Grécia e Chipre ameaçam Turquia com sanções por causa de Varosha

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Cirpiotas gregos protestam contra a reabertura de uma faixa de praia em Varosha. Foto: Petros Karadjias/AP.

A Grécia afirma que se a Turquia não reverter a reabertura de parte da cidade-fantasma cipriota, pode tentar desencadear sanções econômicas.

A Grécia disse que, a menos que a Turquia reverta a reabertura de partes de Varosha, na costa leste de Chipre, pode tentar desencadear sanções econômicas através da União Europeia.

Na quinta-feira, as tropas turcas reabriram partes do local, gerando polêmica dias antes de uma eleição no Chipre. Varosha é um bairro abandonado do sul da cidade cipriota de Famagusta; antes de 1974, era a área turística da cidade. Seus habitantes fugiram durante a invasão turca em 1974, quando a cidade de Famagusta ficou sob controle turco.

“A Turquia precisa dar um passo atrás. Caso contrário, na próxima semana Chipre e Grécia colocarão o assunto em discussão pelos líderes da União Europeia no Conselho Europeu, de 16 a 17 de outubro ”, disse o porta-voz do governo grego Stelios Petsas, na quinta-feira.

Grécia e Chipre buscaram sanções contra a Turquia na semana passada, em retaliação pela exploração turca de petróleo e gás na costa de Chipre.

O primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, condenou a ação para reabrir Varosha.

“Esta decisão é uma violação clara das resoluções do Conselho de Segurança da ONU. A Grécia apoiará todos os esforços relevantes da República de Chipre”, disse ele.

Os cipriotas gregos agora vivem na República de Chipre, no sul da ilha, enquanto os cipriotas turcos vivem em um enclave do norte ainda ocupado pelas tropas turcas.

A ONU pediu que Varosha seja devolvido aos seus ex-habitantes cipriotas gregos, ou pelo menos à força de paz da ONU que atua na região (UNFICYP).

O mais recente movimento da Turquia arrisca suspender décadas de esforços para alcançar uma reunificação política da ilha como um estado federal bi-comunal.

É também uma bofetada na cara da União Europeia, que na semana passada resistiu aos apelos gregos e cipriotas por sanções contra a exploração turca de hidrocarbonetos na região.

Em 02 de outubro, a UE disse que “condena veementemente as violações dos direitos soberanos da República de Chipre, que devem parar”, mas não mencionou explicitamente as sanções.

Na quinta-feira, Mitsotakis e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, emitiram uma declaração conjunta pedindo à Turquia que respeite as resoluções anteriores do Conselho de Segurança da ONU.

Mas as autoridades cipriotas turcas e turcas insistem que a ação para reabrir partes de Varosha não afetará os direitos dos proprietários cipriotas gregos, uma vez que apenas a praia está aberta por enquanto.

Interferência eleitoral

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, anunciou a reabertura de Varosha na terça-feira, em uma conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro da comunidade cipriota turca, Ersin Tatar.

O líder cipriota turco Mustafa Akinci acredita que a medida é uma tentativa de influenciar o resultado das eleições presidenciais de domingo, no norte da ilha.

Ele chamou o anúncio de Ancara de “uma vergonha para nossa democracia” e “interferência em nossas eleições”.

Ao contrário de outros membros do gabinete, Akinci é a favor de uma maior independência da Turquia, que financia o enclave turco-cipriota e posiciona cerca de 35.000 soldados lá.

Petros Liakouras, professor de Relações Internacionais da Universidade de Pireu, disse à Al-Jazeera que Ancara está apoiando o ministro das Relações Exteriores do enclave, Kudrey Ozersay, como próximo presidente.

“Mas eu não acho que ele vai ganhar. Acho que Akinci será o vencedor no segundo turno”, disse Liakouras.

“Akinci realmente está promovendo os interesses dos cipriotas turcos, que são diferentes dos interesses daqueles que se tornaram cipriotas turcos após 1974 com a política de assentamento”.

A população turco-cipriota da ilha cresceu de 80.000 em 1974 para mais de 200.000, em parte devido às iniciativas turcas para encorajar seus cidadãos a se instalarem na ilha por meio de incentivos como moradia gratuita.

Akinci falou publicamente contra a reabertura de Varosha.

Em fevereiro passado, ele ganhou a ira do governo de Erdogan expressando temores de que, se os esforços contínuos para reunificar a ilha não avançarem rapidamente, o Norte de Chipre corre o risco de ser anexado pela Turquia – uma perspectiva que ele chamou de “horrível”.

‘Ponto estratégico’

Chipre acusou a Turquia de desafiar sistematicamente as resoluções da ONU na ilha.

Em novembro de 1974, três meses após a invasão, a Assembleia Geral da ONU pediu a “retirada rápida de todas as forças armadas estrangeiras” em Chipre, sem efeito.

Uma série de resoluções do Conselho de Segurança da ONU apelou especificamente ao exército turco para renunciar ao controle de Varosha.

Em 1977, depois que a Turquia expressou pela primeira vez seu desejo de colonizar Varosha, a Resolução 414 exortou todas as partes a se absterem de “ações unilaterais em qualquer parte de Chipre que possam afetar adversamente as perspectivas de uma solução justa e pacífica”.

Depois que a Turquia declarou o enclave do norte uma República Turca Independente do Chipre do Norte em 1983, o que apenas Ancara reconhece, a Resolução 550 novamente disse que os membros do Conselho de Segurança estavam “profundamente preocupados com as ameaças recentes de colonização de Varosha por outras pessoas que não seus habitantes”.

Em 1992, a Resolução 789 dizia que se Varosha não pudesse ser devolvida aos seus habitantes cipriotas gregos, deveria pelo menos ser colocada sob o controle do UNFICYP da ONU.

Recentemente, em julho deste ano, o Conselho de Segurança continuou a pedir a implementação de resoluções anteriores sobre Varosha.

Liakouras acredita que a Turquia tem razões estratégicas para ocupar Varosha.

“Famagusta é um ponto muito estratégico. A Turquia mantém suas forças armadas em Chipre para ter maior influência no Oriente Médio. Quer de lá controlar o Líbano e a Síria e oferecer ajuda à Palestina”, disse.

“A Turquia gostaria muito, e já disse isso, de estabelecer uma base naval ao norte de Famagusta… a partir da qual pode lançar uma força de reação rápida para controlar toda a área”.

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Redação do Fora!. Grécia e Chipre ameaçam Turquia com sanções por causa de Varosha. Fora!. Acessado em 8 de outubro de 2020. Disponível em <https://fora.global/2020/10/08/grecia-e-chipre-ameacam-turquia-com-sancoes-por-causa-de-varosha/>.

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Redação do Fora!. (8 de outubro de 2020). Fora!. https://fora.global/2020/10/08/grecia-e-chipre-ameacam-turquia-com-sancoes-por-causa-de-varosha/.

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