melhorando, mas continua em estado grave. Foto: Sefa Karacan/Anadolu.

O governo russo está sendo acusado pela Alemanha e por diversos outros países-membros da OTAN de envenenar Alexey Nalvany, um opositor de Putin, com uma arma química de uso militar chamada Novichok. O país já foi acusado de ter feito o mesmo em 2018, com um ex-espião da KGB que residia no Reino Unido e cooperava com os serviços de inteligência britânicos.

A Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW, na sigla em inglês), a agência global de armas químicas, disse na quinta-feira que o envenenamento de qualquer indivíduo com um agente tóxico para os nervos seria considerado uso de uma arma química proibida, em um comunicado sobre o envenenamento do crítico do Kremlin, Alexey Navalny. O Novichok, agente nervoso supostamente usado, foi banido este ano pelo OPWC.

“Qualquer envenenamento de um indivíduo pelo uso de um agente nervoso é considerado uso de armas químicas. Tal alegação é motivo de grande preocupação”, disse a OPCW.

Enquanto isso, a Rússia rejeitou as acusações de que Moscou teria culpa pelo envenenamento do líder da oposição Navalny, dizendo que não via motivos para a imposição de sanções sobre o caso.

A negação do Kremlin veio nesta quinta-feira (03/09), quando líderes e organizações ocidentais intensificaram seus pedidos de respostas, um dia depois que a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que Navalny havia sido envenenado pelo agente nervoso Novichok, de origem soviética, em uma tentativa de assassiná-lo.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que Moscou rejeitou qualquer sugestão de que a Rússia fosse a responsável, e alertou outros países contra conclusões precipitadas. Ele disse que não havia razão para discutir medidas contra Moscou depois que Merkel afirmou que a Alemanha consultaria seus aliados da OTAN sobre como responder ao envenenamento.

O hospital Charite, em Berlim, onde Navalny está internado na UTI, relatou “alguma melhora” em sua condição, mas ele continua em coma induzido e em ventilação artificial.

Em um comunicado na quarta-feira, o porta-voz de Merkel, Steffen Seibert, disse que testes feitos por um laboratório militar alemão especial mostraram “provas sem dúvida de um agente químico nervoso do grupo Novichok”, e descreveu Navalny como a “vítima de um ataque com um agente nervoso químico da Rússia”.

Merkel disse mais tarde em uma entrevista coletiva: “Esta é uma informação perturbadora sobre a tentativa de assassinato por envenenamento contra uma importante figura da oposição russa”.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, pediu a Moscou que investigasse o envenenamento, e disse que o embaixador russo foi convocado para explicar as evidências.

“Isso torna ainda mais urgente que os responsáveis ​​na Rússia sejam identificados e responsabilizados”, disse Maas a repórteres. “Condenamos este ataque nos termos mais fortes”.

O Novichok – um agente nervoso de nível militar – também foi usado para envenenar o ex-espião russo Sergei Skripal e sua filha, no Reino Unido, em 2018.

Entenda o caso

Navalny, 44 anos, um político e ativista anticorrupção que é um dos maiores críticos do presidente russo Vladimir Putin, adoeceu em um vôo da Sibéria para Moscou em 20 de agosto, e foi levado a um hospital na cidade siberiana de Omsk após o avião fazer um pouso de emergência.

Mais tarde, ele foi transferido para o hospital Charite, em Berlim, onde médicos disseram na semana passada que havia indícios de que ele havia sido envenenado.

Os médicos russos que trataram de Navalny na Sibéria contestaram repetidas vezes a conclusão do hospital alemão, dizendo que eles descartaram o envenenamento como diagnóstico e que seus testes para substâncias tóxicas deram resultados negativos.

Aleksandra Stoyanovich-Godfroid, da Al Jazeera, relatando de Moscou, disse que a resposta da Rússia até agora foi “cautelosa e contida”.

“Os médicos russos liberaram Navalny com um diagnóstico de ‘distúrbio metabólico’. Dois laboratórios na Rússia não encontraram nada suspeito e uma pré-investigação não encontrou nada que levasse a crime”, disse ela.

“Por outro lado, a oposição está dizendo: ‘Nós sabíamos [que era Novichok] – todos os sintomas estão lá'”.

Novichok é um inibidor da colinesterase, parte da classe de substâncias que os médicos da Charite inicialmente identificaram em Navalny.

Os aliados de Navalny disseram que a identificação, pelo governo alemão, do veneno usado contra ele sugere que o Estado russo está por trás do ataque.

“Apenas o estado [FSB, GRU] pode usar Novichok. Isso está além de qualquer dúvida razoável”, disse Ivan Zhdanov, diretor da Fundação Anticorrupção de Navalny, no Twitter, referindo-se ao Serviço Federal de Segurança (FSB) e ao Departamento Central de Inteligência (GRU) da Rússia.

Enquanto isso, Norbert Roettgen, chefe do comitê parlamentar de relações exteriores da Alemanha, disse à rádio Deutschlandfunk, na quinta-feira, que “deve haver uma resposta europeia” quando questionado se o trabalho no oleoduto NordStream 2, da Rússia para a Alemanha, deveria parar após o envenenamento de Navalny.

“Devemos buscar uma política dura, devemos responder com a única linguagem que [o presidente russo Vladimir] Putin entende – ou seja, as vendas de gás”, disse Roettgen, um membro do governo conservador de Merkel.

Respostas dos diferentes países

Rússia

O Kremlin disse que a Rússia está pronta para cooperar totalmente com a Alemanha.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse aos jornalistas: “Em geral, confirmamos que estamos prontos e temos interesse em plena cooperação e intercâmbio de dados sobre este assunto com a Alemanha”.

Peskov reclamou que a Rússia não recebeu uma resposta ao seu pedido de médicos alemães para compartilhar suas descobertas.

Ele insistiu que antes de Navalny ser evacuado para Berlim, em 22 de agosto, a Rússia não havia encontrado vestígios de envenenamento, refletindo declarações anteriores de médicos.

França

A França disse que o uso de Novichok da Rússia contra Navalny foi “chocante e irresponsável”.

“Quero condenar nos termos mais veementes o uso chocante e irresponsável de tal agente”, disse o ministro das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, em um comunicado.

Instando a Rússia a explicar o que aconteceu, ele acrescentou: “Dado o status político de Navalny na Rússia, o ataque contra ele levanta sérias questões. É responsabilidade das autoridades russas respondê-las”.

Reino Unido

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson disse que a notícia era “ultrajante” e pediu a Moscou que “explicasse” o que havia acontecido.

“Vimos em primeira mão as consequências mortais de Novichok no Reino Unido”, disse Johnson no Twitter.

“O governo russo deve agora explicar o que aconteceu com Navalny – trabalharemos com parceiros internacionais para garantir que a justiça seja feita”, disse Johnson.

O ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Dominic Raab, disse em um comunicado separado que a Rússia “deve dizer a verdade” sobre o que aconteceu.

Alemanha

A chanceler Merkel condenou veementemente o envenenamento, dizendo que Navalny é a “vítima de um crime”.

“O objetivo era silenciá-lo e condeno veementemente esse [crime] em nome do governo alemão”, disse Merkel durante uma entrevista coletiva.

Merkel anunciou que a Alemanha estava notificando seus parceiros da União Europeia e da OTAN sobre os resultados dos testes, a fim de decidir sobre “uma reação conjunta apropriada”.

Estados Unidos

A Casa Branca disse que está “profundamente preocupada” com a confirmação na Alemanha.

“O envenenamento de Alexei Navalny é completamente repreensível”, disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Ullyot, no Twitter.

“Trabalharemos com os aliados e a comunidade internacional para responsabilizar os russos, onde quer que as evidências levem, e restringir os fundos para suas atividades malignas.

“O povo russo tem o direito de expressar suas opiniões pacificamente, sem medo de retaliação de qualquer tipo, e certamente não com agentes químicos”.

União Europeia

A chefe da UE, Ursula von der Leyen, denunciou o que chamou de envenenamento “desprezível e covarde” de Navalny. Os responsáveis ​​devem ser levados à justiça, disse ela.

“Este é um ato desprezível e covarde – mais uma vez. Os perpetradores precisam ser levados à justiça”, afirmou.

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Redação do Fora!. Governo russo é acusado de envenenar mais um opositor de Putin. Fora!. Acessado em 3 de setembro de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/09/03/governo-russo-e-acusado-de-envenenar-mais-um-opositor-de-putin/>.

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Redação do Fora!. (3 de setembro de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/09/03/governo-russo-e-acusado-de-envenenar-mais-um-opositor-de-putin/.

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