Guerra Fria – nossa herança na memória da Segunda Guerra Mundial

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Arte: Marcio Vaccari.

O Fora! está completando um ano de existência. A data coincide com o aniversário de fim da 2ª Guerra Mundial. Em 15 de agosto de 1945 o Japão se rende, sendo os documentos de rendição finalmente assinados a bordo do convés do navio de guerra americano USS Missouri, em 2 de setembro de 1945, o que pôs fim à guerra. Para comemorar os 75 anos do fim deste conflito, durante as próximas semanas publicaremos uma série de textos especiais sobre o assunto, elaborados por nossos colunistas.

A Segunda Guerra Mundial é um dos temas dentro da História que mais geram fascínio entre estudantes, pesquisadores e, também, em meio ao senso comum. Foi a guerra que mais matou pessoas em toda a história da humanidade, com estimativas que variam entre 55 milhões e mais de 80 milhões de mortos. Foi o ponto culminante de intensos conflitos ideológicos entre grandes potências mundiais, em um contexto geopolítico de extrema complexidade que até hoje nos faz discutir as muitas vezes explosivas interações entre imperialismo, colonialismo, socialismo e “socialismo real”, fascismo, nazismo e liberalismo, dentre inúmeros outros conceitos aplicáveis à multifacetada realidade global da primeira metade do século XX.

É, ainda, uma guerra muito lembrada (e representada) em produções cinematográficas, com incontáveis filmes – tanto ficcionais quanto documentários – que trazem narrativas sobre um ou mais dos infinitos aspectos desse conflito. Não é exagero afirmar que, provavelmente, toda pessoa que tem como hábito assistir filmes – mesmo que só os “blockbusters” – já assistiu mais de um sobre a Segunda Guerra Mundial. E, curiosamente, o mesmo não se pode dizer sobre a Primeira Guerra Mundial, que é bem menos representada no cinema. Se estendermos nossas considerações à literatura de romances, HQs, mangás, programas de televisão, livros de não-ficção voltados para o grande público, reportagens especiais em grandes veículos jornalísticos e outros produtos culturais e midiáticos, a lista de obras sobre o tema é inesgotável.

E, não apenas o conflito, em si, ainda é muito visado em termos de consumo intelectual, midiático e cultural em geral, como os próprios chefes de Estado dos países mais envolvidos são lembrados até hoje – não apenas entre estudiosos, mas entre boa parte da população comum. Nomes como Churchill, Stalin, Hitler, Mussolini, Franklin Roosevelt e Hirohito são conhecidos até mesmo por uma enormidade de pessoas que nunca estudaram a fundo o assunto. E a cada um desses líderes é associada uma imagem grandiosa, seja de “herói” ou de “vilão” – em tempo: grupos diferentes podem trazer representações diferentes sobre cada um deles. Dentro da narrativa ocidental liberal, por exemplo, Winston Churchill faz parte do panteão dos “grandes homens” britânicos, enquanto o discurso de algumas correntes políticas situadas mais à esquerda do espectro (mas nem todas) já procuram desconstruir essa imagem, trazendo para o debate algumas atitudes e decisões do antigo primeiro-ministro que, geralmente, são deixadas de fora da sua história de glória, contada através de inúmeros monumentos em sua homenagem – que não necessariamente precisam ser estátuas, podendo ser, inclusive, músicas, como “Aces High”, da banda de heavy metal Iron Maiden (por acaso, inglesa).

A canção em questão trata da Batalha Aérea da Inglaterra, entre aviões ingleses e alemães, durante a Segunda Guerra, e se trata de uma mensagem utilizando uma linguagem estética típica do metal e enunciando, basicamente, o seguinte: “vamos lá, derrotar o inimigo!!!”. E essa “narrativa épica” se inicia com a gravação original do próprio Winston Churchill enunciando seu discurso mais famoso de todo o conflito e um dos mais famosos de toda a sua vida, que ficou conhecido pelo título “We shall fight on the beaches” (“Nós lutaremos nas praias”, em tradução livre). No caso, a banda utilizou apenas um pequeno trecho do discurso pronunciado no dia 4 de junho de 1940, na Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico. O recorte diz, em tradução livre: “Nós iremos até o fim, nós lutaremos na França, nós lutaremos nos mares e oceanos, nós lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, nós defenderemos nossa Ilha, seja qual for o custo, nós lutaremos nas praias, nós lutaremos nas áreas de pouso, nós lutaremos nos campos e nas ruas, nós lutaremos nos morros; nós nunca nos renderemos”.

Mas, como mencionei, existe uma outra narrativa sobre Winston Churchill, que lança uma “redecoração” em seu pomposo monumento de “estadista e grande líder”. Não se trata de trazer informações falsas, mas, simplesmente, de evidenciar acontecimentos que ficaram de fora da memória do “bravo líder”, pois atrapalhariam a narrativa. Aliás, a construção de uma determinada representação precisa, necessariamente, renunciar à complexidade do objeto representado, pois é, em geral, um esforço no sentido de elevar uma seleção de uma parte dos aspectos que o compõem à condição de totalidade. Assim, para a consolidação da imagem mencionada acerca do antigo líder britânico, deixam-se de lado partes significativas de sua biografia, como, por exemplo, o pensamento que ele enunciava desde a juventude de que os britânicos eram um povo superior e que, por isso, tinham o direito e até um “quase dever” de dominar os outros povos – ideia que não era exclusiva sua, sendo, inclusive, muito difundida na Inglaterra naquele momento, como justificativa dos vastos domínios do império britânico. E, justamente por ser um representante e entusiasta deste tipo de pensamento, foi contra e fez esforços para impedir as emancipações das colônias inglesas em diversos momentos. Há acusações de que ele teria, na Primeira Guerra Mundial, dado preferência a enviar soldados das colônias para operações militares de extremo risco, para poupar as vidas britânicas.

Mas este texto não é, exatamente, sobre Winston Churchill. O exemplo citado vem com o objetivo de refletir sobre o quanto as produções de discursos sobre a Segunda Guerra Mundial estão sempre nos fornecendo figuras para adorar ou para odiar. E isto nos leva ao que considero o maior legado do conflito para nós, até os dias atuais: a Guerra Fria, que tem como marco inicial o agressivo discurso do então presidente norte-americano Harry Truman, em 1947, no Congresso dos EUA, que anunciava a “necessidade de se defender as nações livres do avanço do comunismo”. Estava proclamada a carta branca para que aquele país agisse como entendesse que fosse necessário para manter e aprofundar suas zonas de influência, em nome de “evitar o comunismo e defender a democracia” – defesa esta que, como bem sabemos, pode incluir o apoio a regimes extremamente autoritários, como todas as ditaduras militares latino-americanas (inclusive a brasileira).

A Guerra Fria, nesse sentido, se configurou como uma disputa pelo poder de “definir o mundo” entre as grandes potências capitalistas, sobretudo os Estados Unidos da América, e o bloco de países socialistas liderado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Cada uma dessas forças definidoras tinha a intenção de manter e expandir sua zona de influência, o que significava uma intervenção direta nos países que se alinhavam com elas. Sendo assim, no caso do Brasil, por exemplo, o alinhamento se dava com o bloco capitalista ocidental, o que fazia com que nosso modo de viver tenha sido definido muito mais pela influência norte-americana do que pela soviética. Nesse caso, essa nossa situação geopolítica nos deu um aprofundamento do capitalismo – dependente, diga-se de passagem, já que as potências centrais já estavam definidas naquele contexto – e uma importação de padrões em diversas áreas da vida social: música, urbanismo, cinema, modelos empresariais, modelo de gestão política, modelo de família (e, também, as contestações a ele), tipos de alimentos e inúmeros outros aspectos. Ou seja, não era apenas uma questão de também sermos capitalistas, mas de termos as empresas desses países funcionando aqui, ou a importação de seus produtos, além de utilizar suas formas de vestir, pensar, se manifestar e agir politicamente da forma devidamente autorizada pelo bloco ocidental e, também, passar a se abrir a uma agenda liberal nos costumes depois que a centralidade do capitalismo o fez, ouvir as músicas produzidas por lá, produzir música aqui nos mesmos estilos deles, fazer o mesmo com o cinema e a literatura…

Enfim, os países que estavam sob a zona de influência do modelo capitalista, protagonizado pelos EUA, foram ficando cada vez mais americanizados em aspectos praticamente onipresentes de sua realidade. E o mesmo se pode dizer do “outro lado”, o bloco socialista, liderado pela URSS, embora, nesse outro bloco, no que diz respeito aos produtos culturais, como música, cinema, culinária, vestuário etc., a capacidade de criar um padrão a ser seguido tenha sido possivelmente menor. E, dentro dessa perspectiva de se desenhar o mundo dentro da sua zona de influência, uma das ferramentas essenciais era justamente a História. Afinal, o aspecto mais importante da afirmação do seu lado era, precisamente, a negação do outro. Dentro do bloco capitalista, o mais importante a ser estabelecido era que o socialismo (e, também, qualquer outra vertente de esquerda um pouco mais radical) não poderia ter vez. E dentro do espaço alinhado ao socialismo nenhuma apologia ao capitalismo ou às ideias liberais poderia encontrar terreno fértil. A grande questão é que, para que isso funcione, é necessário que se reduza a complexidade de conceitos como “capitalismo” e “socialismo” à ideia simplória de “bom” ou “mau”. Cada um dos blocos tinha a “missão” tácita (e, às vezes, declarada também) de desenhar a si próprio como o “supremo bem” e o outro como o “supremo mal”.

Assim, no sentido de conseguir êxito em tal empreitada, era necessário fazer com que as pessoas sob a sua zona de influência não apenas acreditassem na narrativa que se estava construindo, mas, também, que a repetissem. Ou seja, era necessário que a ideologia em questão estivesse tão cristalizada no senso comum a ponto das próprias pessoas se tornarem repetidoras dela – evidentemente, quando estamos falando de ideologia no sentido gramsciano, essa é a regra geral em qualquer sociedade baseada na hegemonia – logo, a construção do poder hegemônico de bloco também se ancora nesse mesmo princípio. Dessa forma, para que se cristalizasse o entendimento coletivo de que o “comunismo era o mal”, era necessário que as pessoas comuns acreditassem nisso e, mais do que isso, que repetissem essa conclusão, a ponto dela se tornar óbvia e de que afirmar o contrário fosse imediatamente visto como um completo absurdo. E o mesmo, de forma invertida, ocorreu dentro do bloco socialista.

Bom, como eu dizia, parte fundamental dessa “construção do óbvio” está no controle da História, ou, mais precisamente, da memória. Afinal, o sentido do “nós contra eles” é, em si, identitário; e precisa, para existir, do compartilhamento de um entendimento comum sobre o passado, uma narrativa compartilhada, um “caminho comum” que levou aquele grupo a ser a “substância coesa que hoje existe”. Assim, para o comunismo ser um “mal supremo”, é preciso que haja os “heróis”, tentando defender o mundo dele – o mesmo vale, de forma invertida, para o bloco socialista. E nada consagra melhor um herói do que uma grande história épica sobre seus feitos. Nesse sentido, ambos os lados têm narrativas grandiloquentes sobre a “conquista do espaço”, por exemplo. A URSS lançou o primeiro astronauta, mas os EUA foram os primeiros a chegar à Lua. E cada um lança um foco especial sobre a parte que mais contribui para a sua própria imagem de grandiosidade.

A lista de elementos utilizados para a construção das representações da grandiosidade do próprio lado e da “malignidade” do outro é extensa. A URSS, por décadas, trabalhou muito com a solidificação de uma memória da Revolução Russa libertando o povo da opressão do czarismo e, ao mesmo tempo, da exploração do capitalismo, estabelecendo um governo popular e verdadeiramente democrático (no sentido de poder popular, e não no sentido liberal, de eleições livres e ampla concorrência pelo poder). Já os EUA evocavam a grandeza de sua Independência e da liberdade em relação à metrópole inglesa, que possibilitou à nação “governar seus próprios destinos e buscar sua própria felicidade e grandiosidade”. Os soviéticos se referiam aos norte-americanos, ingleses e franceses como imperialistas, que não respeitavam o direito de autodeterminação dos povos e lhes impunham o seu modo de vida. Já as grandes potências ocidentais se referiam aos russos como ditadores que forçavam sua população a viver com pouco enquanto os seus líderes viviam em abundância. Os russos criticavam a extrema desigualdade do mundo capitalista, em que uma minoria ostentava um padrão de consumo nababesco enquanto a maior parte da população era explorada no trabalho e uma parte significativa passava fome ou se alimentava mal e era forçada a viver em condições precárias de moradia. Os americanos, por sua vez, criticavam a onipresença do Estado soviético em sua economia, alegando que isso seria insuportavelmente burocrático e ineficiente.

Essas construções discursivas que acabo de citar não são, exatamente, mentiras. Elas se baseiam em acontecimentos reais, mas, quando fazem esses recortes, anulam a complexidade desse real, transformando-o em uma caricatura que cabe na narrativa pretendida. A título de exemplo, histórias de processos de rupturas, como a Revolução Russa e a Independência dos Estados Unidos trazem acontecimentos que podem ser narrados como gloriosos, mas que são acompanhados de muitos momentos de crueldade. Ou, então, dão origem a uma realidade que pode ser entendida, dentro de um determinado viés de análise, como um avanço em relação ao que existia antes, mas que também inaugura ou aprofunda uma era de terror para grande parte dos envolvidos (e essa complexidade faz parte desses dois eventos citados).

Sendo assim, o processo de desenhar o mundo por ambos os blocos passava por ensinar aos sujeitos o que é o real. Para além da construção de representações de si e do outro de forma ativa, sobre a qual acabei de discutir, podem ser citadas, ainda, as políticas mais agressivas. No caso da URSS, havia uma ditadura propriamente dita, com controle rigoroso dos meios de comunicação e perseguição ativa de opositores políticos. Já no caso dos EUA e demais potências ocidentais, a imprensa e as pessoas públicas eram supostamente livres, mas, em determinados momentos de maior tensão geopolítica, eram vigiados de perto pelos órgãos de inteligência, chegando a haver formas de censura extraoficiais e, às vezes, até oficiais – como nos anos 1950, durante o macarthismo, em que vários funcionários públicos, artistas, professores e sindicalistas foram perseguidos sob acusação de serem comunistas ou simpatizantes do comunismo. E, mesmo quando não há intervenção oficial do Estado nos meios de informação, ainda assim há o filtro ideológico, uma vez que, como os veículos de comunicação de maior alcance são grandes conglomerados empresariais, a probabilidade de que eles concedam espaço relevante a uma publicação que pregue contra os seus interesses é bem pequena. Dificilmente veremos, por exemplo, um texto pregando a urgência de uma revolução contra o capitalismo no New York Times e, muito menos, na Fox News.

E aqui chegamos ao ponto central: essa ânsia por desenhar o real de ambos esses lados e dessa forma específica está relacionada, também, ao resultado da Segunda Guerra Mundial. Existe, até hoje, uma disputa discursiva para saber quem ganhou a guerra. Sabe-se que o Eixo definitivamente perdeu, mas quem o derrotou? Se depender do que dizem praticamente todos os filmes hollywoodianos sobre o assunto, os EUA foram os grandes heróis, porque avançaram em três frentes diferentes, duas contra os alemães e uma contra os japoneses (aliás, a narrativa liberal ocidental costuma lançar aos quatro ventos que os norte-americanos derrotaram o Japão praticamente sozinhos, sendo que os estudos atuais concedem um papel determinante da URSS à rendição japonesa, no momento em que ataca os territórios chineses conquistados pelos nipônicos). Eu, particularmente, até antes da graduação, sempre ouvi, inclusive em aulas de História, que os alemães só não conseguiram derrotar a União Soviética porque a guerra durou mais do que eles esperaram e o inverno russo os derrotou. Ou seja, a vitória soviética não teria sido mérito deles próprios, mas de um “acidente de percurso”. Sobre isso – não vou me estender nos pormenores – sugiro que ouçam o episódio nº 29 do podcast História FM, disponível nas principais plataformas de streaming de música. O importante é que essa narrativa deixa de lado a complexidade do acontecimento e propositalmente omite toda a estratégia de resistência do exército russo na defesa das cidades onde ocorreram as batalhas que, como se entende hoje entre os estudiosos do assunto, mudaram o rumo da guerra na frente oriental: Moscou, Stalingrado e Kursk. É importante salientar que essa mudança de rumo no conflito é algo de muito peso, pois essa foi a frente que envolveu os maiores contingentes militares, tanto da Alemanha quanto da União Soviética, e teve, também, o maior número de mortos. Ou seja, a frente onde a Alemanha concentrou a maior parte de seus esforços foi defendida sozinha pela URSS.

Essa última informação, por outro lado, leva os entusiastas do socialismo soviético a minimizar a participação dos demais aliados e de eventos como o “Dia D” ou a campanha militar na Itália, da qual o Brasil participou. Essa é, igualmente, uma tentativa de controle da batalha discursiva sobre a Segunda Guerra Mundial, para construir uma autoimagem gloriosa, anulando a do outro. Não há como negar que essas ações alcançaram objetivos efetivos importantes no conflito. O que nos leva à reflexão: houve dois grandes vencedores, tanto na guerra em si, quanto em projeção mundial: EUA (e outros países capitalistas de grande poder geopolítico, como Inglaterra e França) e URSS. Dali para a frente, como sabemos, o planeta se dividiu em dois modos de se entender o mundo, viver nele e agir sobre ele: o capitalismo liberal e o socialismo. Evidentemente, ambos já existiam antes da guerra, mas, a partir de sua conclusão, ficou nítido que o socialismo poderia ser visto por muita gente como uma alternativa viável ao capitalismo, pois a campanha soviética mostrou que o conjunto de nações socialistas (protagonizado pela Rússia) conseguiu se manter de pé e ter planejamento e produtividade suficientes para sair vitorioso num conflito dessas proporções. Sabemos, também, que o anticomunismo existe de forma mais perceptível desde a Revolução Russa (o fascismo, por exemplo, tem no combate ao comunismo uma de suas razões de existir), mas ele se torna uma prioridade absoluta do bloco capitalista após 1945. Assim, era necessário se provar que o socialismo não tinha condições de superar o capitalismo. E o outro lado tentava provar o contrário.

Nos dias atuais, não existe mais a URSS e a Guerra Fria foi considerada oficialmente encerrada com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e com o fim da União Soviética, em 1991. Entretanto, será que não temos ressonâncias até hoje, aliás, bem mais fortes do que supomos? Ao longo da segunda metade do século XX, nos países do bloco capitalista, as esquerdas, mesmo as mais moderadas – que não queriam acabar com o capitalismo, apenas lhe pôr alguns “freios” – geraram muita desconfiança entre as elites e classes médias. O golpe civil-militar de 1964, no Brasil, foi dado em nome de “salvar a nação do comunismo”, sendo que este não tinha nenhuma chance real de ser implantado. A preocupação real das direitas era com a esquerda trabalhista, que estava no governo naquele momento e andava muito longe de ter qualquer intenção revolucionária. Mesmo assim, João Goulart, o presidente deposto pelo golpe, foi acusado de tentar implantar o comunismo no Brasil.

Finalmente, se voltarmos aos últimos anos, temos visto uma nova ascensão do discurso anticomunista pelo mundo. E, novamente, uma direita ultrarradical coloca todas as esquerdas dentro do “terror comunista”. E, mais uma vez, temos visto uma cruzada contra a “dominação mundial pelo comunismo”. Temos visto ressurgir, no discurso público, falas que situam líderes reformistas de esquerda no campo do “comunismo”, e teorias conspiratórias mentirosas e análises equivocadas que já existiam no auge da Guerra Fria (como o “Decálogo de Lênin” e a “teoria da ferradura”). O fato de termos, no mundo, uma superpotência socialista novamente, a China, aumenta ainda mais os temores conspiracionistas. Parece que as permanências da Guerra Fria estão por aí, e atuando com firmeza. E, assim como em 1947, parece que o mundo capitalista está precisando se proteger novamente de qualquer ameaça estrutural, seja revolucionária ou reformista. Talvez a crise de 2008, que teve seus abalos aos países da centralidade do capitalismo mundial, aliada ao crescimento da China (socialista) e de blocos de países antes totalmente periféricos – Brics e Mercosul, por exemplo, com governos de centro-esquerda à frente, em sua maioria, e aproveitando um momento de crescimento no mercado mundial – tenha gerado na centralidade do capitalismo liberal um temor de que a humanidade pudesse querer tomar outro caminho. E isso, definitivamente, seria perigoso; nessa nova versão do embate entre o capitalismo e a crítica a ele (às vezes socialista, às vezes, não) cresce, novamente, a ânsia por segurar o lápis que desenha o mundo.

Para saber mais:

BEEVOR, Antony. A Segunda Guerra Mundial. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2015.

KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências: Transformação Econômica e Conflito Militar de 1500 a 2000. 5ª ed. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1988.

OLIVEIRA, Dennison de. Para Entender a Segunda Guerra Mundial – Síntese Histórica. Curitiba: Juruá Editora, 2020.

TOLAND, John. The Rising Sun: The Decline and Fall of The Japanese Empire, 1936-1945. New York: Modern Library, 2003.

Segunda Guerra: uma síntese da maior de todas as guerras. História FM, Episódio 29. Produzido e apresentado por Icles Rodrigues. Entrevistado: Dennison de Oliveira. Edição de Icles Rodrigues e Matheus Gomes Coelho. 1 de junho de 2020. Podcast. Disponível em: https://leituraobrigahistoria.com/2020/06/01/segunda-guerra-uma-sintese-da-maior-de-todas-as-guerras/

Para citar este artigo, use os padrões abaixo.

ABNT:

Fernando Muratori Costa. Guerra Fria – nossa herança na memória da Segunda Guerra Mundial. Fora!. Acessado em 3 de setembro de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/09/03/guerra-fria-nossa-heranca-na-memoria-da-segunda-guerra-mundial/>.

APA:

Fernando Muratori Costa. (3 de setembro de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/09/03/guerra-fria-nossa-heranca-na-memoria-da-segunda-guerra-mundial/.

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